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    Os segredos e a força da maçonaria em Caxias

    por O Caxiense | 08/06/2010 às 9:53

    por ROBIN SITENESKI |

    Poucos grupos são tão discutidos e cercados de mistérios, controvérsias e teorias da conspiração quanto a maçonaria. E poucos são tão presentes, às vezes de forma imperceptível, na sociedade. Quem passa pela Praça Dante Alighieri todos os dias, por exemplo, pode não reconhecer o formato de um de seus símbolos mais famosos, que aparece até na nota de um dólar norte-americano.Vista do alto, a praça lembra a pirâmide e o olho que tudo vê. A forma geométrica representa a união entre o microssomo, o individual, e o macrossomo do universo. O olho simboliza a parte visível da consciência.
    A ordem se vangloria de ter nomes influentes entre seus membros e sustenta que grandes personalidades da História – Jesus Cristo, inclusive – foram ou são maçons. Dom Pedro I, Simon Bolívar, Mozart, Allan Kardec, Giuseppe Garibaldi, Neil Armstrong, Barack Obama e até o prefeito José Ivo Sartori fariam parte do grupo.

    Como a diversidade desses nomes indica, a associação não tem um pensamento único. No Brasil, ela se divide em 300 potências maçônicas – que, entretanto, seguem os mesmos ritos instaurados no século XVIII. As origens da maçonaria são controversas. De acordo com Marco Morel e Françoise Jean de Oliveira Souza, autores de O Poder da Maçonaria, alguns pesquisadores a remetem ao Éden. Tentar reconstituir a perfeição do jardim sagrado seria, portanto, um dos objetivos da ordem. Outros a ligam aos rituais de iniciação da pirâmide egípcia de Quéops, que teriam sido passados de geração para geração.
    O arquiteto do templo de Salomão, Hiran Abif, também influenciou a ordem. Ele dividiu os construtores em aprendiz, companheiro e mestre, denominação até hoje utilizada nos três primeiros níveis dos ritos da maçonaria simbólica. Os construtores se reconheciam, como ainda fazem os membros da maçonaria, por toques, sinais e palavras. Abif perdeu a vida por se recusar a revelar os segredos do nível mais alto, tornando-se exemplo para os maçons modernos. A conexão com Jesus viria da ligação com a Ordem dos Templários. Na Idade Média, a maçonaria passou a aceitar pessoas não ligadas à construção. Em 1717, quatro lojas, como são chamados os templos maçons, se reuniram e criaram a Grande Loja de Londres, loja-mãe da maçonaria universal, e com ela as regras que guiam a associação até hoje.

    Em Caxias do Sul, a ordem chegou com os imigrantes italianos. De acordo com A Cruz e o Esquadro, Imigrantes Italianos e a Política, capítulo escrito pela historiadora Loraine Slomp Giron para o livro Cultura Italiana – 130 anos, a primeira loja caxiense abriu em 28 de janeiro de 1886. Integrantes da pioneira Loja Maçônica Força e Fraternidade entravam frequentemente em atrito com a maioria católica. Com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o futuro político das colônias estava sendo definido e párocos e maçons se agrediam mutuamente. A Revolução Federalista gaúcha, em 1883, fez com que a loja fechasse entre 1890 e 1894. Para Eliana Rela, autora de Nossa Fé, Nossa História: igreja católica, maçonaria e poder político na formação de Caxias do Sul, a influência da maçonaria na política local não foi determinante.

    “Houve altos e baixos. As pessoas que faziam parte do Conselho Municipal da época, coincidentemente ou não, faziam parte da maçonaria. Não há como dizer que estavam lá por causa da ordem”, afirma. Sobre a relação com a Igreja, a professora explica que o conflito não foi gerado em Caxias. “Até o final da década de 1890, não havia proibição de padres ou sacerdotes fazerem parte da maçonaria. O Papa Pio VII lançou bulas contra a maçonaria e o carbonismo (sociedade secreta italiana) e esse problema veio com os imigrantes. Isso foi muito intenso. Também houve atrito na ditadura Vargas quando o presidente proibiu, durante um ano, em 1937, a atuação da maçonaria.”

