Um documentário afortunado
por O Caxiense | 17/04/2010 às 11:53
Com ajuda de R$ 100 mil, Caxias do Sul – Tradição e Inovação de Um Povo deve ter melhor sorte que o vídeo recente de um produtor local
Até poucos dias atrás, Neusa Michelin, 78 anos, nunca tinha ouvido falar do produtor de cinema Cícero Aragon. Também desconhecia o fato de que um documentário sobre Caxias do Sul, cujo orçamento beira R$ 1 milhão, está sendo produzido para o aniversário da cidade. Neusa não acompanhou as acirradas disputas verbais na Câmara de Vereadores sobre a concessão de um auxílio de R$ 100 mil a Aragon, responsável pelo documentário. Tampouco ficou sabendo que produtores de cinema locais se organizaram para protestar contra o repasse. Entretanto, por meio de notícias que invadiram sua casa, Neusa tomou conhecimento de um detalhe que a incomodou: estavam dizendo que nunca havia sido feito um documentário sobre Caxias.
Viúva de Nazareno Michelin, proprietário da Michelin Filmes, empresa criada na década de 60, Neusa achou que devia ao marido pelo menos um pedido de reconhecimento. Afinal, durante toda vida Michelin reuniu imagens de Caxias, e com elas montou um vídeo de 50 minutos, seu último e mais importante trabalho, cerca de dois anos antes de morrer (em 2007). O filme, intitulado Caxias da Mata Virgem à Metrópole Industrial, está disponível em DVD ou ainda em VHS, e é pouquíssimo conhecido. Michelin, responsável por filmar, editar e custear o documentário, doou uma cópia à Secretaria do Turismo e uma à prefeitura. “Acho que engavetaram e esqueceram. Ele entregou, ninguém se interessou”, conta Neusa.
Não se sabe quantas cópias do filme foram produzidas. “Foi bastante. Ele achou que teria algum sucesso, que alguém iria se interessar. Não é um trabalho superficial”, explica a viúva. O texto do filme foi escrito pelo pesquisador Mário Gardelin, narrado por Luiz Bolsoni e finalizado com trilhas escolhidas pela própria Neusa. Fora as duas cópias que Michelin entregou à prefeitura, algumas estão hoje com amigos e conhecidos do casal, e muitas delas estão empilhadas num armário no antigo estúdio do produtor, no grande apartamento onde hoje Neusa vive sozinha. Os filmes originais em latas e os aparelhos de projeção de Michelin foram doados à Universidade de Caxias do Sul, que não guarda, porém, nenhuma cópia do vídeo.
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Duas produtoras associadas de Porto Alegre, mesmo sem saber da existência do filme de Michelin, tiveram a mesma vontade dele em retratar a cidade. O documentário Caxias do Sul – Tradição e Inovação de um Povo, filmado durante fevereiro e março, está agora em fase de finalização. Os produtores, entre eles Cícero Aragon, lutam contra os dias para exibir o novo filme na data em que Michelin certamente teria orgulho de apresentar a sua produção: em junho deste ano, no aniversário de 100 anos da cidade. “Estará pronto para a segunda quinzena de junho. Estamos nos esforçando intensamente para isso, pois é o nosso compromisso”, diz Aragon.
Ele defende o documentário que está produzindo como o único que retrata a cidade desde seu início até os dias de hoje: “Mas estamos felizes que exista outro”, disse, ao saber, na quinta-feira (15), da produção de Michelin. “Que a cidade já deva ter sido retratada, nós imaginávamos. Assim como daqui a 10 anos, se alguém fizer algo que retrate-a também, será inédito. Cada filme tem a sua forma de contar, de olhar”, explica Aragon.
Além da preocupação em exibir o documentário a tempo, o produtor tem se empenhado em terminar a captação de recursos para o filme. Na terça-feira (13), Aragon ganhou a ajuda da Câmara, que decidiu autorizar o repasse R$ 100 mil do município ao documentário. No dia da votação, os vereadores discutiram por mais de duas horas até chegar ao placar final: 10 votos favoráveis à liberação e 6 votos contrários. Não aprovaram a verba os vereadores da bancada do PT, composta por Ana Corso, Rodrigo Beltrão, Denise Pessôa e Marcos Daneluz, além de Renato Nunes (PRB) e Daniel Guerra (PSDB).
Aragon e o diretor do filme, Airton Soares – que pouco antes da votação apresentaram um trailer não oficial aos 17 vereadores –, assistiram à votação pela TV do café da Câmara. Não chegaram a se sentar nas cadeiras diante do plenário, até porque isso causaria um atrito com os muitos artistas e produtores de Caxias que lá estavam, carregando cartazes de protesto.
Depois do resultado, se para Soares e Aragon o sentimento foi de alívio, para os produtores locais a sensação foi de desânimo e indignação. “Nesse momento estamos desolados, chateados, nem força para brigar nós temos. Qualquer outro produtor teria que passar por licitação ou por um edital para conseguir uma verba. Por que com esse dinheiro, que é público, foi tão simples? Não é justo. Não é justo”, repetia, uma dia depois da votação, Nika Ferronato, sócia-proprietária da Video Top.
