Mais verde, menos cinza
por O Caxiense | 01/05/2010 às 10:53
A carência de verde na zona urbana revela a urgência de um planejamento de arborização
Atrás dos pés do casal que compõe o Monumento ao Imigrante há uma pequena árvore. Não se tem conhecimento de alguém em Caxias que saiba o significado exato da planta, banhada em bronze como o resto da escultura. A obra, entregue em 1954 e inaugurada pelo então presidente Getúlio Vargas num dia em que praticamente toda a cidade se reuniu para ver tal feito, foi executada pelo gaúcho Antonio Caringi. O escultor faleceu há quase 30 anos, e com ele, aparentemente, perdeu-se a explicação do porquê da escolha da arvorezinha – que só é pequena se for comparada à estátua dos imigrantes, pois tem mais de um metro de altura.
“Pode ser que simbolize uma árvore podada a machadada, mas isso não tem como saber”, diz a diretora do Departamento de Memória e Patrimônio Cultural, Liliana Henrichs. “Isso é muito pessoal do que pensou o artista. Realmente não me lembro de já ter visto esta árvore”, completa a pesquisadora Loraine Slomp Giron. “É o suporte do imigrante. Uma árvore cortada. É muito emblemático. E ninguém tem conhecimento disso”, opina a jornalista Vera Mari Damian.
A existência da enigmática árvore foi lembrada e apontada por Vera, que dá a ela um significado próprio: o crescimento de nossa cidade está alicerçado na destruição das matas. Não há como confirmar se foi essa a ideia que Caringi quis implicitamente transmitir. E há, inclusive, quem tenha uma interpretação oposta: ao invés de ser símbolo de destruição, a planta representa renovação, vida nova.
Desde a construção do monumento, porém, é indiscutível que a cidade perdeu muito de seu verde. Ao longo dos anos, as vastas áreas arborizadas na região central foram obrigadas a dar lugar a casas e prédios, e hoje o crescimento de Caxias ameaça a preservação desses espaços verdes nos bairros.
Em meados de 1950, foram plantados na cidade inúmeros ligustros – árvores de grande porte, tronco grosso e muitas folhas. No final dos anos 90, esses ligustros começaram a ser retirados da área urbana pelo poder público, que alegava – e ainda alega, pois os existentes continuam sendo removidos – diferentes motivos para esse providência radical. Entre eles está o de que as árvores cresceram demais, e por isso atrapalham a fiação das ruas e a tubulação subterrânea. Outro dos mais citados é que elas causam alergia nas pessoas. No lugar dos ligustros estão sendo plantadas árvores nativas de pequeno porte, que se adaptariam melhor ao ambiente urbano.
Por conta dessa campanha de substituição vegetal, existe a impressão de que Caxias do Sul está menos arborizada, pois muitas mudas ainda demorarão anos para crescer. A paisagem cinza revela, entretanto, falta de planejamento para melhor arborizar a cidade. E o cenário ganha um agravante que parece ser cultural: boa parte dos habitantes de Caxias ainda não tem o hábito de cuidar e valorizar as árvores.
A engenheira agrônoma e coordenadora do curso de Ciências Biológicas da Universidade de Caxias do Sul, Luciana Scur, acredita que é importante que as vias públicas deem espaço às árvores, desde que as plantas não entrem em conflito com a cidade. Para isso, a espécie plantada deve ser muito bem pensada, evitando que atrapalhe a fiação, a tubulação e a circulação das pessoas e veículos. Em 1998, Luciana participou da elaboração de uma cartilha de normas de arborização de Caxias, e conta que foi lá que se verificou que muitas das nossas vias públicas, pela largura das ruas e das calçadas, simplesmente não comportam árvores. “Infelizmente, essa é a realidade do Centro. Gostaríamos de ter mais árvores, mas se a situação urbana não privilegia o espaço delas, elas passam a ser um problema”, diz Luciana, que acredita que o ligustro foi uma espécie mal escolhida para a zona urbana. “Mas nem tem como criticar, elas foram selecionadas por pessoas que não tinham conhecimento e não previam que a cidade cresceria tanto como cresceu. As calçadas eram maiores, não tinha tantos carros, tantos fios”, pondera.
