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    Corso Alegórico: Uma sutil transgressão

    por Marcelo Aramis | 10/03/2010 às 9:44

    Estranho e inovador este Corso Alegórico da Festa da Uva 2010. Os organizadores renovaram conceitos e deram um tombo no senso comum. O trabalho dos artistas foi uma revolução discreta. Mas o desfile logo quebrou o silêncio e os paradigmas. Quem queria ver colonos abrindo trilhas à foice ou as nonas fazendo pão, voltou para casa decepcionado, confuso e com uma pulga atrás da orelha. A ousadia cumpriu o seu papel. Quem esperava que, finalmente, a Festa da Uva cederia ao luxo e à extravagância das alegorias cariocas, frustrou-se novamente. A essência da festa foi mantida e derrubou a utopia do Carnaval da Uva.

    A maior inovação está nos figurinos e carros alegóricos. O corso é um espetáculo de sutilezas. Com vestidos de caudas torcidas e braceletes que lembram raízes, mulheres germinam as conquistas dos imigrantes. Carregam cestos de palha inacabados: um convite para continuar as tramas; asas surgem de troncos e fazem referência à gralha azul. A coreografia dos figurantes que seguem o carro faz tremular bandeiras que eles carregam nas costas. É o voo da gralha, que semeou pinhões e a base do desenvolvimento de Caxias; lambrequins, rendas entalhadas na madeira, migram para lapelas de paletós, na forma de prendedores de roupa; a uva, eixo simbólico da celebração, aparece em adereços móveis que montam um grande parreiral na Sinimbu.

    Um dos pontos altos do desfile é também o que mais choca a expectativa acomodada. O carro – uma bandeira do Brasil desconstruída – representa o desrespeito às origens, a ditadura militar e a guerra. Vestidos de preto, atores encenam a claustrofobia e a dor da repressão. O público faz cara feia. A festa não é para celebrar os bons momentos? É, mas não só.

    A pluralidade étnica de Caxias desfila com naturalidade. Do gaúcho, aproveitou-se a boa postura para conduzir a prenda. Sem bombachas e vestidos armados, casais de CTGs surpreendem na delicadeza poética das coreografias. Das bailarinas de flamenco e dança do ventre, restou a consciência corporal. Sem os trajes típicos, elas se vestiram de história. Negros, pardos e brancos desfilaram em todos os quadros, trajados de caxienses.
    Ainda é cedo para dizer se o corso de 2010 será um marco na Festa da Uva. No entanto, é impossível ignorá-lo como um desfile que se preocupou mais em formar do que atrair plateia.

    Foto: Maicon Damasceno/O Caxiense

    Da versão impressa

    Categoria: Geral | Tags: Festa da Uva

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    Comentários

    • Angela Guidini
      10 de March de 2010 às 16:24

      Adorei a leitura que o colunista fez do desfile. Não havia pensado dessa forma. Parabéns!

    • Luiz
      10 de March de 2010 às 18:19

      O MARCELO NOS MOSTRA A DIFERENÇA ENTRE olhar E VER.

    • Gabriel Leonardelli
      11 de March de 2010 às 14:05

      Participei do desfile, no quadro da repressão. Fico muito feliz com a análise feita, pois enfrentamos críticas por desfilarmos com “cara fechada” e expressões e movimentos de desespero e dor. Mas estamos contando uma história e ela foi assim. Parabéns pela matéria e parabéns para o jornal, que está excelente!

    • Rento Filippini
      11 de March de 2010 às 15:58

      Agradeço ao Marcelo pela leitura e comentário sobre o corso alegórico desta edição da Festa da Uva. Fui contra, taxativamente, uma frase que ouvi muito: ‘o povo não vai entender’. Que povo? Em primeiro lugar, não subestimem nossa gente. Se damos somente o óbvio, eles só compreenderão o óbvio; em segundo, lembro a todos que não se pode pensar que os ‘outros’ não vão entender o que nós não conseguimos compreender. Enfim, a arte é subversiva. O novo é transgressor. Não viram os colonos? Viram sim, mas queriam caricaturizá-los. Durante dois anos fazemos chacota do agricultor e, num dia, queremos aviltar as ‘raízes’. Hipocrisia.
      Outra coisa: alegria, ou diversão? Alegria é um estado de espírito. Consegue-se pela emoção. Este corso jamais teve a pretensão da grande mudança. Ele deve ser entendido como um facilitador para os próximos desfiles, onde poderemos nos livrar das tais raízes e festejar quem somos realmente.

