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    “Errei por omissão”, diz vereador Paese sobre atestados falsos

    por Robin Siteneski | 28/10/2011 às 18:24

    Parlamentar assume dependência química e narra o drama que se arrasta desde a adolescência 

    O vereador licenciado Harty Moisés Paese (PDT) aponta um de seus assessores na Câmara como o responsável pela apresentação de atestados médicos falsos para justificar faltas. Ele afirma que o profissional resolveu apresentar os documentos irregulares quando não conseguiu localizá-lo, durante um período em que Paese fazia um tratamento em uma clínica em Porto Alegre para se recuperar da depressão, desencadeada pelo uso de drogas. A suposta fraude veio à tona esta semana, quando o presidente do Legislativo, Marcos Daneluz (PT), acionou a Comissão de Ética para investigar o colega.

    “Como eu sumi uns dias, uma pessoa próxima a mim – eu não quero jogar a culpa nela, porque eu errei, por omissão – não me localizou e, tentando ajudar, conseguiu esses atestados. E eu, evidentemente desligado, tive a recaída e voltei para a Câmara. Não tenho problema em dizer que foi por causa da dependência química”, afirmou Paese, em entrevista a O CAXIENSE na tarde desta sexta-feira (28) em seu escritório de advocacia.

    Paese conta que conversou com o suposto responsável por comprar os atestados nesta quarta-feira (26), dois dias depois das denúncias. O vereador diz não temer as investigações do Ministério Público e da Câmara de Vereadores sobre o caso e nega a possibilidade de renunciar.

    Para esclarecer o assunto com o partido, Paese relata ter saído de um período de três dias de reclusão e conversado com o deputado estadual Alceu Barbosa Velho (PDT) – “nossa maior liderança”, segundo ele. Na próxima semana, a sigla deve se reunir para tratar do assunto.

    Na entrevista a seguir, o vereador narra o drama da dependência química e comenta as denúncias. Confira:

    Quando o senhor foi diagnosticado dependente?
    Eu tive dependência química na adolescência. Aos 21 anos, eu passei por uma fase realmente crítica da minha vida. Foi uma luta diária em que eu estava realmente dependente. Minha vida era apenas as festas, à noite. Eu não estudava. A vida me proporcionou isso e eu fiz mau uso.

    Com quantos anos o senhor começou a usar?
    14 ou 15 anos. Fui usuário esporádico por uns dois ou três anos. Eu fiz um bom tratamento naquela época e consegui, durante um bom tempo, ficar sem, até este ano. Fiz faculdade, casei, me elegi, tive uma filha. Coisa que uma pessoa que está usuária não faz. Neste ano, eu negligenciei a minha condição física, alguns sinais que quando acontecem tenho que ter um cuidado maior por causa de situações de bastante pressão e estresse. Mas isso são coisas da vida, o que me abalou mesmo foi quando diagnostiquei essa minha hepatite e, mais do que isso, quando vieram os exames confirmatórios de uma análise mais aprofundada de que já estava me comprometendo. Uma situação que a gente sabe que é como um HIV, pode viver até os 100 anos e não dar nada. Mas aí vem aquela situação em que o ser humano só pensa no pior. E eu com uma filha pequena, pensei que estava com ela hoje e não poderia estar mais semana que vem. Eu entrei em um quadro de depressão por mergulhar nesse pessimismo, não estava conseguindo assimilar.

    Entre a sua juventude e este ano, o senhor usou ou ficou o tempo todo em abstinência?
    De abstinência, eu usei esporadicamente o álcool. A partir dos 23 anos, não usei mais. A gente diz assim na dependência química: não importa a doença que a pessoa tem, importa a pessoa que tem a doença. Eu passei pelo processo (na juventude), o que me fez perceber, no fim de junho, que eu podia parar. Aí foi quando resolvi sair. Esperei aquela votação do aumento de vereadores porque tinha uma responsabilidade comigo mesmo. Aquela minha recaída foi no final de junho, não lembro bem os dias. Quando eu entrei nesse quadro de estresse e depressão, eu sumia. Ninguém me achava.

    Para onde o senhor ia?
    Eu me isolava, às vezes ia para a praia. Ficava lá matutando essas ideias. É estranho porque tu não tem ânimo, não tem motivação para nada. Parecia que para mim não ia adiantar fazer nada. Eu entrei em uma fase de realmente acreditar que a morte estava próxima.

