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    #129
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    1. Gota D’Água, o primeiro notável do Coro Municipal

      17/05/2012 por O Caxiense

      Musical foi destaque na coluna Camarim da edição 128. (mais…)

      Categoria: Destaques, Marcelo Aramis | Tags: coral municipal,Cultura,dança,Gota D'Água,musical,Prêmio de Incentivo à Montagem Teatral,teatro | Nenhum comentário
    2. Cuerdas impecáveis e um pecado nos tacones

      19/03/2012 por Marcelo Aramis

      O corpo de um bailarino de flamenco é um instrumento musical. As palmas, os saltos, o estalar de dedos, as castanholas… Bailar é fazer música. Este corpo-instrumento é metade da demanda musical do espetáculo. Em Cuerdas Y Tacones, que comemora os 10 anos do La Cueva, apresentado no último sábado (17) no Teatro Municipal, a música das guitarras de Juliano Brito e Luis Gustavo Viegas deveriam, como prevê o título, dar conta de 50% da apresentação. Foram além. As cuerdas ganharam papel de protagonistas porque o corpo de baile, os tacones, desafinou.

      Os destaques da dança foram Elisabete da Cunha, diretora da escola e codiretora do espetáculo com Renata Pontaltti, e o bailarino Gabriel Matias, de Porto Alegre. Estes corpos absorvem os acordes e os movimentos parecem ser ativados pela música. A sincronia dos bailarinos com o som atinge um nível capaz de confundir qual/quem é o instrumento. A expressão do rosto reproduz a expressão do cante. De repente, braços e pernas são tão guitarra ou cajón quanto os próprios. Se a música fosse interrompida, o corpo seguraria o ritmo.

      A música tocada pelas mãos e pés de Bete e Gabriel desafina na maioria dos outros corpos. Então, em uma coreografia de grupo, uma bailarina perfeitamente entrosada com o ritmo desaparece. Os outros pés tocam músicas paralelas, se atrasam ou se adiantam no compasso das batidas; os braços sobem e descem em tempos diferentes; as finalizações formam um desenho torto no palco. O ruído é ouvido até mesmo no duo, onde teoricamente deveria ser mais simples transformar os corpos em um.

      Um espetáculo de escola tem que abrir espaço para contemplar todo o elenco. A falha talvez esteja na composição das coreografias, que não valoriza talentos individuais e compromete o conjunto com saltos descompassados. Sugiro então um espetáculo feito de solos? Não. Aqueles saltos que desafinam no grupo não tocariam bem sozinhos. Se sincronizar é impossível, melhor optar por coreografias que integrem diversos níveis sem forçar a harmonia. Em um conjunto de 10 bailarinos, o destaque não é para os 9 que batem juntos seus tacones. O único que sai do ritmo rouba a cena.

      Categoria: Colunas, Destaques, Marcelo Aramis | Tags: Cultura,dança,Espetáculo Cuerdas y Tacones,flamenco,La Cueva | Nenhum comentário
    3. Uma sapatilha masculina na Sinimbu

      06/03/2012 por Marcelo Aramis

      Três garotos calçam sapatilhas de balé e respiram fundo antes de percorrer a Sinimbu. Quem dera a tensão fosse apenas pelo nervosismo de dançar para milhares de pessoas ou pela responsabilidade de atuar em uma das melhores atrações que o Desfile Cênico Musical da Festa da Uva apresentou. A cada quadra, entre os merecidos aplausos, ouvem as piadas e os insultos de quem não tolera um homem dançando balé. No corso da quarta-feira (22), a ignorância atingiu o nível mais alto, o da agressividade, e alguém jogou um cacho de uva contra os bailarinos de Dora Ballet, na dispersão. O bailarino Elvis Barbieri, de 21 anos, que comunicou o episódio à coluna, pretende continuar dançando, de preferência onde todos possam ver, e encorajando outros garotos a uma arte que não ameaça a orientação sexual de ninguém. É o talento que lhe dá segurança. Os inseguros, os ameaçados a ponto de contra-atacar (?) é que têm que ver isso aí, hein…

