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    Teoria da relatividade

    por O Caxiense | 02/04/2010 às 8:35

    O Caxias faz até aqui uma excelente campanha no Gauchão. Mas esse bom momento pode dizer até onde vai o time no campeonato?

    Se alguém puder tirar Albert Einstein do recinto, melhor. É que fica chato para esse senhor, criador da Lei da Relatividade, entre outras descobertas, ver seus conceitos associados ao futebol. Dois assuntos circulam pelos habitantes do planeta bola em Caxias do Sul. Um deles é a boa fase do Caxias. O time grená está classificado para as finais da Taça Fabio Koff, segundo turno do Gauchão, com duas rodadas de antecedência. Ocupa a primeira posição e luta para ser o Campeão do Interior, posição que não ocupa desde 1989, segundo análise de historiadores como Jorge Roth e dirigentes como Vanderlei Bersaghi, o Pé.
    O outro assunto, óbvio, é a má fase do Juventude. Aliás, que fase, hein?! Faz três anos que o time só vem dando decepções. Vem caindo, caindo. Aliás, o torcedor alviverde viveu boa parte deste segundo turno com medo do rebaixamento. Para a série B do Gauchão. Desse mal o Juventude não sofre mais, não este ano, pelo menos.
    Mas existe uma particularidade nessa competição extra-campo, resultado, é claro, do que cada um dos times vem fazendo sobre o gramado. Tudo é relativo, como diria Einstein. Afinal de contas, só se consegue perceber a boa fase grená olhando através do prisma da má fase do Juventude. Ou ainda, se o Caxias não se classificou no primeiro turno é porque outros tinham sido melhor ainda do que ele. Como agora, mesmo com a boa campanha de clubes como o São José, o Caxias foi ainda melhor e por isso é líder, isolado. Na classificação geral, por enquanto, perde apenas para o Grêmio.
    Mais um ponto para Einstein e sua teoria relativística. O Caxias é melhor do que muitos, mas não ainda, podemos até reforçar isso no espaço e no tempo – não ainda –, melhor do que o Grêmio. O tricolor, aquele clube que muitos chamam de Imortal, é o único que venceu o time grená nesta temporada. E já faz tempo. Pra lá de dois meses. A importância desse feito depende ainda de cada ponto de vista. Para os papos, não tem a mínima importância, e o torcedor mais atento e apaixonado pelo seu verde clube vai se lembrar de um ano tal em que o Ju ficou o dobro de tempo sem perder.
    Da mesma forma, o Grêmio. Seu imortal torcedor não está nem aí para a invencibilidade do Caxias, porque ele tem a sua, dentro do Olímpico. Mas o Caxias vai lutar para sustentar a sua invencibilidade, pois quer ser Campeão do Interior, título que pode lhe dar uma vaga à Copa do Brasil em 2011. “E daí?”, dirá um alviverde com um tanto de inveja. “Já fomos até campeões da Copa do Brasil”, complementaria, saudosista. “Ah, mas o Caxias foi Campeão Gaúcho em 2000, fomos vice em 2009 e podemos ser campeões este ano”, responderá um ufanista torcedor grená. “Vice em 2009 tomando goleada na final”, retrucará o papo, verde de raiva. Tudo depende do ponto de vista, né, Einstein.

    O torcedor que não acompanha o dia a dia do clube grená só enxerga o sucesso do Caxias a partir do que vê em campo, ouve na rádio e lê n’O Caxiense. A maioria dos torcedores não tem a oportunidade de conversar fiado sobre futebol com Julinho Camargo, treinador do Caxias. Muito menos pode ouvir de Lê, atacante de origem e curinga de profissão, o carinho que ele tem pelo clube onde foi formado, e ao qual voltou como filho pródigo mas encontrou seu lugar na mesa já ocupado. Mesmo assim, Lê não deu uma de moleque mimado e ficou chorando pelos cantos. Foi aprender a viver de um jeito diferente. Lê, e talvez disso o torcedor não saiba, suou muito para aprender a jogar do jeito que o novo treinador desejava. E por amor ao clube, entrega-se de corpo e alma, mesmo sem fazer gols (algo que ele tanto gosta), porque entendeu que senta em um outro lugar à mesa.
    “Eu vivi coisas bem distintas aqui dentro do clube. Sei o que é o Caxias estar na Série B, e sei o que é viver a má fase”, revela o atleta de 25 anos. Lê não carrega o estereótipo do novo jogador de futebol. Não usa brincos de brilhante, não ostenta relógio de grife. Ele se parece muito com aquele primo esportista, boa pinta, um tanto tímido e que prefere fazer seu trabalho sem sair por aí dizendo que faz e acontece. “Sei que o torcedor não entendia no início, quando Julinho me colocava para jogar atrás, marcando. Porque a torcida estava acostumada a me ver de centroavante. E não foi fácil para eu entender o que o Julinho queria. Mas aos poucos a gente foi se entendendo e hoje sei muito bem qual é a minha função no time.”
    Há quem diga que Lê é o 12º jogador grená. Faz sentido, porque Lê tem entrado em quase todos os jogos, sempre para mudar a partida. Seja porque é preciso mais alguém para tocar a bola com capricho no meio de campo, seja para conter o avanço dos adversários por um determinado espaço. Outro que sabe muito bem do seu lugar é o meia Marcelo Costa. O capitão do time, referência em campo, foi trazido ao Centenário por causa da sua experiência. No clube, tem sido essencial também por sua paciência e tranquilidade. “O Marcelo é o cara que diz pra gente quando tem de avançar ou quando tem de acalmar o jogo”, revela Edenilson, 20 anos, o segundo mais jovem do elenco, atrás apenas do terceiro goleiro, Sidvan, de 17.