De acordo com Elton Leonardo Boldo, biólogo da Secretaria do Meio Ambiente do Estado (Sema), a cidade não tem déficit de áreas verdes, mas sim de arborização nos passeios públicos, e isso é consequência de um problema antigo. “É a falta de planejamento a longo prazo. Por exemplo: plantar árvores nativas pra substituir as exóticas, só terá efeitos daqui a 15 anos. O que é diferente de Porto Alegre. Lá, são árvores grandes e velhas com árvores novas ao lado. Se planta do lado porque mais dia menos dia elas (as plantas mais antigas) vão cair, daí já vai ter as outras. A nossa cidade teria que se planejar para que, quando as árvores atingissem uma idade avançada, elas já fossem substituídas, e não que se esperasse isso acontecer”, explica Boldo.
A pouca arborização em Caxias, segundo ele, é em boa parte responsabilidade das administrações públicas, que vão empurrando a questão uma para a outra. O biólogo diz que, se um processo de arborização iniciasse agora em Caxias, os resultados seriam vistos daqui a uns 20 anos. Além do tempo que a árvore demora para crescer, deve ser levada em consideração as dificuldades que ela enfrenta. Boldo ressalta que a vida das plantas na cidade é muito mais curta, porque a adaptação é diferente do que em seu ambiente natural. Por exemplo: uma pitangueira pode viver 100 anos na natureza. Na cidade, dependendo da quantidade de poluentes, vive no máximo 20 anos, além de enfrentar a depredação causada por quem mais deveria defendê-las, os habitantes. “Tem as pessoas que cortam só porque adoram fazer isso com as plantas, aquelas que raspam ao redor das árvores ao cortar a grama, as que furam com furadeira, que colocam óleo na raiz, produto químico para secar. O povo gosta de ter a fachada da loja bonita pra ser vista, não quer que galho suje a parede, não quer folhas no chão… Existem diversas situações que mostram que as pessoas não querem ter árvores. Enquanto for assim, dificilmente vai haver um projeto de arborização”, alerta.
A historiadora Loraine concorda que a falta de cuidado com as árvores em Caxias seja cultural, principalmente em relação à prática do corte. Ela conta ter feito um levantamento para contabilizar o número de serrarias existentes na cidade entre 1890 e 1910. Descobriu que em nenhum outro lugar do Estado existiam tantas como aqui, por ser um negócio muito lucrativo: eram 70 serrarias. “E o curioso é que muitos pinheiros da cidade foram exportados para Buenos Aires. Lá, muitas construções foram feitas com madeira de Caxias. Se cortou muito. Quando eu era menina, ia de Caxias a Farroupilha e era um pinheiral só. Hoje não sobrou nem para fazer chá”, relata.
Conforme Luciana, ainda vigora a cultura de que é melhor retirar a árvore enquanto ela é pequena, para que não incomode depois. “Tem que haver uma conscientização de que a árvore tem a função ecológica, de melhorar a qualidade do ar e de ser um local para refúgio da fauna; a função psicológica, de que quando a pessoa caminha por uma via arborizada se sente bem mais tranquila; e a função educativa, já que plantar uma árvore e ensinar os filhos a fazerem isso é ajudar a formar cidadãos mais conscientes”, enumera Luciana. Boldo destaca, além desses benefícios, a amenização do calor e dos poluentes emitidos por veículos e indústrias.
Não há dados de quantas árvores existem em Caxias. O que se tem é um levantamento da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) sobre o que foi plantado nos últimos anos. De 2005 a 2009 foram colocadas 55.700 mudas na zona urbana. Em 2010, até agora, 1.760. “Plantamos as árvores nativas. Por exemplo: na Rua Garibaldi, são todas pitangueiras. Onde tem fiação, são árvores de pequeno porte, como araçá. Do outro lado das ruas, sem a fiação e onde não existe tubulação de esgoto, são plantadas as que crescem mais rápido, como ipês e canela branca”, explica o secretário Adelino Teles. “Não poderia colocar sempre a mesma espécie na mesma quadra, porque caso uma delas pegue uma doença, há o risco de se perder todas as árvores daquela rua”, contra-argumenta Boldo.
