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    De grão em grão, a dimensão da Festa

    por O Caxiense | 13/03/2010 às 11:26

    Um único estande vendeu 395 edredons, um piloto voou 130 vezes, um grupo de senhoras fritou 10 mil pastéis e a rainha ficou doente por um dia

    A Festa da Uva é uma festa de números. Mesmo que a Comissão Comunitária insista que o importante é a satisfação de ter atendido bem os visitantes, sabe-se que, no final, a maior festa da região será medida por cálculos. Mas enquanto os números oficiais da 28ª edição não são divulgados pelos organizadores – que prometem fazê-lo só ao final do mês –, é possível citar outros que, sem revelar a bilheteria ou as toneladas de uvas distribuídas, também dão a dimensão do evento.
    Nos 18 dias de Festa, um grupo de mães amassou, fechou e fritou 10 mil pastéis. Dez mil pastéis seriam suficientes para o lanche diário de uma família de cinco pessoas durante dois anos inteiros – isso, claro, se alguma família fosse capaz de ingerir fritura todos os dias.
    Os pastéis, de queijo, presunto, chocolate ou carne – este último, o campeão de vendas –, eram vendidos a R$ 3 pelo Clube de Mães Santa Rita de Cássia, que ocupou o espaço de uma das réplicas dos Pavilhões. “Vendemos até mais do que esperávamos”, avalia a presidente do clube, Marlene Colleoni.
    Além da fartura da comida, havia água de sobra na Festa. O Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae) distribuiu 300 mil copos, que matariam a sede de 3/4 de uma população de 400 mil habitantes.

    Com tanta gente comendo e bebendo, também era preciso ter banheiros. Muitos banheiros. Além dos sanitários que ficavam dentro dos Pavilhões, a comissão da Festa contratou uma empresa que colocou à disposição 250 banheiros ecológicos (ou químicos). Os sanitários foram intensamente usados nas noites de shows, que reuniram grande público. “Nas últimas edições, sempre faltavam banheiros. Mostramos para a comissão que esse era um número bom e que ficava dentro das normas. Existe uma tabela internacional para isso. Mas, como aqui não somos de primeiro mundo, usamos essa tabela com 50% a menos. Nos Estados Unidos, se houvesse uma festa dessas, seriam 500 banheiros”, explica o gerente geral da Tecnisan, Cesar Augusto Viezzer.
    Caminhões especializados faziam a sucção dos dejetos dos sanitários, e no lugar deles eram despejados 20 litros de água com bactericida, para que a pequena cabine azul voltasse a cheirar bem. O processo era feito diariamente, e se a quantidade de água fosse multiplicada pelo número de vezes que isso foi feito somente para a Festa da Uva, o valor resultaria em 90 mil litros, o equivalente a 90 piscinas infantis do modelo mais comum.

    Mil e setecentas pessoas participaram como figurantes dos desfiles da Festa. É praticamente a mesma quantidade de alunos do Colégio São José, um dos maiores de Caxias. Uma das participantes foi a aposentada Inêz Maciel Dias, 57 anos. A saia que ela usou durante os desfiles, depois de lavada, está estendida numa espécie de varal em cima do fogão a lenha da sua cozinha. A peça, junto com as outras partes do traje branco, serão devolvidas à organização dos desfiles neste fim de semana, quando os amigos que Inês fez nos ensaios do corso também vão aproveitar para fazer um piquenique nos Pavilhões: “Fiz amizades duradouras”.
    Não só o desfile, mas toda esta Festa da Uva pode ser descrita com uma palavra: diversidade. Quem andou atento pelos Pavilhões teve a oportunidade de ver ágeis desenhistas fazendo caricaturas – inclusive em calcinhas –, nervosos hamsters se amontoando uns sobre os outros dentro de uma gaiola num estande de venda de animais, frágeis bonsais à procura de um lar, chopp de uva bem gelado, a visita da rainha do salame, pratos da comida árabe e uma moça vestida de índia que abraçava calorosamente a quem chegava, bradando: “Bem-vindo à Festa da Uva!”.
    Em um dos dias, os visitantes puderam ver que é possível transformar um pedaço de vidro em uma delicada escultura. O artista plástico Dejair Santos, usando lixa, cola e martelo, se apresentou à plateia, esculpindo um cacho de uva. O artista começou sua carreira inspirado num fato um tanto exótico. Muito ligado à espiritualidade, em uma das suas meditações Dejair teve uma visão: um crucifixo de vidro. “Depois disso, desenhei esse crucifixo num guardanapo e o esculpi. Foi aí que me tornei profissional”, explica.
    As esculturas, mesmo sendo pequenas como o cacho de uva feito nos Pavilhões, podem demorar até um dia para serem produzidas. Como isso não seria possível na Festa da Uva, Dejair levou-a semipronta, e, assim, demorou duas horas para terminá-la.