    Edenilson foi entrando aos poucos, mas parece ter dado uma certa regularidade ao time. Ed, como é chamado pelos companheiros, tem sua teoria: “Joguei todas as partidas desde o confronto contra o Porto Alegre e desde então estamos invictos”. A declaração pega o próprio jogador de surpresa, porque até então, durante a breve entrevista, Ed pensava em cada palavra. Mas Ed não é desses caras que conseguem manter muito a concentração numa coisa só. Principalmente quando é para ser sério. O garoto Ed é brincalhão, mas em campo tem feito apresentações de gente grande.
    “O Julinho tem conversado muito com a gente durante esses dias porque não conquistamos nada ainda. Não podemos entrar de salto alto, achando que ‘somos os caras’. A gente sempre pode melhorar”, diz, como se tivesse repetindo frase a frase o que acabara de ouvir do treinador. Ed tem ainda alma de criança, mas é obediente. A prova é o carinho da torcida, a regularidade nos jogos e os telefonemas que o presidente Osvaldo Voges vem recebendo por causa de sua boa fase. “O presidente me disse esses dias que ligaram querendo me contratar, mas eu estou bem feliz no Caxias, não quero fazer nada apressado. Quando surgir algo bom para o Caxias e para mim, eu vou.”
    Quem conhece Ed não consegue imaginá-lo infeliz, em lugar nenhum no mundo. Mas antes que essa teoria relativística passasse pela cabeça do repórter, o jovem atleta saiu-se com essa: “Feliz porque não chegou o inverno ainda. Tá louco, aqui é muito frio. Vim de Porto Alegre e lá não é tão frio como aqui”, brinca. E há sentimento mais relativo do que a felicidade? Marcelo Costa, o camisa 10 grená, não é de soltar gargalhadas ao estilo Edenilson de ser, nem por isso é um cara triste. Mas assim que chegou ao clube ele era um pouco mais na dele do que é hoje. Marcelo vinha de um ano péssimo, enfrentava mais uma batalha espiritual para voltar a ser reconhecido no mundo da bola.

    “A gente sente que é uma boa fase. Mas cada jogo é um jogo. Hoje a gente pode estar muito bem, mas se perder a primeira partida da fase final já vão nos criticar e vai acabar a boa fase”, relativiza Marcelo Costa, 29 anos. E prossegue, sempre no mesmo tom, bem como é em campo: “Precisamos tomar cuidado porque todo mundo vai querer tirar a nossa invencibilidade”. Mesmo sem ouvir a declaração do camisa 10 grená, o experiente Vanderlei Bersaghi, 51 anos, mais conhecido como Pé, diz a mesma coisa, só que de outro jeito: “É na hora da boa fase que tem de tomar mais cuidado, porque todo mundo quer nos derrubar”.
    Pé é daqueles que acompanham até treino físico. Sabe o preço que custa cada bola oficial que o clube utiliza e já viveu bons e maus momentos dentro do Centenário. Tivesse estudado física, e não trabalhado em banco, como outrora, poderia escrever a Teoria da Relatividade do futebol, a partir dos estudos de Einstein. Pé já viu de tudo. “Olha aqui ó, para ter sucesso na vida, além de competência, é preciso ter sorte. O Caxias salvou em cima da linha duas vezes no jogo contra o Inter”, ensina Pé, discípulo de Einstein.
    Mas quem coloca em xeque-mate o seu próprio trabalho – sempre, diga-se de passagem –, é o jovem treinador Julinho Camargo, 39 anos. “A gente sabe das nossas limitações, vivemos uma boa fase, sim, mas amanhã já pode ser diferente. Cada jogo é um jogo. Falo para os meus atletas que eles precisam ter os pés no chão. Se alguns já estão tendo alguma visibilidade aqui no Caxias, e nem conquistamos nada por enquanto, imagina quando estivermos melhor ainda.” Julinho não vê o futebol apenas do ponto de vista do torcedor, apaixonado, ufanista, que chora e ri em um intervalo de 3 segundos.

    Ninguém no planeta, nem Einstein, poderia dizer como seria o Caxias se jogasse com este no lugar daquele. Se o time grená, caso tivesse como treinador Osmar Loss, estaria classificado, ou se o alviverde, com Julinho Camargo, estaria em outra posição na tabela. Segundo Einstein, só seria possível comprovando, para depois comparar. Ou seja, manda parar o campeonato, troca os treinadores e começa tudo de novo. Quem topa? Einstein toparia. E quem sabe se fosse ele o responsável pela fórmula de disputa não teríamos um pouco mais de racionalidade na percepção do valor dos resultados.
    Observar o passado do Caxias pode nos dizer muita coisa. O time não perde há mais de dois meses. Até este domingo (4), o Caxias venceu nove partidas, empatou quatro e perdeu apenas uma. Fez 27 gols e levou 16, saldo 11. Se isso o credencia para disputar o título? Lógico que credencia. Porque o time já está classificado para a próxima fase. Agora, se vai ser campeão, nem mãe Dinah, aquela que mais erra do que acerta os prognósticos, nem Einstein e suas teorias certeiras podem descobrir. Uma porque Einstein, para quem não sabe, já morreu. Outra porque é preciso aplicar a teoria. E aplicar a teoria, no caso do futebol, é colocar o Caxias em campo, seja com quem for. Não tomar gols. E vencer.

    Foto: Julinho comemora, mas pondera: “Vivemos uma boa fase, mas amanhã já pode ser diferente. Cada jogo é um jogo. Falo para meus atletas que eles precisam ter os pés no chão”

    Da 18ª edição impressa

    Categoria: Caxias, Esportes, Geral | Tags: Caxias,caxias do sul,esporte,futebol,Gauchão,Impresso

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