A fé e a dedicação dos anfitriões de Caravaggio
por O Caxiense | 23/05/2010 às 13:46
São 5h30 da manhã e tudo o que se ouve no santuário de Nossa Senhora de Caravaggio são os cachorros. O sino do campanário começa a tocar, rompendo pela primeira vez o silêncio que só voltaria novamente à noite, quando os romeiros estariam de volta às suas casas.
As poucas pessoas que chegam àquela hora entram na gigantesca igreja, sentam-se e ficam em silêncio. Pouco antes das 6h de sábado (22), cada um dos religiosos do santuário já parece estar exatamente onde deveria estar. As irmãs Scalabrinianas ocupam a parte da igreja onde serão entoados os cantos e os padres diocesanos estão na sacristia se preparando para a primeira missa da 131a. romaria, que começaria às 6h em ponto.
Irmã Teresa Masetto havia acordado às 4h10 naquela manhã, mesmo sabendo que, da casa das freiras até a igreja, são apenas uns dois minutos de caminhada. Foram as irmãs que abriram as portas da igreja no sábado, assim como o fazem todos os dias, só que desta vez uma hora mais cedo que o normal.
“É um plantão permanente”, diz irmã Teresa.
Naquele dia, ela ficaria no templo até de noite, andando para lá e para cá, cuidando do que precisa estar na mais perfeita ordem para que nada saia errado no andamento das 11 missas que ocorreriam até as 18h.
“Há 15 dias começamos a ver o que cada um iria fazer, mas o intensivo mesmo foi essa semana. O que nós fazemos é a acolhida, damos informações, fazemos a ornamentação, a preparação dos altares, o que, inclusive, foi feito ontem à noite. Fazemos a dinamização das missas e preparamos as roupas que os padres usam”, explica a irmã.
Para ela, o mais difícil nos três dias em que o santuário lota de fiéis é organizar a fila dos devotos emocionados que querem tocar na santa.
“Mas o que é bonito aqui é a devoção, a união do povo. Para nós, irmãs, a maior alegria é servi-los. Só não servimos comida, porque o resto…”, diz, com um livro da liturgia entre os braços.
Padre Sérgio Luís Minossi seria o responsável por rezar a missa que abriria oficialmente o final de semana dedicado à santa. Minutos antes de sair pela porta da sacristia e entrar no altar, ele conversou rapidamente com O CAXIENSE. Apesar do horário, a sala da sacristia estava agitada com tantos padres circulando pelo local. Um pequeno quadro do papa Bento XVI sorrindo e outro de Nossa Senhora de Caravaggio estampam as paredes do recinto simples. Padre Sérgio conta que rezaria aquela primeira missa e, depois, ficaria responsável pelas confissões.
“Essa missa das 6h é mais calma, é para os trabalhadores e para quem se arrisca a levantar muito cedo”, conta o padre, que reza missas em Caravaggio há mais de 20 anos.
Ele foi um dos cerca de 40 padres que participariam das 33 missas de Caravaggio e que foram convidados há mais de dois meses para desempenhar a função.
“De última hora, só enterro”, simplifica padre Volmir Comparin, reitor da paróquia.
Padre Volmir fala rápido e se prontifica a responder apenas poucas perguntas, todas com respostas diretas e objetivas:
“Hoje levantei, rezei, tomei café e fui ver do que precisava. Digamos que até do gerador de energia elétrica a gente cuida”, enumera.
Foram encomendadas 100 mil hóstias para receber os fiéis nos três dias de romaria. Se o número parece pequenofrente às 380 mil pessoas esperadas, padre Volmir explica:
“Muita gente não comunga, não vive a vida em graça (porque pecou, traiu etc.), não participa da missa, é de outras religiões ou vem só para caminhar. A gente respeita todos”.
Uma parte das hóstias já estava consagrada na sexta-feira (21) e o restante seria abençoado aos poucos. A água benta à disposição dos fiéis é benta desde o dia de Páscoa, todo os anos, segundo os padres.
“A bênção não termina. A água tem fonte dentro da própria igreja, tapada por uma lajota para ninguém cair, e é de lá que sai também a água benta para os fiéis”, diz padre Volmir, sem revelar de quais outros lugares ela sai.
Padre Valdir Thums carrega uma planilha com os nomes dos padres e das equipes da liturgia responsáveis pela missa em cada horário.
“Em 131 anos, isso já é tradicional. O pessoal já faz com tranquilidade. Depois da romaria se faz avaliação, se vê o que elimina e o que continua nos próximos anos. Por exemplo: ano passado os romeiros pediram mais banheiros ecológicos. Este ano temos mais. Então, se dá algum contratempo, a gente resolve”, garante ele, devoto de Caravaggio, “desde o berço”.
Além das missas, os religiosos cuidam das confissões. Irmã Delires Lúcia Osmarin recebe sorrindo e com as mãos entrelaçadas os fiéis na porta do auditório e leva-os a um grande auditório. Na ampla sala de entrada, os visitantes fazem uma espécie de “preparação”, de cerca de 15 minutos, conduzida por três jovens seminaristas, que conversam com os grupos de fiéis e, usando um projetor, mostram imagens para ilustrar o que estão falando:
“Buscamos ajudar as pessoas a refletirem sobre seus pecados. Por exemplo, com a foto de uma pedra no caminho, ou de uma criança pobre, ajudamos eles a refletir”, afirma o diácono (nome que se dá a quem não é mais seminarista, mas também ainda não é padre) Rudinei Zorzo.
Era a primeira vez de Rudinei na parte das confissões. Nos outros anos, ele havia ajudado na liturgia das missas e na entrega de folhetos.
“A minha expectativa é que as pessoas que necessitam do perdão possam mesmo encontrá-lo”, afirma o diácono, que costuma se confessar mensalmente – ressalvando que “isso vai da necessidade de cada um”.
Após passar pelos três jovens, os fiéis são conduzidos à sala de confissões. É um espaço enorme, com 21 confessionários que se parecem com cabines telefônicas, cada um deles com um padre à disposição para ouvir os pecados do romeiro, que pode escolher se quer se confessar sentado numa cadeira ou ajoelhado ao lado do padre. Às 8h30, não havia quase ninguém se confessando, e os padres conversavam de pé em rodinhas.
Com um radinho sintonizado na emissora Mãe de Deus, cujo som se escutava através da jaqueta de couro que vestia, padre Alcindo Domingos Trubian diz que para uma romaria desta dimensão mais de 1.000 pessoas são envolvidas.
“Todas elas ligadas à Igreja”, acrescenta.
Os religiosos que trabalham nos três agitados dias sabem que demorarão pelo menos até o final da semana seguinte para voltar à tranquila e usual rotina e devolver o santuário à paz habitual. A maioria deles, porém, já repete sem desânimo as palavras do padre Alcindo:
“A preparação da próxima romaria já começa quando se conclui esta”.
Fotos: André T. Susin/O Caxiense
Publicado às 13h45 de 23 de maio de 2010.














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