Ideias contra a poluição
por Roberto Hunoff | 10/05/2010 às 9:10
A má qualidade do ar, causada principalmente pela poluição de veículos automotores, pode ser revertida com o uso de tecnologias limpas. A indústria caxiense tem alternativas prontas e testadas. Basta o poder público incentivar a sua adoção
Reconhecida mundialmente pelo seu potencial produtivo de veículos acabados e de autopeças para o transporte de cargas e coletivo de passageiros, além de equipamentos agrícolas, Caxias do Sul também se destaca pela preocupação de seu empresariado em desenvolver tecnologias que criem condições de mudar a atual matriz energética destes segmentos, sustentada quase que exclusivamente pelo diesel – derivado do petróleo, e juntamente com a gasolina e álcool dos veículos de passeio, um dos principais causadores da poluição atmosférica. Estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) mostrou que, em 2008, foram gastos R$ 2,3 bilhões de recursos públicos somente com doenças e mortes decorrentes da poluição automotiva em seis regiões metropolitanas do Brasil: Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Trabalho do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP acrescenta que, em dias de alta contaminação do ar, o risco de morte por doenças respiratórias e cardiovasculares aumenta de 12% a 17% em São Paulo.
A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) do Estado de São Paulo destaca na abertura de sua página na internet que entre 10 e 12 pessoas morrem diariamente na capital paulista em decorrência da poluição do ar. Também lembra que habitantes de cidades como São Paulo vivem, em média, um ano e meio a menos do que as pessoas que moram em municípios de ar mais limpo. No mundo, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde e do Banco Mundial, a poluição atmosférica mata de 2,5 milhões a 4 milhões de pessoas por ano. “A frota automotiva é a verdadeira vilã do problema de poluição do ar”, sustenta o professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do Laboratório de Poluição, Paulo Saldiva. Segundo dados da Cetesb, os meios de transportes são responsáveis por 90% da poluição de São Paulo.
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A poluição atmosférica caracteriza-se basicamente pela presença de gases tóxicos e partículas sólidas no ar. As principais causas desse fenômeno são a eliminação de resíduos por certos tipos de indústrias, como siderúrgicas, petroquímicas e de cimento, e a queima de carvão e petróleo em usinas, automóveis e sistemas de aquecimento doméstico. A fumaça dos veículos a diesel contribui com 40% das partículas inaláveis respiradas em São Paulo e 97% do monóxido de carbono liberados na atmosfera partem do escapamento dos veículos.
São cinco os principais poluentes emitidos pelos veículos motorizados na atmosfera: monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HC), óxidos de nitrogênio (NOx), óxidos de enxofre (SOx) e material particulado (MP). Alguns saem diretamente do cano de escape para o sistema respiratório, como o material particulado inalável (MP10), por exemplo. Outros passam por reações químicas e geram novos poluentes tóxicos, como o ozônio (O3).
Os veículos leves movidos a gasolina ou álcool são os principais geradores do monóxido de carbono, que reduz a oxigenação do sangue. Os pesados, como ônibus e caminhões, são os maiores emissores de material particulado, que provoca mal-estar, irritação nos olhos, garganta e pele, dor de cabeça e enjoo, bronquite, asma e câncer de pulmão. Também emitem os óxidos de nitrogênio, causadores do “smog” fotoquímico, fenômeno que reduz a visibilidade da atmosfera e provoca irritação e danos nos olhos, na pele e nos pulmões, secura nas membranas protetoras do nariz e da garganta, altera o sistema imunológico e agrava doenças respiratórias, como asma.
A Organização Mundial de Saúde preconiza como limite para a qualidade do ar 20 microgramas por m³ de material inalável. São Paulo apresenta o dobro, mas não é a capital com a pior qualidade do ar: no Rio de Janeiro o índice é de 60 microgramas por m³.
Em Caxias do Sul a situação parece não ser tão grave. Pelo menos é o que se imagina. O problema é que não há controle algum sobre a qualidade do ar respirado na cidade. O diretor geral da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), Nerio Susin, observa que o monitoramento do ar é uma atribuição da Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente (Fepam). Admite, no entanto, que algo poderia ser feito no âmbito municipal para amenizar os impactos da poluição do ar: a efetiva adoção da inspeção veicular anual.