    • Cibele Tedesco
      12 de March de 2010 às 08:27

      Sim, muito bom quando os ‘magos das palavras’ entendem o que a gente se propõe a fazer com a arte!
      Cibele

    • Micaela Rossetti
      12 de March de 2010 às 11:32

      Quem sabe assim, a população caxiense comece a ter olhos mais artísticos, sensíveis e que prezem a pluridade.
      Quem sabe assim, a cultura caxiense evolua e consigamos lotar as platéias da cidade, valorizando também o artista local.

      Parabéns aos envolvidos no Corso Alegórico pela coragem, e ao jornalista pela matéria!

    • Luiz Bocchese
      12 de March de 2010 às 13:28

      Desde o primeiro momento que me apresentaram o novo formato do desfile percebi depressinha que estavam “Tirando o Pó” da repetição de mais de 50 anos dos colonos dando tchauzinho. Ao mesmo tempo, tive a certeza de que haveria este “desassossego” entre as pessoas que reclamam e não assistem, as que assistem e reclamam e aquela as que assistem e esperam alguma novidade de fato.
      A novidade veio e os acostumados a reclamar sempre reclamaram porque não poderiam mais reclamar do que sempre reclamaram… Isso mesmo, reclamaram da novidade e da falta de conhecimento para saber se poderiam reclamar…
      E na boa: falar é muito fácil.
      Falar mal é mais fácil ainda.
      Não fazer nada é uma tranquilidade.
      Fazer é difícil.
      Para quem só reclama, fazer é impossível.
      Caxias teve uma grande novidade: é possível PENSAR, APRENDER e ENTENDER o mundo. Até mesmo num desfile sem colonos dando tchauzinho.
      Tenho um orgulho imenso de ter participado dessa empreitada.
      Tenho um grande orgulho também das pessoas que participaram (na criação, na organização, na implementação e também na figuração) deste projeto.
      2010 foi muito bom!!!
      2012 será muito melhor!!!!

    • Ana
      12 de March de 2010 às 14:05

      Me desculpem, mas apenas uma pequena, pequena minoria mesmo, pode entender um desfile tão apático, sem alegria em sua grande parte. Isso não representa de forma nenhuma a Caxias do Sul da Festa da Uva. Não trazerem os tradicionais distritos de Caxias para o corso, elaborarem um carro das rainhas pobre em criatividade, pessoas figurando a tristeza de uma época como num enredo de Carnaval, tudo muito desestimulante e longe do que a Festa merece. Isso é inovação? Não, isso é só pretensão de. Faltou capacidade de inovar de forma coerente, honrando a tradição e mostrando o folclore que o turista quer ver e não releituras de Carnaval com fantasias elaboradas. Carnaval é no Rio, a Festa da Uva é nossa. Pobres intelectualóides do interior que não vêem isso e querem copiar as grandes cidades. Falta de personalidade.

    • Anelise
      13 de March de 2010 às 09:26

      concordo com o que o jornalista escreveu. Acho que intelectuais gostaram; o povo detestou.

    • fabiana
      14 de March de 2010 às 22:28

      fantástico o texto. a última frase, que fala em “formar platéia” resume o que está faltando nas pessoas que só criticaram. parabéns!

    • Angela
      15 de March de 2010 às 17:00

      E a festa eh pro povo ou para os intelectuais?

    • Taisson Barbosa Dos Santos
      23 de April de 2010 às 16:47

      Assisti o desfile não como intelectual nem como povão,mas como cidadão Caxiense e achei de um extremo mau gosto a pobreza das alegorias.Parece que “alguns” querem nos enfiar goela abaixo uma mediocridade que nós Caxienses,que assistimos a muitos outros desfiles anteriores,jamais tínhamos visto.
      Fica uma dica para próxima edição do evento:Construir
      uma passarela para acabar com o “trânsito” de pedestres
      durante o corso.

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