    Hoje, a maçonaria diz não ter conflito com nenhuma religião. O grão-mestre da Grande Loja do Brasil, Dorival Fiorini, explica que todas as crenças são aceitas. “A maçonaria não é uma religião. É uma instituição filosófica que prima pelo aprimoramento moral e intelectual de seus integrantes. Uma associação de homens livres e de bons costumes.” Ele revela que existem maçons de todas as religiões. A ordem não obriga seus integrantes a seguirem uma ou outra doutrina, mas acreditar em um ser supremo, seja Deus ou Alá, é obrigatório. A maçonaria chama essa entidade de Grande Arquiteto do Universo.
    No mundo todo, no centro de cada templo, existe o livro que a associação considera de referência moral para aquela sociedade. No Brasil, é a Bíblia. Em um país muçulmano, pode ser o Corão. O grão-mestre salienta que para se tornar um irmão, como os maçons se referem uns aos outros, é preciso ser convidado. Uma vez aceito o convite, a instituição instaura uma sindicância para comprovar que o neófito é de boa moral e costumes. Só são aceitos homens de físico perfeito que acreditam em Deus. “Pessoas com problemas físicos não podem participar de nossos rituais. A investigação é feita discretamente, de forma que o candidato não saiba. Existem poucas vagas. Buscamos pessoas de qualidade, não quantidade,” explica Fiorini. Uma taxa de cerca de R$ 2 mil é paga pelo candidato para ser iniciado. Depois que ele se torna maçom, a mensalidade gira em torno de R$ 100. Passando pelo ritual de iniciação que simboliza a morte para a vida profana – e que o grão-mestre afirma ser específico de cada loja –, o neófito começa uma longa jornada através da hierarquia maçônica.

    O Rito Escocês Antigo e Aceito, um dos mais praticados no Ocidente, tem 33 graus. Os três primeiros são chamados de simbólicos e podem ser completados em cerca de dois anos. Os ensinamentos entre o 4º e o 14º grau compõem a Loja da Perfeição. O capítulo Rosa Cruz se dá entre o 15° e o 18° grau. Do 19° ao 30°, denomina-se Conselho Kadosh, e o Consistório é o estágio final, do 31° ao 33°. Um maçom do grau mais elevado vai conversar com seus irmãos de acordo com os conhecimentos do de grau mais baixo. Um integrante pode passar pelos 33 graus em cerca de 10 anos se comparecer às reuniões e fazer o “tema de casa”, que deve ser entregue na loja. A elevação de um grau para o outro só acontece depois de prova oral.

    Segundo o grão-mestre, a verdadeira maçonaria é masculina, apesar de existirem linhas que aceitam a inclusão feminina. “Está reservada para as mulheres uma posição ao lado de cada homem”, justifica. A média dos aceitos é de 40 anos. Jovens entre 12 e 21 anos são convidados a ser demolay, para meninos, ou bethel, no caso das meninas. Essas são instituições paramaçônicas, que ensinam cidadania, mas não os segredos da ordem.

    Nos ritos dos graus, os maçons estudam temas diversos. “Uma pessoa normal deve ter conhecimento sobre um assunto. Um maçom, sobre todos”, diz Fiorini. Irmãos são convidados ou se oferecem para dar palestras sobre as suas especialidades. Como existem maçons em todas as áreas, o grupo tem uma boa quantidade de fontes de informação. Alguns assuntos, no entanto, têm reservas. “Dentro de uma loja maçônica não se pode discutir política, religião e futebol, mas deve-se estudar política, religião e futebol”, salienta, um tanto enigmaticamente, o grão-mestre.

    Uma vez maçom, a pessoa passa a fazer parte de uma rede de favores poderosa. “Me deixe em qualquer cidade do mundo sem absolutamente nada e em 30 minutos estarei completamente vestido e com dinheiro no bolso”, garante Fiorini. Ao contratar alguém, ele explica, um irmão sempre vai preferir outro irmão. Um maçom nunca deve deixar outro passar necessidade. Essas prerrogativas fizeram muitos políticos se aproximarem da associação. O governador cassado do Distrito Federal, José Roberto Arruda, flagrado recebendo propina, foi expulso da ordem.

    Quando um maçom age contra os ensinamentos da maçonaria, um tribunal de família é instaurado. O presidente da loja nomeia três irmãos que investigam o caso. O infrator pode ser “adormecido”, o que lhe tira o direito de frequentar as lojas, ou expulso, que faz com que seja considerado perjuro, aquele que não respeitou os juramentos. Nenhum irmão pode manter amizade com o perjuro, porque ele é considerado doente espiritualmente. No caso do ex-governador Arruda, Fiorini afirma que ele entrou na ordem erroneamente. Uma comunicação interna confidencial é enviada a todas as lojas, em português, francês, italiano, alemão e espanhol: o irmão não será mais bem visto por nenhum maçom no mundo.