       

      Categoria: Colunas, Destaques, Marcelo Aramis | Tags: bailarino,balé,Desfile Cênico Musical,Dora Ballet,Festa da Uva | Nenhum comentário
    4. Festa da Uva e o design gráfico antes do Photoshop

      24/02/2012 por Marcelo Aramis

      A Câmara de Vereadores sedia uma exposição com 25 exemplares originais dos cartazes da Festa da Uva – a maioria do acervo do ex-prefeito e ex-presidente da Festa Mario David Vanin. O mais antigo é de 1950. A exposição fica em cartaz até o dia o próximo dia 5. A visitação pode ser feita das 8:30 às 18:00.

      Como prometido na edição 117, disponível nas bancas e no iPad, a coluna mostra uma galeria de cartazes da Festa da Uva, pré e pós Photoshop. Até 1994, quando design ainda era um processo braçal, o cartão de visitas da festa era mais inteligente. Mas essa é a minha opinião, argumentada na edição impressa. Aqui, aguardo a sua.

       

       

      Categoria: Colunas, Destaques, Marcelo Aramis | Tags: arte,cartazes,Cultura,Design Gráfico,Festa da Uva,história | Nenhum comentário
    5. Tablado Caxias: o berço caxiense do flamenco

      19/12/2011 por Marcelo Aramis

      Um público elegantemente vestido chegou cedo, por volta das 20:00 do último domingo, ao UCS Teatro para o espetáculo Suena Flamenco, do Tablado Caxias do Sul. No saguão, iluminado pelo pôr do sol – ótima luz para um baile flamenco – as pessoas foram recepcionadas com espumante. Os espectadores, que quase lotaram a plateia baixa do teatro mais nobre de Caxias, pagaram de R$ 35 a R$ 45 para assistir a um show de flamenco com artistas locais. E tudo ali parecia um exagero para a realidade cultural caxiense.

      VEJA GALERIA DE FOTOS DO ESPETÁCULO

      Depois que o teatro abriu, o público aguardou mais 25 minutos de atraso. O show que começava ali, simples de cenário e iluminação, justificou toda a pompa. Foi um espetáculo de gala.

      A diretora da escola, Gisele Domit, que estuda há 2 anos na Espanha e produziu o espetáculo por lá, trouxe duas celebridades do flamenco internacional para o espetáculo: o cantor uruguaio Márcio Bonefon e o músico brasileiro Fernando De La Rua. Ambos justificaram no palco o status de celebridades, mas não ofuscaram a atuação do Tablado. A qualidade técnica do corpo de baile da escola foi a grande atração de Suena Flamenco. Diziam a Gisele que seria impossível coreografar um corpo de baile da Espanha para o Brasil, enviando e recebendo vídeos. A coreógrafa, que há 14 anos teve coragem de abrir uma escola de flamenco em Caxias, também confiou no talento e na empatia com a escola para arriscar chegar em Caxias 10 dias antes da estreia e apresentar um espetáculo impecável para o UCS Teatro lotado.

      O grupo, ensaiado por Karime Domit, apresentou 13 coreografias, divididas por níveis de aprendizado. E a distância entre a criação e as criaturas é imperceptível. A perfeita adaptação de coregrafias para cada fase de habilidade resultou em uma performance linear do conjunto, de alto nível técnico. Em uma dança onde a forma física é menos importante do que a força de expressão, os grupos apresentaram excelente sincronismo e chegaram ao máximo de suas habilidades.

      O que se sobrepõe em Suena Flamenco são os solos, de Gisele Domit e do filho, Stefano Domit, que coreografou o espetáculo em parceria com a mãe. Ao primeiro toque do salto de cada um sobre o palco, o público já sabe que verá o máximo de uma performance de flamenco. E eles seriam capazes de causar o mesmo impacto em qualquer plateia da dança no mundo inteiro.