Outro problema é que a estação de monitoramento da qualidade do ar em Caxias do Sul, localizada no bairro São José e mantida pela Fepam, está em manutenção desde o dia 21 de outubro do ano passado. A última aferição, em 20 de outubro, dava como boa a qualidade do ar. Assim, não se sabe exatamente o que estamos respirando hoje. Por consequência, o fato de a Secretaria Municipal da Saúde não ter informação alguma sobre mortes decorrentes da poluição atmosférica não surpreende.
Para tentar reverter este quadro, que não é exclusivo dos grandes centros urbanos, empresas de Caxias do Sul, como a Tuttotrasporti e a Agrale, investem no desenvolvimento de tecnologias limpas para aplicação no segmento automotivo pesado, especialmente para o transporte coletivo. As propostas incluem o gás natural veicular, hidrogênio, sistema híbrido de eletricidade e diesel e elétrico puro, já aplicado com sucesso em algumas linhas de São Paulo, mas que foi aperfeiçoado, com possibilidade de movimentação a partir de energia gerada pela incineração do lixo.
É o que garante o empresário Agenor Boff, diretor da Tutto, que em abril colocou em operação, para um período de testes, nova versão do trólebus, veículo elétrico agora capaz de transportar até 300 passageiros. “Estes veículos são 100% ecológicos, pois não emitem fumaça. Com a utilização da energia elétrica produzida pela incineração do lixo em usinas, se tornarão duplamente ecológicos, pois estaremos resolvendo o sério problema de destinação de resíduos”, sustenta Boff.
Esta crença, porém, não encontra respaldo em Nerio Susin. Ele é a favor do uso da energia elétrica, que vê como alternativa de futuro não muito distante, mas não acredita que a matriz seja o lixo. Segundo ele, a sua produção é cara e a capacidade de gerar energia é muito baixa. “Mas independentemente da origem da energia o uso desta matriz precisa ser analisado com muita atenção. Não apenas pela questão da poluição do ar, mas também pela sonora, já que há forte redução na emissão de ruídos.”
Boff afirma que o sistema em testes em São Paulo possibilita a substituição dos veículos movidos a óleo diesel por modelos que utilizam trações elétricas 100% ecológicas, evitando o acúmulo de gases tóxicos produzidos pela queima de derivados do petróleo. “Também não teremos armazenamento de lixo, pois sua queima será diária. O subproduto será apenas cinza, um material inerte, que pode ser usado em blocos petrificados para aplicação em calçamento de ruas e construção de casas.”
Segundo Boff, toda cidade com população próxima a 1 milhão de habitantes produz em torno de 1 mil toneladas diárias de lixo. Este volume, segundo seus cálculos, pode gerar até 750 mil kw de energia elétrica, suficiente para movimentar até 217 ônibus com capacidade de 160 passageiros. Em São Paulo são produzidas 15 mil toneladas diárias, o que poderia resultar em energia para uso em 3.255 ônibus com capacidades de 90, 150 e 300 passageiros.
Ele defende o uso de usina termelétrica a lixo, que teria condições de utilizar todos os resíduos orgânicos e industriais estabelecidos pela norma 1004 da Associação Brasileira de Normas Técnicas. São usinas dotadas de plasma térmico apropriado para queima inclusive de lixos tóxicos. Segundo ele, este mesmo processo é usado no interior de São Paulo na queima do bagaço da cana-de-açúcar, que gera a energia elétrica necessária para o abastecimento de usinas sucroalcooleiras. Além da energia proveniente da incineração do lixo, os veículos também podem ser movimentados com o uso de gás metano, que se origina da decomposição natural dos resíduos. Para Nerio Susin, da Semma, uma possibilidade bem mais real de ser concretizada.
Boff assegura que, em virtude dos avanços tecnológicos existentes, a construção das subestações e rede aérea para movimentação dos veículos elétricos é de rápida implantação e a custos competitivos em qualquer cidade do país. Também há estudos para a colocação de sistemas com baterias a bordo do chassis que permitirão o deslocamento de até 50 quilômetros dos veículos sem a necessidade de conexão às redes aéreas.