    Duas horas foi o mesmo tempo que a rainha Tatiane Frizzo conseguiu trabalhar num dos sábados da Festa. A rotina frenética da soberana teve que dar uma pausa quando ela adoeceu por ter apanhado frio num dos desfiles noturnos. “Comecei me tratando em casa, mas passei a tossir muito, tive dor de garganta e dor muscular”, relembra. Como o médico pediu que Tatiane repousasse, a rainha cumpriu compromissos com a imprensa das 14h às 16h daquele sábado e foi para casa.
    Normalmente, o dia a dia da rainha e das princesas era puxado. Religiosamente às 9h, Tatiane tinha que estar sentada na cadeira do salão de beleza para fazer cabelo e maquiagem. De lá, as soberanas iam para o Parque de Eventos e todos os dias almoçavam com os convidados do prefeito José Ivo Sartori (PMDB). Na Festa, ficavam o dia todo, cumprindo uma agenda extensa de eventos, e sempre sorrindo. Tatiane e as princesas só relaxavam nas horas dos shows. Entraram num consenso e escolheram alguns para acompanhar até o fim: Armandinho, Jota Quest e Roupa Nova.
    Tantos compromissos exigiam que Tatiane estivesse confortável. Foi pensando nisso que um dia ela apareceu nos Pavilhões usando sandálias rasteirinhas em vez dos tradicionais sapatos de salto. “Elas (as princesas Aline e Kátia) fizeram careta no início, mas depois acompanharam. O objetivo era que nós estivéssemos confortáveis, já que tínhamos que andar muito.” E as soberanas praticamente palmilharam os 400 mil metros quadrados do Parque de Eventos, área equivalente a 66 campos de futebol.

    Duas coisas que os caxienses não veem normalmente são comuns durante Festa da Uva: uma grande quantidade de gente carregando edredons e passeios de helicóptero sobrevoando os Pavilhões. E olha que esta edição nem foi boa para o piloto Venir Carlos da Silva, já que a aeronave teve problema no último final de semana e não pôde voar. “Era para ter colocado 2 mil pessoas no ar. Este ano, foram 483.” Foram 130 voos, com duração de cinco minutos. No total, o piloto passou 10 horas e 50 minutos no ar durante a Festa, quantidade insignificante perto de seus 45 anos de profissão.
    O sócio-proprietário dos Bordados Benevi, Rogério Menegotto, não tem motivos para reclamar desta edição. Foram 395 edredons vendidos em seu estande, e a loja, no total, vendeu R$ 129 mil na Festa da Uva. “Para ser período de calor, é bastante.”
    Se todos os estandes se saíram bem como o de Menegotto, não há motivos para não dizer que esta foi uma festa de números memoráveis. E mesmo os não memoráveis comprovam sua grandiosidade: ao todo, foram 100 toneladas de lixo orgânico e 43 toneladas de seletivo recolhidos nos Pavilhões, quantidade que encheria 34 caminhões.

    Foto: Tatiane reinou só duas horas num sábado | Crédito: maicon Damasceno/O Caxiense

    Da versão impressa

    Categoria: Geral, Impresso | Tags: Festa da Uva,Impresso

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