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    Meninada esmeraldina

    por Roberto Hunoff | 26/03/2010 às 18:16

    Dos 33 atletas do grupo principal, 15 tem até 20 anos. Nos últimos jogos, a idade média do time foi de 22 anos

    Quando assumiu a presidência do Esporte Clube Juventude, após vencer José Antônio Boff numa das mais acirradas disputas eleitorais da agremiação, Milton Scola deixou muito claro para toda a comunidade alviverde: será um ano de limitações, com poucos investimentos em novas contratações e valorização da prata da casa de forma a encaminhar a recuperação financeira, fortemente abalada nos últimos exercícios. A considerar que, em 2010, por força das circunstâncias, ou seja, a queda para Série C do Campeonato Brasileiro, o ingresso de reais se tornaria ainda mais restrito.
    E a política realista foi posta em prática. Poucas contratações, nada de jogadores de grande renome nacional, e valorização dos atletas formados nas categorias de base do clube. A escolha pelo técnico Osmar Loss, com 15 anos de experiência pelo Inter nesta área do futebol, respaldava a filosofia então iniciada. A torcida precisava, sim, entender a nova realidade e apoiar aquele grupo formado por alguns veteranos e muitos jovens.
    O que não se esperava, no entanto, é que estes jovens tivessem que assumir a titularidade em número bem acima do que se pretendia. Nos últimos dois jogos do Juventude pelo segundo turno do Campeonato Gaúcho, dos 14 atletas que entraram em campo em cada partida, nove tinham até 20 anos. “A média de idade foi de 22 anos”, confirmou o técnico Osmas Loss, na quinta-feira à tarde, nos camarotes do clube onde assistia ao jogo do Caxias contra o Veranópolis, acompanhado do presidente Milton Scola e do vice de futebol, Juarez Ártico.

    Para o presidente Milton Scola, o uso de número tão representativo de atletas jovens, a maioria formada no clube, não era a proposta inicial, situação que se consumou, principalmente porque jogadores mais experientes acabaram se lesionando, casos de Umberto, Ferreira e Júlio César. Já Sílvio Luiz passou para o banco nos últimos jogos, abrindo espaço para o jovem goleiro Carlão, que ganhou a titularidade por estar num momento técnico melhor. Na verdade, a revelação alviverde já trazia a experiência do ano passado, quando foi reserva de Juninho e de outros e, neste ano, de Tiago Rocha, hoje terceiro goleiro. Por opção de Osmar Loss também Lauro foi para o banco, entrando no decorrer dos jogos.
    Diante deste quadro e com grupo reduzido não restou saída que não a de usar mais os atletas da base, contrariando a ideia inicial. “A gente pensava em algo meio a meio”, confirmou o vice Juarez Ártico.

    Dos 33 jogadores que formam o atual elenco, 15 tem até 20 anos de idade. Nesta faixa há cinco com 17 anos: o goleiro Follmann, que ainda não jogou, mas está integrado ao grupo principal, o zagueiro Bressan, o volante Gustavo – ambos titulares nos últimos jogos -, o meia Hiago e o volante Goiano, também já aproveitados.
    Na avaliação de Osmar Loss, a média de idade de 22 anos está adequada aos padrões do futebol. Ressalva, no entanto, que para se obter o rendimento esperado é preciso tempo suficiente para trabalhar o grupo técnica e fisicamente. Não foi o caso do Juventude, que teve apenas duas semanas de preparação em janeiro antes de estrear no campeonato. Mas para Loss é inquestionável que houve evolução no segundo turno. “Estamos tendo mais tempo para trabalhar porque não há aquela sequência de dois jogos na semana como no início”, observa.
    Esta visão do técnico encontra respaldo em Milton Scola. A torcida pode até não gostar ou aceitar, mas o presidente sustenta que o grupo cumpriu a missão, que era de não cair para a segunda divisão do Gauchão. “Estamos praticamente livres do rebaixamento. Sem esta pressão o time tem tudo para render mais e pode até surpreender”, acrescenta.
    Scola é muito claro e objetivo: o clube precisa lançar mais jogadores formados na base para o grupo principal para valorizar e mostrar o seu patrimônio. “É daí que sairão os recursos necessários para a superação das dificuldades financeiras”, acrescenta.
    Sobre a possibilidade de jogadores potenciais serem “queimados” em decorrência de desempenhos muito abaixo do que poderiam apresentar em outras condições, o presidente responde que é preciso arriscar. Para ele, não é mais possível esperar a idade-limite para colocar os jogadores em campo. “Os clubes europeus não estão olhando para atletas experientes. Eles buscam aqueles que têm 17, 18 anos. Por isso, este patrimônio precisa ser mostrado,” define.
    Assim é que outros jogadores da base devem ascender em breve entre os profissionais. Não nesta reta final do Gauchão, até porque no sábado o Juventude faz sua estreia no Estadual de Juniores. Mas para a Série C esta possibilidade é bastante concreta. “Pode ser que mudem algumas peças, mas a filosofia será a mesma”, antecipa. Scola sustenta que não está sendo feita uma avaliação do grupo, mas individual de cada atleta.
    De acordo com Osmar Loss, nenhum jogador da base é aproveitado nos profissionais sem uma preparação anterior. Lembra que os cinco de 17 anos tiveram um período de adaptação no vestiário para absorver a nova cultura, diferente daquela a que eram acostumados. “O ingresso é gradual até para tirar aquela pressão natural”, reconhece o técnico. Em favor destes contou a participação histórica do Juventude na Copa São Paulo, chegando até as semifinais.