      No final do espetáculo, Gisele agradece a escola, os patrocinadores, o público, os músicos e especialmente o filho. E mistura orgulho à saudade precoce de um talento que deve se distanciar cada vez mais de casa para conquistar o mundo. Stefano também agradece à mãe pela perseverança em 14 anos de Tablado e por ter formado, além de um excelente corpo de baile, a plateia caxiense de flamenco. Pode até parecer um exagero, mas não é.

      Categoria: Colunas, Marcelo Aramis | Tags: Fernando De La Rua,flamenco,Gisele Domit,Márcio Bonefon,Stefano Domit,Tablado Caxias do Sulk | 1 Comentário
    6. Cinema: jejum no fim de 2011 e um aperitivo para 2012

      16/12/2011 por Marcelo Aramis

      O período de férias é também uma boa oportunidade para ir ao cinema. Na contramão do aumento da demanda por lazer, duas salas fecham as portas neste final de ano. A programação do cinema do Ordovás encerra na próxima segunda (19), para manutenção, e retorna no dia 12 de janeiro com Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim, de Julie Gavras. O UCS Cinema também fecha na segunda (19). Neste fim de semana, os ingressos têm preço único de R$ 5. O cinema retorna no dia 1° de fevereiro, ainda sem programação definida – espera-se sem Os Smurfs.

       

      Fast food saudável
      Depois de um ano farto em boas produções de cinema, a Spaghetti Filmes encerra 2011 com uma receita que é especialidade da casa: criatividade. A produtora substituiu os tradicionais cartões de Boas Festas por um vídeo de dar água na boca.
      Assista o filme Por um 2012 sem dietas.

      Categoria: Colunas, Marcelo Aramis | Tags: | Nenhum comentário
    7. Divertssements: os meninos de Dora Ballet

      12/12/2011 por Marcelo Aramis

      Uma escola de ballet nunca envelhece. Os 50 anos de Dora Ballet, que apresentou suas coreografias premiadas de 2011 no último fim de semana, mostram porque o fruto do seu trabalho se chama “clássico”. Divertssements, o espetáculo de final de ano da escola , teve mais de 2 horas de duração e deu espaço para todos os níveis de bailarinos. O desequilíbrio, a falta de resistência e os corpos fora forma são comuns neste contexto. Entre as crianças, por exemplo, o erro é a grande atração. Mas mesmo nesses momentos em que as falhas são bem-vindas a atuação do grupo mostra a busca pelo alto nível e revela o slogan da escola, “Sempre em busca da perfeição”.

      Nos conjuntos, o elenco principal de Dora apresenta-se quase impecável em Célébration de La Vie e Mari!. As bailarinas Ana Cláudia dos Santos Pereira, Ana Paula Zuccolotto, Camila Mendes de Vargas, Elisa Grigoletto e Jaquelyne Barbieri ultrapasam o quase em vários momentos. São os meninos, no entanto, que ganham a plateia. E não chamam atenção simplesmente pela razão meninos/meninas no palco – em Divertssements, eram 42 bailarinas para cada bailarino. Os 3 meninos de Dora  preenchem o palco. Minoria desde sempre no clássico, eles se esforçam para se sustentar na dança ainda entendida como “coisa de mulher”. Elvis Barbieri, Matheus Nadal e Michael Figueiredo de Vargas alcançam o que os homens de balé precisam para garantir seu espaço – e respeito – no palco do clássico. Chegam muito perto da excelência.

      Categoria: Colunas, Marcelo Aramis | Tags: | 1 Comentário
    8. Dança contemporânea: três partes e um aparte

      09/12/2011 por Marcelo Aramis

      O espetáculo Fragmentos reuniu a Cia. Municipal de Dança, o Grupo Ney Moraes e o ArticulAções. No palco do Teatro Municipal, a tríade saudou um grande espetáculo da Cia. e apresentou novas criações. Inevitavelmente, a remontagem de Tres Partes y Una Pared, de 1999, apresentada por primeiro, foi cruel com Ident(idade), de Ney, e Divisões e Recortes, do ArticulAções. Realmente, é difícil empolgar a plateia depois de Tres Partes. Confira abaixo as resenhas dos espetáculos. A ordem não é a mesma de Fragmentos. Neste roteiro, o melhor fica para o final.

