Galeria de imagens e resenha da exposição “Fragmentos”, de Victor Hugo Porto
por Marcelo Aramis | 08/05/2010 às 15:30
Tesoura, cola e algumas extravagâncias |
A seis meses da vernissage de Fragmentos, aberta quinta-feira (7), na Galeria Municipal de Arte, Victor Hugo Porto havia pintado somente uma das 12 telas que integram a exposição. O quadro retrata duas de suas Marias, mulheres de proporções gigantescas, mas cheias de feminilidade. Na cena, as personagens que são marca da obra de Victor Hugo se debruçam sobre uma escultura feminina, na perfeita anatomia humana. Uma perfeição de deixar pasmas as gordas e curvilíneas Marias, que estremecem o chão onde pisam e são capazes de agarrar o mundo com as mãos. Olham para a escultura com a curiosidade de quem admira a arte, convictas de que “aberrações” desse tipo, no seu “mundo real”, ficam restritas à arte.
A anatomia perfeita protagonizou mais duas telas da série. E os três quadros eram tudo o que Victor Hugo tinha a 40 dias da exposição. Musas estavam em toda a parte, mas faltava-lhe inspiração. O artista quis desistir, mas voltou atrás. No tempo. Em um velho baú,
remexeu lembranças desgastadas, projetos de obras que nunca haviam passado de rascunhos e ideias cheirando a mofo. Em recortes, as Marias sorriram para o seu criador. Ali estava a matéria-prima da exposição. Victor Hugo colou os pedaços. Prazos apertados nunca atrapalharam o seu processo criativo. Em 40 dias pintou os nove quadros restantes. Nessa inspiradora corrida contra o tempo, o artista pôde visualizar o conjunto da exposição e teve coragem para experimentar o novo. Usou pincéis – inclusive os do Photoshop –, carvão e esponja. Misturou colagens, fios de lã, tinta acrílica, serigrafia e impressão digital. Entre os carimbos serigráficos, enigmáticos nus sem rosto resgatam a segunda fase da obra do artista, quando recém havia abandonado o traço acadêmico das paisagens, retratos e naturezas mortas.
As Marias estão nos detalhes. Coloridas ou em preto e branco, ainda se sobressaem aos nus realistas. Com olhares inquietos e as bocas sempre prontas para o grito, elas protagonizam o erotismo despretensioso de Victor Hugo, sem o pudor de esconder a cara.
Andar entre os fragmentos de Victor Hugo é encontar harmonia no caos. A exposição não se ajusta aos padrões: é cubista por natureza,
realista na nudez, tem pinceladas surrealistas e é desordenadamente dadaísta. Ainda dá para sentir o cheiro de tinta fresca das obras
assinadas quando já estavam na galeria. Acima de tudo, Fragmentos é uma extravagância, que só se permite aos grandes artistas.
Da 23ª edição impressa














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