    As lojas, assim como os irmãos, também possuem graduações. Entre 1 e 3, são simbólicas; entre 4 e 30, filosóficas; e do 30 ao 33, administrativas. A reportagem visitou a loja do Terceiro Milênio número 25 e a Salvador Allende número 29, que dividem a mesma sala alugada no bairro Panazzolo. Do lado de fora, duas colunas falsas e a pirâmide com o olho que tudo vê anunciam os templos. Na antessala, ou Sala dos Passos Perdidos, onde são realizados jantares que eles chamam de ágapes, existem imitações de arte egípcia, fotos de irmãos vestidos a caráter e até uma réplica da máscara de Tutancâmon, que teria sido maçom.

    A loja do Terceiro Milênio é parte do rito de York, que é o mais praticado no mundo. A que leva o nome do ex-presidente chileno é do rito escocês. Ambas não têm janelas. O teto é recoberto por panos, e no centro do piso há um quadrilátero branco e preto que simboliza a dualidade entre o bem e o mal, de acordo com Ignácio Perin, mestre da loja do Terceiro Milênio que nos guiou na visita. Nas duas lojas, uma pedra bruta e outra polida representam a evolução dos maçons. Existe um lugar reservado para o grão-mestre da Grande Loja brasileira, mesmo que ele não esteja presente, no oriente da loja York. Atrás desse local, quadros distribuídos em forma de pirâmide do Sol, da Lua e da pirâmide com o olho que tudo vê. No teto, a letra G, que significa a grande geometria do universo e o conhecimento, segundo o grão-mestre adjunto Pablo Ballesteros. Sobre a Bíblia, nos dois templos, ficam um compasso e um esquadro. O compasso indica o modo como o maçom deve ver o mundo: a mente deve ter abertura de 360º. O esquadro sinaliza a retidão com que os irmãos devem viver: o instrumento tem 24 marcações, uma para cada hora do dia. No canto do templo de York, há uma caveira e dois ossos de gesso cruzados.

    A loja do rito escocês é mais adornada. Colunas, uma para cada símbolo do Zodíaco, a circundam. Do teto desce uma corda com 81 nós, cada um com um significado secreto. A Bíblia fica sobre um pedestal no centro da loja. Incensos e velas estão espalhados pelo local. Em um outro pedestal, repousa uma réplica da Arca da Aliança – onde teriam sido guardadas as tábuas dos Dez Mandamentos –, com querubins em cima, e sobre a mesa em frente ao local mais importante da loja, aquele reservado ao Sereníssimo, reúnem-se uma espada, uma réplica de pirâmide, uma coluna grega e três velas. Este local está separado do restante da loja por três degraus, que simbolizam fé, esperança e caridade. A espada espantaria fluidos negativos. Outros objetos, presentes nas duas lojas, são o cinzel, o malho e o martelo, que é usado para iniciar e finalizar as sessões e representa o processo de modificação pelo qual os maçônicos passam. Durante as cerimônias nos templos, os irmãos devem usar terno branco e gravata preta, cores escolhidas por serem a ausência de cor, além dos adornos que identificam o grau de cada membro.

    Em Caxias do Sul, existem atualmente cerca de 12 lojas e 3 mil maçons. Os irmãos também utilizam a ordem para fazer caridade. Eles financiam os estudos uns dos outros, doam a instituições filantrópicas e a profanos (como chamam os não maçons) em momentos de necessidade. As boas ações são feitas sempre discretamente, sem que os beneficiados saibam da onde vem a ajuda. “A maçonaria não faz propaganda”, afirma o grão-mestre Fiorini. No entanto, ele revela o envolvimento da Grande Loja brasileira na ajuda humanitária aos desabrigados do Haiti e em uma campanha para ajudar um hospital. “Trocamos todos os lençóis da Santa Casa de São Paulo. No palácio do governo do Estado, existe uma setor só para atender a maçonaria.”

    A ordem está presente em diversos países do mundo, da Índia ao Iraque, da Bolívia ao Japão. O grão-mestre revela que a relação com os diversos regimes é pacífica, mesmo naqueles marcadamente autoritários. “Acreditamos que os povos são livres para determinar seus governos”, explica. Ainda assim, políticos não hesitam em procurar a sociedade fechada para obter seu apoio. Fiorini revela que os três principais pré-candidatos à presidência, Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva, já têm reuniões marcadas com a Grande Loja. “Mas os políticos nunca sabem se tem ou não o apoio da maçonaria”, assegura.