Ainda na segunda-feira, Nika, Marcelo Mugnol (jornalista d’O Caxiense) e Emilio Caio Ferasso anunciaram que estavam se desligando da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização da área de cinema e vídeo do Financiarte em protesto contra o repasse. “De que serve o trabalho de ler uma série de projetos, avaliar suas viabilidades, ponderar os custos, fazer ressalvas quanto a possíveis superfaturamentos, se, do dia pra noite, o próprio secretário da Cultura resolve dar R$ 100 mil a quem ele bem entende?”, diz a carta enviado por eles ao secretário municipal da Cultura, Antonio Feldmann.
Para Ferasso, se Feldmann tivesse pedido a opinião dos três avaliadores do Financiarte a respeito do dinheiro, eles teriam lhe dito que a verba era grande demais: “Ele não tinha que ter aceitado de primeira, teria que ter nos chamado. Não vamos voltar para o Financiarte. Que moral teremos de cobrar dos produtores que cortem daqui e dali se a prefeitura abriu o precedente de dar esse valor?”, explica.
“Nós estamos esperando que quem tome a iniciativa de consertar esse mal-estar seja o prefeito. Aguardamos uma ação de reconciliação por parte dele. Acreditamos que boa parte das produções audiovisuais feitas em Caxias são importantes para a cidade em qualquer momento, não só porque está fazendo 100 anos. Se chegamos aonde chegamos, foi também fruto do esforço de pessoas da área da cultura daqui”, explica o produtor da Spaghetti Filmes, Lissandro Stallivieri, que acompanhou as três sessões da Câmara que discutiram o projeto.
Os R$ 100 mil, porém, ainda não terminaram o trabalho de captação de Aragon, que promete exibir o documentário para cerca de 2 milhões de pessoas – considerando todas as mídias, como cinema, TV por assinatura, TV aberta, DVDs e internet. Uma parte da divulgação já está garantida: conforme Aragon, o filme tem entre seus apoiadores o Grupo RBS, que deverá contribuir com o equivalente a R$ 50 mil em mídia.
No estúdio de Nazareno Michelin, há um quadro com uma foto em que ele aparece usando suspensórios e manuseando uma aparelhagem antiga de vídeo. A foto é um dos orgulhos de Neusa. Michelin, que estaria fazendo 80 anos em 2010, não poderá ver o documentário que os produtores de Porto Alegre apresentarão. Neusa pretende assisti-lo: “Não tem por que não ver”. Ela acredita que a qualidade das imagens deste documentário certamente será melhor dos que a das captadas pelo marido, o que entende como resultado natural da evolução da tecnologia. “Só não quero que o nome dele fique esquecido, porque ele era apaixonado por esta cidade.”
Foto: Já filmado, documentário ainda capta verbas: “Estará pronto para a segunda quinzena de junho. Estamos nos esforçando para isso, é o nosso compromisso”, diz o produtor | Crédito: André Susin, Divulgação/O Caxiense
Da 20ª edição impressa.
















Comentários
21 de April de 2010 às 19:06
Parabéns pela matéria, fico feliz pelo grande amigo e mestre Michelin, nesta obra dele pudemos ajudar cedendo imagens nossas das indústrias de Caxias, imagens aéreas e algumas de Caxias.
Esse Michelin realmente era de muito talento, garra e trabalho, e por incrível que pareça este pioneiro na produção, onde quer que esteja, taí nos defendendo, ou melhor, defendendo o talento de quem faz por Caxias. Dá-lhe Nazareno!!!
Aos responsáveis pela coisa pública, sejam vereadores ou integrantes do executivo, fica a lembrança de melhor se informarem sobre o assunto, antes de tomarem suas decisões.
Saludos. Câmera, Luz, Michelin!!!!!!!
21 de April de 2010 às 23:43
Agradeço a abordagem sempre bem estruturada d’O Caxiense durante a luta dos produtores locais por justiça e igualdade junto a Prefeitura de Caxias e a Secretaria da Cultura. O Michelin é mais um exemplo do esforço dos artistas locais em retratar a nossa cidade por amor e não por dinheiro!! Isso ajuda a mudar o discurso dos produtores de Porto Alegre que desdenharam TODOS OS FILMES que já foram feitos sobre a história de Caxias. Sim… Foram vários. Desde a década de 40 Caxias é retratada em filmes documentários com a mesma abordagem do que está sendo feito agora. Mas para isso, alguns vereadores e o Secretário da Cultura insistem em fechar os olhos. Que lástima estarmos vivendo nesta ditadura…
23 de April de 2010 às 00:35
Fico chateado de ver pessoas que respeito atacando o filme sobre Caxias, talvez por dor de cotovelo de nunca terem apresentado um projeto como esse. O Financiarte é uma ferramenta importante de apoio, mas não é – e nem pode ser – a única.
Sugiro que usem o mesmo tempo que gastam reclamando do patrocínio para desenvolverem e apresentarem projetos à prefeitura e às outras esferas do poder público que concedem esse tipo de benefício. Tenho certeza que se o projeto for bom será contemplado.
É normal ver patrocínios do poder público a filmes que ajudam na divulgação da cidade/estado/país. Aliás, não apenas a filmes, mas a variadas atividades culturais, entre elas os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Tais patrocínios, além de incentivarem a produção cultural, contribuem com o turismo – fato que me faz lamentar, em especial, a posição do vereador Daniel Guerra, que já foi secretário da pasta em Caxias.
É de se lamentar o oportunismo de alguns e a demagogia de outros.
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