O projeto da Tutto tem a parceria de grandes empresas nacionais e internacionais. Um dos diferenciais é o uso do mais recente lançamento da WEG, uma das maiores fabricantes mundiais de motores. Trata-se de um modelo de tração compacto, refrigerado a água, especial para aplicação em ônibus urbanos e transporte de cargas. Com isso o espaço dedicado ao motor reduziu-se de forma significativa, pondo fim a um dos mais sérios problemas nas versões anteriores.
A Bosch do Brasil participa com equipamentos de informações por meio de câmeras internas e externas e sistema de GPS, que permite o monitoramento em tempo real, transmitindo informações referentes ao deslocamento. A Dimelthoz, de Caxias do Sul, agregou o computador de bordo para gerenciamento técnico e operacional, e a Iluminatti é responsável pela integração de todo o sistema eletro-eletrônico. O encarroçamento foi feito pela Ibrava (Indústria Brasileira de Veículos Automotores), localizada em Feliz.
A Tutto possui projetos de chassis para ônibus com 9, 12, 15, 18 e 28 metros de comprimentos com capacidades respectivas para 30, 80, 110, 160 e 300 passageiros. Eles podem ter implantação imediata nos corredores exclusivos já existentes nas principais cidades, pois não requerem grande infraestrutura. “Esta é uma solução de curto prazo, de fabricação nacional, que também poderá atender aos eventos esportivos da Copa do Mundo e Olimpíadas”, enfatiza Boff.
A Tutto tem um histórico em desenvolvimento de tecnologias limpas. Sua primeira experiência foi em 1996, quando fabricou 281 chassis novos e integralizou todo o sistema mecânico e pneumático, possibilitando o encarroçamento dos trólebus de São Paulo que estavam fadados ao desaparecimento. Atualmente esses veículos ainda estão em operação em linhas concedidas para a Himalaia Transportes, responsável pelos testes finais do novo veículo.
Outro desenvolvimento da Tutto é o primeiro chassi híbrido movido a hidrogênio, que utiliza células da linha automotiva, entregue ao governo do Estado de São Paulo em julho de 2009. Na Festa da Uva de 2004 o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conheceu o chassi Tutto de 15 metros híbrido que utiliza tração elétrica e combustíveis alternativos, como gás, GNV, álcool, biodiesel, hidrogênio e energia do lixo. “O Brasil não tem necessidade de importar veículos de grande capacidade, como trens ou monotrilhos, de custo cinco vezes superior ao que estamos propondo. Basta decisão política para colocar estas tecnologias à disposição do mercado”, aponta o empresário.
Outras iniciativas de tecnologia limpa têm origem na Agrale. O mais recente desenvolvimento é o modelo de ônibus híbrido, movido por sistema diesel elétrico, criado pela Siemens. O veículo foi apresentado no final do ano passado em Santiago do Chile e em Buenos Aires, na Argentina. No final de maio estará em exposição numa feira de mobilidade que ocorre no Rio de Janeiro. A empresa projetava boas vendas no Chile, mas o recente terremoto acabou forçando nova opção para a destinação dos recursos públicos.
O veículo utiliza dois motores elétricos como fonte de tração e um motor a diesel como fornecedor de energia. O sistema de gerenciamento eletrônico garante o reaproveitamento da energia gerada por frenagens e desacelerações, que é armazenada em ultracapacitores para ser utilizada na alimentação dos motores elétricos. O sistema da Siemens mantém o motor diesel em níveis ideais de rotação, gerenciando o fornecimento da potência necessária. Com isso obtém-se economia de combustível e de manutenção, redução de gases de emissão e de ruídos.
O gerente de engenharia do produto da Agrale, Pedro Soares, garante que o veículo reduz o consumo de combustível em aproximadamente 30% e, por consequência, a emissão de poluentes na mesma proporção. É indicado para sistemas de transporte público urbano de grandes cidades, especialmente em áreas planas. Em regiões mais acidentadas o rendimento não é tão eficiente.