    Atualmente, a associação prepara a abertura da Universidade Maçônica Universal. Com sede em São Paulo, a instituição começará a funcionar no segundo semestre deste ano. Fundada em 10 de maio de 2010, aceitará apenas maçons, e terá aulas a distância.

    O vice-reitor e grão-mestre adjunto da Grande Loja do Brasil, Pablo Ballestros, diz que será uma oportunidade de maçons do mundo todo trocarem conhecimentos. “A base da instituição será a ciência da educação. A partir dela estudaremos arte, filosofia, psicologia, antropologia, sociologia, história e nanociência.” O primeiro curso será o de Maçonaria Simbólica, que agrupará os ensinamentos dos três primeiros graus em dois anos. Em 2011, deverá ser lançado o curso de Perfeição Maçônica. A universidade espera atender cerca de 1 mil alunos no primeiro ano.

    Em Caxias, a maçonaria negocia um terreno para abrigar o centro de estudos no bairro Jardim América. A ideia da universidade, aliás, nasceu aqui, na loja 25 do Terceiro Milênio. “Tudo começou por causa da necessidade da pesquisa sobre essas doutrinas, que têm grande impacto na realidade atual, a partir de um ponto de vista maçônico”, conta Ballesteros, salientando o poder exercido pela ordem no passado. “A maçonaria foi uma instituição que teve muita influência na história das independências latino-americanas. Existem símbolos maçônicos em todas as igrejas, em todos os templos”, afirma o grão-mestre.
    A professora Eliana Rela acredita que esses traços foram deixados, em grande parte, por causa da ligação entre a maçonaria e o positivismo. “A urbanização moderna foi influenciada pelo movimento positivista. Por isso, não é raro encontrarmos prédios públicos com colunas e outros ornamentos que remetem à simbologia maçônica.”

    O grão-mestre Ballesteros revela as ligações atuais entre a política e a ordem. “Hoje em dia, a maçonaria não está mais tão ligada à política, apesar de profanos continuarem se aproximando da ordem por ambição. Em Caxias, o prefeito, o vice e mais da metade do secretariado são maçons”, afirma. Ele também conta que a cidade até hoje preserva traços da simbologia maçônica, sem revelar detalhes. “Nas casas antigas que foram demolidas os maçons colocavam uma ‘assinatura’, como um artista que pinta um quadro. Na praça Dante, até hoje existe o compasso e alguns círculos maçons, e a bandeira da cidade também tem um símbolo da ordem.”

    Apesar das histórias secretas, a maçonaria promove atualmente uma abertura parcial. A entrevista com Fiorini, por exemplo, foi oferecida ao jornal pela ordem. No site da Grande Loja do Brasil, muitas informações antes consideradas secretas agora estão ao alcance de todos. O grão-mestre dá entrevistas explicando e defendendo a maçonaria, e vídeos com perguntas e respostas sobre a ordem podem ser encontrados no YouTube. Mesmo assim, durante a visita da reportagem aos templos, a resposta mais ouvida foi “Isso eu não posso lhe explicar”. A ordem que intriga historiadores e desperta a curiosidade de leigos guarda muitos segredos por trás da pirâmide com o olho que tudo vê.

    Da 26ª edição impressa.

    Foto: A espada e a esfinge são alguns dos símbolos maçônicos | Crédito: André T. Susin/O Caxiense

    Categoria: Geral, Impresso | Tags: caxias do sul,história,maçonaria,ordem

    Comentários

    • Felipe Boff
      13 de August de 2010 às 19:01

      Nota do editor:
      Prezado JB, agradecemos seu comentário, mas não podemos publicá-lo pois suas afirmações exigem identificação, do mesmo modo que as fontes citadas na matéria. Qualquer dúvida, podes entrar em contato conosco pelo e-mail ocaxiense@ocaxiense.com.br
      Abraços.

    • Hanssen
      2 de March de 2011 às 20:05

      Pena que voces escolheram lojas e maçon (não regulares) para a reportagem

    • Silvio Pimentel
      4 de November de 2011 às 11:25

      Gostaria de parabenizar a redação do jornal pela reportagem que traz grandes esclarecimentos a todos que, muitas vezes, tinham uma imagem “fantasiosa” sobre o tema.
      Convido o editor para avaliar a possibilidade de uma nova matéria. Quem sabe com a participação de uma loja regular, como sugere Hanssen.
      Parabéns!

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