O objetivo da Secretaria é chegar a 150 mil mudas na zona urbana até 2012. Porém, as plantas precisam estar sempre sendo substituídas. Num mesmo ponto do Centro, conta o secretário, já foi necessário plantar uma árvore cinco vezes, por causa do estrago das pessoas e dos carros. “Se não estragassem, de 2005 para cá elas já teriam ficado adultas. Bom, não adultas, mas pré-adolescentes. Na Matteo Gianella, das 160 mudas que plantamos, acho que umas 10 vingaram. As pessoas quebram. É uma luta inglória para conscientizar. Mas se elas vão quebrar dez vezes, nós vamos plantar dez vezes”, diz.
Enfim, Caxias não se destaca na arborização urbana, mas há um dado que é o orgulho do secretário do meio ambiente: hoje, o município tem 42 metros quadrados de área verde por habitante. Fica atrás apenas de Curitiba, que contabiliza 50 metros quadrados. “Porto Alegre não está nem perto de nós. Lá é arborizado na zona urbana, nós somos em tudo”, explica Teles. Segundo Luciana, no entanto, as áreas verdes no perímetro de maior densidade populacional estão restritas aos grande parques, Cinquentenário, Macaquinhos e Mato Sartori. As demais estão nos bairros e no interior: “Por isso, o cidadão que circula no Centro jamais vai dizer que temos 42 metros quadrados de área verde por pessoa, porque não enxerga isso”, diz a engenheira agrônoma.
O secretário Teles diz que está sendo elaborado um plano diretor de arborização urbana. Ele estima o prazo mínimo de um ano para que seja feito este levantamento por um engenheiro florestal, com a ajuda de estudantes. “Esse dado, de quantas árvores há na zona urbana, nunca existiu em Caxias, e será importantíssimo”, adianta Teles.
No meio de uma rua no bairro São Victor Cohab há um enorme pinheiro. Os paralelepípedos contornam a árvore, assim como os carros, que precisam desviá-la. A área do bairro era toda arborizada há alguns anos, “tudo mato”, segundo os moradores. O pinheiro não foi arrancado graças a uma proibição legal. “Eu sei que o Ibama, há uns dois anos, quando a rua foi aberta, não deixou que cortassem”, conta a moradora Lurdes Maria Kunsler. “Não foi cortada porque é uma árvore nativa. O pinheiro não atrapalha nem um pouquinho. Até ajuda os carros a diminuírem a velocidade”, aprova outra moradora, Dalva Zorzi.
Teoricamente, não se corta árvores sem autorização, sob pena de multa. Mas a penalidade só pode ser aplicada se a pessoa for pega em flagrante. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) faz, segundo Teles, uma “criteriosa avaliação” para permitir ou não o corte. A equipe responsável por essa tarefa é composta por dois biólogos, dois engenheiros florestais, um engenheiro agrônomo e um técnico agrícola. Os seis técnicos não circulam pela cidade, apenas autorizam os processos.
Conforme números da Secretaria, só neste ano foram emitidas 49 licenças para corte de árvores em áreas públicas (entre exóticas – vindas de outros países – e nativas – originárias do território brasileiro) e 147 para corte em áreas particulares, como dentro de pátios, por exemplo. Cada autorização, porém, pode ser para mais de uma árvore – ou seja, o número de plantas abatidas com aval do poder público é bem superior do que 196. E o total de cortes, levando-se em conta os que são feitos clandestinamente, certamente é muito maior.
“Quem cortar pode ter seriíssimos problemas, podendo sofrer multa de R$ 500 para cima, até um processo penal”, diz o professor de Direito Ambiental da UCS Gilson César Borges de Almeida. Até mesmo dentro do pátio de casa, segundo o professor, é necessário solicitar à Semma a liberação para o corte. “É melhor se precaver, para evitar transtornos. ‘Mas não é assegurado o direito de propriedade?’, alguém pode perguntar. Sim, mas o uso da propriedade deve atender a função social, e uma delas é atender o meio ambiente. Então pode usar o patrimônio, só que quando ele afetar o interesse da coletividade, no caso da flora, da água e outros, precisa ter licença do órgão ambiental”, explica o professor. “Toda a vez que se cortar uma árvore nativa tem que repor 15 árvores, no mínimo. Ou se faz essa reposição, ou se compra área do tamanho que cortou e faz área de preservação. Nas exóticas, deve-se doar cinco árvores. Mas se não for em área pública pode ser cortada sem problema”, esclarece Boldo.
