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    Superação grená

    por O Caxiense | 20/03/2010 às 10:22

    Estranha combinação de fatores acabou unindo ainda mais o grupo do Caxias

    Há quem diga que tudo é mais difícil para o Caxias. Talvez por isso só as pessoas de bom coração, com o perdão do trocadilho, aguentam assistir aos jogos no Centenário. Se até os corações mais regulados sofrem de uma estranha arritmia que dura exatos 90 minutos, imagine quem usa marca-passo. Uns chamam isso de sofrimento, outros acham que essa dor no coração é fruto de uma paixão que só acomete os grenás. Mas essa triste sina de vencer desafios e num piscar de olhos chover outra penca de desafios é o que deixa muito grená enlouquecido, ou como diz o mais positivo, porém eufemista: “essas dificuldades que aparecem de repente são o tempero na vida de um torcedor grená”.
    E que tempero esse, hein? Como diz o irônico, sentado no banco da praça: “tempero nos olhos dos outros é refresco”. E não é que o treinador e o auxiliar do Caxias acabaram sendo acometidos desse estranho refresco que só é bom no olho do outro? Primeiro foi Julinho Camargo. Desde a semana retrasada o treinador do Caxias está tratando de uma conjuntivite que pegou em cheio os olhos do sempre atento falcão grená. Nada passara até então pelos olhos bem treinados de Julinho. Nem que fosse o menor dos detalhes. Nada passava batido.
    Estranhamente, como se do dia para a noite, a bandeira grená acordasse verde e branca, Julinho foi impedido de estar próximo dos seus jogadores e colegas da comissão técnica. E pra piorar – e confirmar a estranha sina de sofrer que o Caxias traz consigo – o time grená enfrentaria no início da semana seguinte, o Pelotas, fora de casa. Num confronto que o Caxias não vencia desde 2000. Sem Julinho Camargo na beira do gramado, restou ao auxiliar técnico Ivan Soares a missão de assumir a bronca.
    Tudo planejado. Nenhuma ação de Ivan, nem mesmo durante os treinamentos da semana retrasada, vinha de improviso, como se o auxiliar fosse um músico de jazz. Na verdade, Ivan, nem mesmo era o maestro desta orquestra. Ivan sabia apenas que tinha de fazer o time continuar a jogar por música como Julinho vinha fazendo. Espetacularmente, no jogo contra o Pelotas, o time superou até os mais otimistas. Jogando bem, ao natural – mesmo sem o capitão Marcelo Costa e o comandante Julinho Camargo – o time venceu por 3 a 2. Os dois gols do Pelotas, não fosse uma desatenção pontual, nem teriam ocorrido. Assim como se o Caxias tivesse uma pontaria perfeita, a sacola já teria começado ainda no primeiro tempo.
    Além de estrear como treinador, Ivan, como a referência na casamata grená, ajudou e foi ajudado pelo elenco a derrubar um tabu que andava pior do que disco arranhado. O Caxias fez 3 no Pelotas e venceu, assim como havia feito em 2000, quando também aplicou 3. Quer ainda outro dado interessante? Naquele 2000 o Caxias acabou Campeão Gaúcho. Mas como nem tudo são flores nessa trilha grená, não tardou, e logo veio outro ramo de espinhos. Ivan, o escudeiro de Julinho, que vinha fazendo tudo como idealizara o mestre, mesmo afastado do dia a dia do clube, acabou sendo também acometido pela mesma pimenta nos olhos, e que não tem nada de refresco.
    Ivan descobriu no início da semana passada que também estava com conjuntivite. Julio Soster, o gerente de futebol grená, tentava explicar ao repórter da rádio Caxias, a diferença entre uma conjuntivite e outra. “A conjuntivite do Julinho é viral, é transmissível. Mas a do Ivan é bacteriana, não pega assim no convívio”. Ao final da entrevista, Soster olhou para o assessor de imprensa, Luiz Carlos Erbes, coçou a cabeça e disse: “Falei certo? Ficou bem explicado, né?”. Erbes fez sinal positivo, acenando para Soster.