    O senhor descreve uma depressão. Quanto disso o senhor acha que foi influenciado pela droga?
    A droga foi a fuga. Estava tão dolorida a situação, não com a vida fora, mas estava difícil lidar comigo mesmo. E aí o que me chocou muito foi que eu fiquei sabendo pela imprensa desses atestados falsos. Como eu sumi uns dias, uma pessoa próxima a mim – eu não quero jogar a culpa nela, porque eu errei, por omissão – não me localizou e, tentando ajudar, conseguiu esses atestados. E eu, evidentemente desligado, tive a recaída e voltei para a Câmara. Não tenho problema em dizer que foi por causa da dependência química.

    Quanto tempo o senhor usou antes de buscar tratamento?
    Eu fiquei uma semana isolado e, no final desses 7 ou 8 dias, eu tive a recaída. Não tem meias palavras, foi uma situação onde eu fui vencido… A resistência foi furada, foi bloqueada pela dependência química. Eu me cobro muito disso ainda, mas não sou de me culpar.

    E quanto tempo o senhor usou depois da recaída?
    Foi um uso de uns 2 ou 3 dias. Não é um uso direto. É de fases intercaladas, digamos assim, comparando com o álcool, tu toma uma no almoço, uma no meio da tarde… Não tenho vergonha nenhuma do que eu fiz, vergonha é se eu continuasse fazendo. Se eu continuasse fugindo da realidade do meu tratamento.

    O que foi que te acordou para procurar tratamento?
    Em primeiro lugar a experiência que eu já tinha tido na adolescência. Naquela vez fiz um tratamento direcionado para a dependência química, diferente desse de agora. Nesse de agora, a dependência foi o estopim. Quando acabou o processo, decidi ir me tratar. É por isso que eu não divulgo quem é, eu não tenho nem como culpar essa pessoa.

    Não passou pela sua cabeça que ela poderia ter colocado o bilhete no gabinete do Daneluz?
    Não pensei nisso. Sabe que, para usar politicamente, tem muitos. Eu fiz muitas coisas boas, é o que me dizem. Mas essa coisa de não ter tido o cuidado de ver como eram verificadas as ausências na Câmara é o que vai ser lembrado, de repente. Agora, a preocupação de quem fez isso, cada um dá o que tem.

    O senhor sabe quem foi?
    Não sei quem levou o bilhete. Eu tenho que dar o que eu tenho, que é respeito por uma pessoa que está mais preocupada com a vida dos outros do que com a sua, mas não quero mal. Estou fazendo de um limão uma limonada. Não tenho vergonha do que eu sou ou do que eu fui. Inclusive aquilo que eu fui é o que me forjou. Comigo mesmo eu estou muito tranquilo. Pelo menos vou deitar e dormir porque eu não roubei, não me omiti. Eu tenho a minha parcela de culpa. A minha preocupação maior é externar à população o que aconteceu em relação com os atestados. Primeiro o lógico, a devolução dos valores. Só não devolvi ainda porque primeiro tenho que ver qual o encaminhamento burocrático para isso. E a manifestação de que o meu erro foi por omissão. Essa pessoa me disse que não falsificou os atestados, que os comprou.

    O senhor sabe que o Ministério Público e a Câmara estão investigando. Vale a pena manter o nome dessa pessoa em sigilo?
    Se vale ou não, não sei. Tenho que tirar a minha parcela de culpa. Eu como líder dessa pessoa deveria ter cuidado disso. Não fiz, fui omisso. Evidentemente que estava abalado, sim. Ninguém sai 3 meses para um tratamento e inventa uma história dessas por 3 atestados. É muito desgaste para 3 atestados.

    O senhor sentiu sintomas de abstinência quando foi internado?
    Não. Até a substância que eu usava exige uso constante para sentir abstinência. Geralmente abstinência física, dizem, se sente com heroína.

    Seu vício está relacionado com a hepatite C? O senhor contraiu a doença por causa do uso de drogas injetáveis?
    Não. Nem por sexo a hepatite C é transmitida. Somente por transfusão de sangue.

    O senhor foi dependente de cocaína?
    Não é a minha preferência, não. Eu sou um dependente químico clássico, na minha fase de festas não era apenas uma substância que se usava.