Em relação aos loteamentos, é preciso preservar uma área institucional de 15% de todo o terreno. “O município toma conta dessa área. Pode virar uma praça, um parque”, explica o secretário municipal de Urbanismo, Francisco Spiandorello.
O professor Almeida cita o conceito de direito ambiental simbólico, que considera o grande gargalo do problema ecológico que vivemos, quando é questionado sobre a eficiência da fiscalização dessas normas. “Temos hoje uma farta legislação em matéria ambiental, mas muitas vezes ela não é aplicada devidamente em função da falta de servidores para essa tarefa e cai em desuso. Olha o tamanho de nossa cidade”, diz o professor.
“Escolhi esta sala justamente por causa do verde”, diz a jornalista Vera Damian, do sexto andar de um grande edifício comercial, ao olhar pela janela. As árvores que Vera consegue ver todos os dias, há oito anos, desde que começou a trabalhar ali, são do bairro Rio Branco. “Só que antes tinha bem menos prédios”, suspira.
Vera lamenta o corte de árvores dos últimos anos, principalmente dos ligustros. E conta que se envolveu muito com a questão: “Eles foram acusados de ser alergênicos por causar polinose de primavera. Mas era absurdo, porque o ligustro floresce no início do verão”, questiona, arriscando dizer que do final dos anos 1990 para cá teriam sido cortadas cerca de cinco mil árvores na região central.
Para ela, o que falta em Caxias é a consciência que têm os moradores de Porto Alegre, por exemplo. Considerada uma das cidades mais arborizadas do país, por ter 1,2 milhão de árvores apenas em vias públicas – quase uma árvore por habitante –, a Capital, segundo Vera, é cheia de pessoas engajadas. “Elas se organizam, participam. Aqui em Caxias, nada. Esse corte vai continuar, porque ninguém se manifesta, ninguém fala nada. Caxias é uma cidade que não tem olhos para isso”, explica.
Outra pessoa que se preocupava muito com isso em Caxias, relata Vera, era o engenheiro agrônomo José Zugno, falecido em 2008. “Ele era um ativista, mas um ativista técnico. Não se importava com a política, mas com a questão”, recorda a jornalista.
Por 12 gestões, sendo a primeira delas em 1949, Zugno foi secretário da Agricultura em Caxias, encarregado principalmente das praças e jardins da cidade. “Até quando não se falava em ecologia, ele tinha essa preocupação. A arborização sempre foi uma briga, mesmo depois que ele se aposentou. Ele via toda essa movimentação de corte de árvores, sobretudo dos ligustros, e defendia que eles não eram o problema, tinham apenas que ser tratados. Não concordava em substituir essas árvores grandes por arvorezinhas e achava que essa história da alergia era uma desculpa para cortar”, conta o filho de Zugno, Ricardo.
O engenheiro agrônomo, ao lado de um ambientalista, organizou o projeto do Parque dos Macaquinhos nos anos 50. Foi ele, aliás, quem trouxe de Porto Alegre os macaquinhos que habitaram por alguns anos a ilha no lago que havia no parque – e que deram o nome popular ao parque, oficialmente chamado Getúlio Vargas. Zugno também foi o responsável pelos plátanos que embelezam as ruas do entorno.
Por conta de seu envolvimento ambiental, Zugno – que mantinha uma coluna no Correio Riograndense sobre agricultura – chegou a se afastar do cargo de secretário na década de 70, quando o prefeito Victório Trez autorizou o corte de árvores da Júlio de Castilhos para a colocação de árvores mais floridas, as estremosas. “Quando cortam uma árvore, é como um amigo que se vai”, costumava dizer Zugno.
FOTO: No São Victor Cohab, pinheiro foi salvo, mesmo ficando no meio da rua | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense
Da 22ª edição impressa
















Comentários
18 de July de 2010 às 01:24
engraçado como o Boldo fala sobre Caxias como se os anos que ele trabalhou na semma nao existissem… anos em que o PDU foi montado e aprovado alias…
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