    Na verdade, essa tal de conjuntivite pegou de jeito até quem não foi acometido por ela. Felizmente, não é o principal assunto dentro de campo, nem mesmo nos treinamentos, que no meio da semana passada estavam sob comando do preparador físico Fabiano Vieira e do preparador de goleiros, Rogério Maia. Mas fora de campo tem gente já matutando e ficando paranóico que diz sentir uma estranha coceira no olho. Da torcida o que mais se ouve é uma estranha teoria conspiratória, que deixaria até os roteiristas da Globo boquiabertos. Dizem os mais fervorosos torcedores que isso é tudo praga de Argel Fucks, ex-treinador do Caxias, e que hoje divide seu tempo treinando o São José no Gauchão e sondando atletas para montar elenco no Criciúma, time que vai comandar na série C.
    Como se dizia lá no início do texto, as coisas nunca são fáceis pro Caxias. Mas esmiuçando este estranho tema, pelo menos obtuso ao fabuloso mundo da bola, é possível extrair poesia do meio da m****. Todos esses inconvenientes, do longo afastamento de Julinho, do médio afastamento de Ivan, e da necessidade de tocar a vida mesmo sem a presença do comandante grená, comissão técnica (os que não estão com conjuntivite, que são muitos e todos competentes) e o elenco (responsável e fechado com o clube) abraçaram a causa e honraram o nome da agremiação, antes de mais nada.
    “Nossa responsabilidade não é maior sem o Julinho. Precisamos ter a mesma responsabilidade como se ele estivesse na beira do gramado com a gente”, defende Marcelo Costa, camisa 10 do time e capitão, que deve voltar a atuar contra o São José, no sábado, dia 20. “Ter o Ivan na beira do gramado e trabalhando no dia a dia com ele estreitou ainda mais a relação dele com o elenco”, valoriza Itaqui, volante do Caxias. Enquanto concedia entrevista ao Caxiense, o presidente Osvaldo Voges interrompeu o papo, brevemente, para cobrar de Itaqui um gol de falta. “Vai sair, presidente, anda passando perto”, retrucou o volante.

    Como se vê, o clima com ou sem Julinho na beira do gramado e comandando os treinamentos é o mesmo – sem desmerecer é claro, a importância do técnico. “Sempre preguei aqui no clube uma coisa: nosso trabalho nunca foi personalista. O importante é que o clube tenha um trabalho forte. Tu fortaleces o todo, não sendo personalista”, justifica Julinho Camargo. E prossegue, em entrevista por telefone, é claro: “Não trabalho com quem eu não confio. Gosto de ter pessoas competentes do meu lado. Não gosto daquele tipo de treinador que se cerca de pessoas incompetentes para que ele se evidencie. O grande treinador é o que está cercado de pessoas competentes”. Precisa explicar mais?
    Mas tem ainda um outro fato que revela como esse grupo está focado nos seus objetivos. Rebobina a fita. A cena se passa em Pelotas, Metade Sul do estado do Rio Grande do Sul. Mais precisamente, no vestiário do time visitante, no estádio da Boca do Lobo. Ivan andava preocupado. Não sabia como andava o sentimento dos jogadores, minutos antes de mais uma partida decisiva deste segundo turno do Gauchão. O auxiliar técnico, promovido a técnico momentâneo pensou, pensou e montou uma palestra especial.
    “Minha preocupação era com o foco deles. Na preleção, comecei com esse tópico, mas nem consegui terminar, porque os jogadores me interromperam dizendo que osso nem precisava falar porque eles estavam fechados com o clube e queriam ir pro jogo”, revela Ivan. No entanto, antes de atravessarem o túnel da Boca do Lobo, os jogadores pediram cinco minutos pra conversar sozinhos: “Eles disseram assim: ‘Nós somos uma família aqui no Caxias. Então vamos lutar pela nossa família”, recorda Fabiano Vieira, preparador físico do Caxias.

    Superação parece ser a palavra de ordem nessa família grená. E que venham os próximos confrontos, porque se depender da união desse grupo, pode mandar chover canivete, vendar os jogadores, amarrar as mãos do goleiro, que nada vai parar esses caras. Maior reverência a esses guerreiros seria ver a torcida lotar o estádio nesses últimos desafios do returno, sábado dia 20, contra o São José, e domingo, dia 28, contra o Inter.

    Foto: Afastado dos trabalhos dos últimos dias por doença oftalmológica, Julinho destaca unidade do grupo grená | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense

    Da 16ª edição impressa

    Categoria: Esportes, Geral, Impresso | Tags: Caxias,Impresso

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    Comentários

    • O Caxiense » Arquivo » Caxias, líder isolado
      25 de March de 2010 às 19:45

      [...] time grená anda imbatível. A boa fase do Caxias supera inclusive a ausências de três dos principais jogadores do elenco. Mesmo sem Marcelo Costa, [...]

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