      Ident(idade)

      O que não falta no espetáculo de Ney Moraes é identidade. A marca do coreógrafo está em cada movimento. Mas é difícil de enxergar. Já é antiga a pesquisa de Ney sobre as possibilidades de movimento em diversos tipos de corpos. Em Ident(idade), ele mostra uma nova estética para a velha dinâmica. E é a estética o elemento mais prejudicado na montagem.

      Dois bailarinos profissionais, um músico, um ator e um capoeirista testam os repertórios dos seus corpos. No fundo do palco, uma projeção de um outro espetáculo de Ney, Fato, interage com a dança. A cena torna míope qualquer espectador, que anseia para que a projeção seja cortada e a luz incida sobre a dança ou que os bailarinos saiam da frente das imagens e o espetáculo se transforme em uma sessão de cinema. Fato, que destacava as ótimas performances de Evandro Pedroni e Luan de Lima, da Cia. de Dança, aparece escuro e borrado como coadjuvante da cena. Os atores principais são ainda mais sufocados pela penumbra.

      Há uma luz fraca para iluminar as melhores performances – dos profissionais. Os movimentos são prejudicados pelas zonas escuras da projeção e as partes claras recortam os corpos, escondem os braços e pernas, comprometem os solos. Por exemplo, em um momento da atuação de Alessandra Abrantes, que poderia salvar o espetáculo, a luz de palco enfraquece e a imagem do projetor ilumina a cintura da bailarina, enquanto o movimento acontece nos braços e pernas.

      Até mesmo a interessante e dedicada pesquisa de Ney, que sugere um corpo capaz para a dança em quaisquer condições físicas, é inferiorizada em Ident(idade). Para cada corpo, há um diálogo entre a proposta coreográfica e a disponibilidade física e o repertório individual de cada membro do elenco. Mas o músico, por exemplo, apenas atravessa o palco caminhando lentamente. Em Fato, o próprio Ney fazia o mesmo, porém, sentado sobre uma rampa no fundo do palco, deslizando imperceptivelmente como o ponteiro dos minutos no relógio. Era poético e fazia sentido. No espetáculo de ontem, a caminhada não tem o mesmo efeito. E se o resto faz algum sentido – o currículo de Ney faz acreditar que sim – eu não consegui ver em Ident(idade).

      Divisões e Recortes

      Um quadrado dividido em 4 partes, 4 coreógrafos e 4 coreografias. Divisões e Recortes, do ArticulAções, é um compacto de idem[variáveis]ibidem, o primeiro espetáculo do grupo. E, pela proposta de cada coreógrafo, poderia funcionar como 4 espetáculos diferentes. Pelas chances de agrupamento, mais 11 possibilidades. Já a combinação – ou contraste? – entre o corpo atlético (característica dos acadêmicos de Educação Física que compõem o grupo) e o desafio do corpo de dança tem infinitas possibilidades.

      Os quadrantes foram coreografados por Magda Bellini, atual coordenadora do ArticulAções, Sigrid Nora, Ney Moraes e Verônica Gomesjurado. E não conversam entre si. A mudança da cena em cada quadrante, desenhado com fitas sobre o linóleo, é um solavanco. A virada brusca, de estética, figurino e trilha, é sentida pela expectativa acostumada de um conjunto harmônico, o que não é a proposta de Divisões. Ali, é mais importante a atuação do elenco em cada parte.

      Em Fragmentos, Divisões é a parte mais imatura do ArticulAções como bailarinos. E a intenção do projeto não é profissionalizá-los em dança. Não são os tênis, figuras estranhas no palco da dança contemporânea, que os revelam como atletas. Na maior parte do espetáculo, é a postura e a estética dos movimentos que mostram os atletas: um desafio ao corpo de cada um e à plateia.