    Que tipo de reflexos a utilização de jogadores jovens acima do planejado pode ter causado na base? Receio, medo, temor, pressão? “Incentivo”, responde sem qualquer dúvida o vice-presidente das categorias de base, Antônio Cumerlatto, para quem a atual situação do clube exige a adoção desta estratégia. Segundo ele, os jogadores formados no Juventude têm potencial e precisam suprir as necessidades atuais do time titular. “O resultado histórico na Copa São Paulo é argumento mais do que suficiente para que se acredite nestes meninos. Eles precisam ganhar oportunidades e provar nos titulares o que mostraram nos juniores. Logicamente que dentro de um processo gradual, com acompanhamento e preparação.”
    Cumerlatto também lembra a política do clube de formação de jogadores, que se inicia nas escolas de recreação e competição, e segue nas categorias seguintes a partir dos 13 anos até alcançar os juniores. Segundo o vice-presidente, este trabalho objetiva, essencialmente, criar nos atletas algo pouco comum no futebol atual: identificação e comprometimento com o clube do coração, aquele que lhe deu a oportunidade de vencer na vida como jogador. “Esta filosofia é respeitada em todo o Brasil e já seguida por alguns clubes. Com ela geramos o potencial que o Juventude precisa e, quando necessário ou surgirem oportunidades, os negócios para garantir a sobrevivência financeira da agremiação.”

    Cumerlatto observa que o clube continua tendo sucesso nas investidas que faz para trazer atletas para as categorias de base. Inicialmente havia receio em função da queda do time para a terceira divisão do futebol brasileiro. “Não é isto que ocorre. Está bem claro nestes jovens que o Juventude está, momentaneamente na Série C, mas não é time para ficar nesta condição.”
    Para que o clube forme não apenas atletas, mas também cidadãos, há um grupo multifuncional encarregado de trabalhar o emocional dos jogadores. Há psicopedagoga, que, dentre outras atividades, acompanha a questão educacional, cobrando desempenho positivo, psicóloga, fisioterapeuta, nutricionista e fisiologista, tal qual é oferecido aos profissionais. Além de diretores por categoria, responsáveis por dar o suporte institucional em nome do clube e defender os seus interesses.” Mais de 90% dos jogadores da base já têm empresários. Por isso, precisamos estar atentos permanentemente.”
    Crítico da Lei Pelé, que para ele beneficiou empresários, um pouco os atletas e quase nada os clubes, Cumerlatto destaca o trabalho junto aos familiares. Sem isto, dificilmente a agremiação teria condições de usufruir do retorno futuro do investimento feito. “É preciso ficar muito próximo das famílias, dando o apoio e acompanhando a movimentação de terceiros”, explica.

    De acordo com Cumerlatto, a presença de Osmar Loss como técnico dos profissionais é essencial para o aproveitamento dos jovens. Pela experiência de 15 anos nas bases do Internacional, é sensível e aberto ao trabalho de formação. “Toda a transição de um atleta é discutida e avaliada pela diretoria e comissões técnicas das duas categorias. Ele sabe das dificuldades e recebe os jogadores de forma diferente, colocando os desafios, mas dando o apoio que é necessário.”
    Para o vice das categorias de base, a convivência com os profissionais é fundamental para o crescimento dos juniores ou juvenis, que conseguem absorver sem dificuldades um eventual retorno para as suas categorias. Tanto é que atletas como o goleiro Follmann, que já figura no elenco principal, estarão no Estadual de Juniores a partir deste sábado defendendo o Juventude. “Eles sabem que a oportunidade virá na hora certa.”
    Enquanto isto, os torcedores esperam que os jovens esmeraldinos façam mais do que cumprir a missão primeira. Querem vitória nos jogos contra Avenida, na segunda, em Santa Cruz, e Grêmio, no dia 4 de abril, no Jaconi, para que o Juventude esteja dentre os oito classificados ao mata-mata, como no primeiro turno. Mas para isto é preciso paciência e muito carinho, como os pais fazem com seus filhos.

    Foto: na escalação que entrou em campo contra o São José, os jovens são maioria | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense

    Da 17ª edição impressa.

    Categoria: Esportes, Geral, Impresso, Juventude | Tags: caxias do sul,futebol,Impresso,Juventude

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