O modelo Green foi desenvolvido pela Agrale para abastecimento com GNV (Gás Natural Veicular). Por enquanto as vendas estão concentradas exclusivamente no Peru. Havia negociações encaminhadas no Brasil, mas a crise de fornecimento de gás pela Bolívia fez com que os frotistas recuassem. “Por aqui as deficiências no suprimento do combustível, aliadas a um preço inicial de venda superior ao do veículo convencional, tornam-se um obstáculo adicional.”
Mas Soares garante que tanto no Green quanto no híbrido o retorno do investimento se dá de forma mais rápida em função da economia no combustível e do menor custo de manutenção. “Estamos nos antecipando e oferecendo alternativas tecnológicas diferenciadas para o mercado. Mas a consolidação, como qualquer outra ação na área ambiental, depende muito de políticas públicas que incentivem o seu uso.”
É o que está fazendo o governo da Nova Zelândia, que estabeleceu metas para a fabricação e oferta de carros elétricos no país. Por meio da chamada Estratégia de Energia para 2050, o governo pretende que nos próximos 40 anos toda a frota de veículos seja elétrica ou movida a combustíveis renováveis. Até 2020 cerca de 5% dos veículos terão de ser elétricos e 25% precisarão usar biocombustíveis.
A Cetesb de São Paulo, em sua política de atuação, defende o uso de veículos de baixo impacto poluidor, como os elétricos, híbridos, a gás natural e movidos a diesel com menor teor de enxofre ou que sejam equipados com sistemas avançados de controle de emissões. Destaca, no entanto, que é preciso privilegiar a tração elétrica.
A Viação Santa Tereza (Visate), concessionária do transporte coletivo urbano de Caxias do Sul, tem uma frota de 313 veículos, responsáveis pelo consumo médio mensal de 750 mil litros de óleo diesel. Para manter sob controle as emissões de gsases, dentro dos padrões estabelecidos por lei, a empresa faz dois tipos de monitoramento.
Todos os meses, nas dependências da empresa, ocorrem testes, por amostragem, para verificação da opacidade da fumaça expelida pelos ônibus. O gerente de manutenção de frota e suprimentos, João Carlos Cardoso, afirma que os níveis atuais são de 19%, enquanto a legislação estabelece máximo de 30%.
Outro controle é feito a cada seis meses por meio do programa Despoluir, uma iniciativa da Confederação Nacional dos Transportes. No último teste a Visate apurou opacidade de 0,188. A Fepam estabelece máximo de 0,208 e a legislação federal, 0,303. “Tanto em um quanto em outro controle nossos parâmetros são melhores do que os exigidos em lei”, destaca.
De acordo com Cardoso, uma das características da frota da Visate é que em sua composição já há 50% de ônibus dotados com motores eletrônicos, onde os níveis de emissão são menores. Em relação ao combustível, principal responsável pelo material particulado, a empresa utiliza o que é oferecido pelas distribuidoras, no caso óleo diesel com adição de 5% de biodiesel, percentual que crescerá nos próximos anos. O biodiesel é extraído de óleos vegetais, como de soja e mamona, dentre outros.
Sobre a possibilidade de a empresa vir a utilizar energia elétrica como matriz de combustível, o gerente não acredita que isto ocorra em prazo inferior a 20 anos. Cardoso observa que se trata de uma tecnologia social e ambientalmente correta na sua aplicação, mas problemática na sua origem. O gerente cita, por exemplo, a geração de energia a partir do carvão. “É uma das matrizes mais poluentes nas cidades onde é gerada. Em relação às hidrelétricas, fonte principal da nossa energia, é cada vez maior a pressão ambientalista contra novas usinas.”
Foto: Nova versão do trólebus desenvolvida pela Tuttotrasporti está sendo testada em São Paulo | Crédito: Tuttotrasportti, Divulgação/O Caxiense
Da 23ª edição impressa














Comentários
10 de May de 2010 às 16:59
Gostei. Matéria muito boa e a sacada da capa também ficou bem legal. Parabéns!
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