      O espetáculo não tem a força de expressão que se espera da arte. No conjunto da obra, que eu, como espectador, forço, Divisões é um resumo de habilidades no campo minado das zonas de conforto e desconforto. É um portfólio das possibilidades físicas daqueles corpos dedicados à técnica e dispostos aos desafios da dança. O conflito entre o corpo atlético e o corpo expressivo é franco: orgulhosos pelo preparo físico e humildes enquanto bailarinos estreantes.

      Divisões e Recortes, como o próprio ArticulAções, é um projeto aberto de experimentação. E a fonte de pesquisa, que serve tanto à dança contemporânea quanto à Educação Física, é inesgotável.

      Tres Partes y Una Pared

      Depois de 12 anos da estreia, a coreografia de Brenda Angiel, com uma parte suprimida nesta remontagem, ainda emociona. A dança aérea de Brenda pendura os bailarinos a 4 metros do chão. E os mesmos cabos que aprisionam – torturam – são indispensáveis para o voo mais leve que a dança contemporânea caxiense já viu.

      Assisti à 2ª sessão de Fragmentos, quando Tres Partes foi dançado pelo ArticulAções com a participação da Cia. de Dança em um duo. Gosto particularmente dos espetáculos em que o elenco sofre. Na abertura, uma bailarina fica presa pela cintura no centro do palco e é conduzida por um bailarino no chão. Uelinton Canedo, da Cia., impressiona pelo vigor físico, pela precisão de movimentos. Conquista a sutileza que eu admiro na exigência física da dança: fazer uma coreografia difícil e tecnicamente exigente parecer leve e natural aos olhos da plateia.

      Depois é a vez do ArticulAções quebrar o limite entre o bailarino e o atleta. Pendurados em cabos, os bailarinos – sim, bailarinos – deram um salto em qualidade de movimento. Os corpos acostumados com a exigência de força e técnica no esporte alcançam o ritmo, a leveza – não de movimento, mas de proposta estética – e a sensibilidade exigidos pela dança. Pendurados na parede, que agora é o linóleo, um trio inverte também a percepção do público. Se a parede é chão, o palco é parede. Mas o espectador experimenta uma dimensão desconhecida e inexplicável.

      Na ótima interpretação – atletas aprenderam isso também – fica difícil descobrir o que dói no corpo dos bailarinos, qual movimento é de tensão ou de alívio físico. Provavelmente também é o inverso do que se percebe. Quando voam e correm pela parede, exigem o máximo do preparo físico. Mas para quem vê, aqueles corpos não sofrem o poder da gravidade.

      Um aparte

      A dança contemporânea não precisa contar uma história, ter um roteiro lógico, definir início, meio e fim. O que a coreografia pretende causar no público depende da percepção individual. Desconforto, dor e monotonia podem ser tão bons quanto satisfação, relaxamento e entusiasmo. E o mesmo espetáculo pode causar tudo isso, ao mesmo tempo, para espectadores diferentes.

      O flyer que se entrega na entrada dos espetáculos é uma ameaça a um direito conquistado pela dança contemporânea: não é obrigatório se explicar. Geralmente, em textos complexos e desconexos, eles tentam dizer o indizível. E a subjetividade da dança migra para a escrita. A dança não precisa comunicar a mesma mensagem para todo mundo, um texto de apresentação precisa. Em palavras dançando com displicência, coreografias poéticas perdem a poesia. E as que não a têm perdem a oportunidade de ficar caladas.

      Categoria: Colunas, Cultura, Geral, Marcelo Aramis | Tags: Dança Contemporânea,Divisões e Recortes,Iden(idade),Tres Partes y Una pared | 3 Comentário
    9. A melhor coreografia da Cia. de Dança volta em voo duplo

      05/12/2011 por Marcelo Aramis

      O melhor espetáculo da Cia. Municipal de Dança, na minha opinião, volta ao palco depois de 12 anos desde a estreia. A ideia de remontar o Tres Partes y Una Pared, surgiu em um encontro entre as duas gerações da Cia: Sigrid Nora, coordenadora em 1999, e Cristina Nora Calcagnotto, atual coordenadora. Do café, veio a parceria entre a Cia. e o grupo ArticulAções, da UCS, hoje coordenado por Magda Bellini.  Tres Partes é dançado com ares de nostalgia, um novo elenco e o mesmo desafio coreográfico de 99.