    O senhor fumava maconha, tomava ácido?
    Ácido, não. Não tomei, não usei drogas das mais pesadas como heroína, crack. Não reprimo quem o faça porque o mecanismo da dependência é o mesmo seja para o usuário de maconha ou de pedra. Tanto que sou contra a descriminalização da maconha.

    A sua recaída foi de maconha?
    Não, não foi de maconha.

    O senhor prefere não…
    Não. (É) uma dependência química. O uso de qualquer químico para sair da realidade, inclusive remédios. Tive dificuldades com remédios.

    O boato é que o senhor usava cocaína.
    Já usei, aquilo que estava te falando, a premissa é a verdade. Te confesso que na minha situação hoje não posso e não devo usar nenhuma substância que altere meu estado mental.

    Categoria: Política | Tags: Paese,pdt,Política

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    Comentários

    • marcelo
      30 de October de 2011 às 08:55

      Uma grande vergonha senhor Paese. A politica brasileira ja e uma farsa e cheia de calunias onde nao ha justificativa alguma pelo que o senhor fez. Torco que consiga curar-se de seus problemas mas como disse anteriormente, nao ha justificativa. O senhor agora deve esclarecimentos a comunidade. Se eu tivesse feito algo semelhante onde trabalho (independentemente da situacao) estaria na rua em uma hora dessas. Deveria ter procurado ajuda anteriormente e “jogado” limpo. O senhor e um homem publico e que trabalha com dinheiro publico. Maior consideracao a todos da proxima vez. Shame on you Paese!

    • mariaineskeil
      30 de October de 2011 às 14:53

      pelo cargo e pela confiança que o povo depositou é imperdoável a falta de ética,responsabilidade…. existe apenas um culpado… o próprio.. e logo após a familia.. e quando se fala em cargo público fica devidamente claro que esta pessoa nos representa e pagamos seu salário….ainda bem que houve denúncia,ainda tem gente que nao engole sapos…todo o ser humano pode falhar e todo ser humano pode e deve falar a verdade,retirar-se,pedir ajuda… e ser entendido. Burlar dá nisso….

    • Carlos Nunes
      1 de November de 2011 às 01:21

      Prezado Sr. Paese, desejo sinceramente a sua mais completa recuperação deste problema de saúde. Como cidadão de Caxias, porém, solicito a sua imediata renúncia ao cargo de vereador devido à total falta de responsabilidade e ética no exercício do dever público. Caso o Sr. fosse empregado de uma empresa privada, e “sumisse por uns dias” sem justificativas, e apresentasse em seu retorno um atestado médico “comprado” (irregular), seria caso de abandono de emprego e demissão por justa causa (devido à fraude por apresentação de documento ilícito)! Infelizmente, sua manifestação de “coragem” só veio à tona após a Falcatrua ser descoberta, e mesmo assim a sua “coragem” foi de incriminar um assessor. Francamente, não se utilize desta grave doença para permanecer no poder. Não subestime a inteligência dos cidadãos caxienses, que pagam os salários dos “nobres” vereadores para que resolvam os problemas da comunidade, e não os seus problemas particulares.

    • Carlos Nunes
      1 de November de 2011 às 10:20

      Com exceção do vereador Daneluz, chega a ser constrangedor o Silêncio Amarelo e a Complacência dos demais “Nobres” vereadores sobre esta Falcatrua! Talvez o problema seja o período de férias, Natal e Carnaval ainda distantes, para abafar este caso… CAMPANHA PELA REDUÇÃO DO NÚMERO DE VEREADORES NA CÂMARA DE CAXIAS DE SUL JÁ!!!!!!!!!

    • SAMUEL
      11 de November de 2011 às 01:54

      COMO DIRIA ERIC CLAPTON: – SHE DON´T LIE…

    • Silvia Antoniazzi
      3 de December de 2011 às 16:18

      Isso já era de conhecimento público desde 1997 quando denunciei o pai Renato Paese o povo tem memória curta e joga com sua vida por interesse isso sim é uma vergonha. O que ele é ou foi já se sabia o que veio depois foi somente consequência de uma criação sem regras e sem respeito por si próprio. Tenho pena deste espirito perdido que não se ajuda nem a si e me admiro alguem achar que poderia ajudar a outrem. A vida é dura Moisés e eu que o diga por tudo que passei nos meomentos de necessidades lutando para ter um cargoque a mim era de direito e sendo extorquida. Mas Deus é pai, ele colocará sobre vós o seu manto na hora do desespero não se preocupe.

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