       

      Com coreografia da argentina Brenda Angiel, o espetáculo pendura os bailarinos em cabos, a 4 metros do chão, e faz da parede o próprio linóleo. A Cia. foi ensaiada pelo coreógrafo Ney Moraes, que participou dos ensaios e também integrou o elenco da estreia. Para a coordenadora Cristina Nora, o desafio da Cia. é o mesmos do antigo elenco: o espetáculo aéreo, o mais difícil tecnicamente de todo o repertório. E o resultado da remontagem é muito próximo daquele de 99.

      “Na época, participei assistindo. E, para mim, o espetáculo é o mesmo. Só mudam os corpos”, conta Cristina, sobre os ensaios da Cia. que dividiram espaço com outros 2 espetáculos desde março deste ano.

      No grupo ArticulAções, formado por acadêmicos do bacharelado e licenciatura em Educação Física, os obstáculos são este e mais outro. Para Magda Bellini, coordenadora do grupo, a meta diária dos bailarinos não-profissionais é ultrapassar a técnica e o condicionamento físico para alcançar a expressividade na dança. Um desafio para o qual, agora, a coreógrafa se sente segura.

      “No dia do espetáculo, se tu não conheces as pessoas, fica difícil dizer quem é da Cia. e quem é do ArticulAções”, antecipa Magda.

      • Ident(idade), 2011 | Maurício Concatto, Divulgação/O Caxiense
      • Divisões,  2011 | Jonas Ramos, Divulgação/O Caxiense
      • Tres Partes y Una Pared, ensaio 2011 | Maurício Concatto, Divulgação/O Caxiense
      • Tres Partes y Una Pared, ensaio 2011 | Maurício Concatto, Divulgação/O Caxiense
      • Tres Partes y Una Pared, ensaio 2011 | Maurício Concatto, Divulgação/O Caxiense
      • Tres Partes y Una Pared, 1999 | Joel Jordani, Divulgação/O Caxiense
      • Tres Partes y Una Pared, 1999 | Mario Andre Coelho Divulgação/O Caxiense

      Durante o processo de remontagem, a coreógrafa contou com a ajuda de Carolina Campos, bailarina da estreia de Tres Partes. E se viu em apuros pela dificuldade técnica do espetáculo.

      “A concepção coreográfica muda o plano da dança, acostumada a ter os pés no chão. Os corpos ficam paralelos ao chão. No início parecia algo inatingível. Alguns bailarinos tiveram lesões – nada grave –, mas o grupo está pronto”, conta a coreógrafa.

      O elenco do ArticulAções teve aulas de teatro, dança de salão, interpretação… Tudo para melhorar o que “mecanicamente funciona muito bem, mas a dança exige  mais”.

      Tres Partes y Una Pared está inserida no espetáculo Fragmentos, que apresenta também os trabalhos Ident(idade), do Ney Moraes Grupo de Dança e Divisões e Recortes, do ArticulAções. Haverá duas sessões no Teatro Municipal, ambas com entrada franca. Na quarta (7), às 20:00, a Cia. comanda a cena de Tres Partes, com a participação do ArticulAções. Na quinta (8), no mesmo horário, invertem-se os papeis.

      Melhor do que ter uma nova oportunidade de rever o cartão de visitas da Cia, é saber que o retorno do espetáculo está nos planos do grupo  para o início de 2012.


      Categoria: Colunas, Marcelo Aramis | Tags: | 1 Comentário
    10. Gaudério: dança para quebrar o gelo do Sul

      30/11/2011 por Marcelo Aramis

      No inverno de 2007, quando ensaiava um solo, Matheus Brusa travava antes de uma queda. Não era receio do impacto. O motivo do medo era a sensação do linóleo frio em contato com o corpo quente. A experiência resultou em uma pesquisa sobre a influência da temperatura sobre a qualidade de movimento e no espetáculo Bipolar – o contraste entre a dureza do frio e a malemolência do quente. Gaudério, apresentado na última terça (29), no Teatro Municipal, é produto da mesma fonte. O clima do Sul é metade do espetáculo. A outra parte é resgate cultural do coreógrafo, um gaúcho desgarrado das tradições que chegou aos 25 anos sem saber nada sobre suas raízes.

      Veja galeria de fotos do espetáculo

      No centro do palco, uma bailarina segura sobre a cabeça o ponto de cruzamento entre duas tiras de elástico, tensionadas e presas no chão, nas 4 extremidades. O desenho da cena lembra a dança do pau de fita. De origem europeia e explorada em algumas culturas do Sul do Brasil, a dança é realizada por diversos casais em volta de um mastro. Ao final da coreografia, o sincronismo da trama faz uma trança perfeita. Uma dança onde ninguém pode errar. Em Gaudério, o x de elástico cola ao chão e se transforma em marcação para a chula, mais dura e masculina do que as fitas, mas também determinada pela precisão de movimentos.

      Kelen Silva, Luciane Souza e Mayara Colombo dançam a chula contemporânea com as pernas, os braços, as mãos, os dedos. Em cada movimento, a coreografia explora a retração do corpo que sente frio. Quando coladas ao chão, as fitas elásticas delimitam o movimento. Levantadas, elas enroscam nas pernas e endurecem os quadris, a parte do corpo que é proibida de dançar a chula.

      E há muitas proibições, como relaxar e sorrir. É a dança da tortura então? Talvez. O frio gaúcho, agora simbólico, é mostrado no pescoço encolhido e mãos que apertam os braços – o nosso abraço individual –; nos braços cruzados que proíbem a aproximação e reforçam o estereotipado orgulho gaúcho nos desafios de chula; nos cumprimentos rígidos, para que um corpo não sinta o calor do outro. E tudo é preciso e friamente calculado.

      “Nenhum pingo fora do lugar”, disse Matheus Brusa para definir a dança, a iluminação, a trilha, o chimarrão servido no saguão… o conjunto do espetáculo Gaudério. Na trilha sonora ao vivo de Anderson Magrinelli (acordeon), Guilherme Rosset e Matheus Brusa (percussão), Lazaro Nascimento (violão e guitarrón), a música se alinha com o clima gaudério. Facão, água fria em chapa quente, garrafas e chaleiras formam a orquestra do som do Sul. E o palco é um galpão gelado: lonas rasgadas ao fundo – um rústico céu estrelado –, cores frias, cerração, fumaça e cheiro de pinhão na chapa.

      A chula é uma das poucas danças brasileiras, senão a única, exclusivamente masculina. Só o desafio de colocar mulheres para interpretar a dança já teria fôlego para segurar o espetáculo. Matheus não achou suficiente, como também não se contentou que as bailarinas aprendessem só o básico da dança original. Com o corpo preparado para enfrentar os homens em uma competição, elas reinventaram a os passos e descobriram que chula já tinha alguns movimentos do clássico e do contemporâneo escondidos sob as bombachas, sufocados pelas botas, brutalizados pelas esporas. Dançam com postura masculina ser perder a delicadeza, que não é sinônimo de fragilidade em nenhum momento dos 35 minutos de coreografia. Logo após a grande estreia, Matheus ainda vê espaço para mais desconstruções e aprimoramento. E o grande mérito da companhia é essa busca pela perfeição em cada detalhe.

      Durante o espetáculo, eu pensava na opinião dos tradicionalistas sobre a chula distorcida no acordeon, dançada por meninas de pés descalços. Dois deles, dos mais conservadores, ficaram para o bate-papo que durou uma hora depois da sessão das 21:00. Disseram que a cultura gaúcha dos CTGs não está morrendo, como suspeitava o coreógrafo, mas aplaudiram de pé a contemporaneidade de uma ressurreição.

       

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