AUDIOSLIDE: Um novo (e modesto) enredo para 2010

por Cíntia Hecher

Um novo (e modesto) enredo para 2010
Companheiro de outros carnavais, o dinheiro público, desta vez, não desfilará na Sinimbu |
Como numa compra de um artigo de necessidade – ou de desejo – parcelada em dezenas de vezes, o Carnaval de rua de Caxias do Sul será realizado com pagamento a prazo por alguns carnavalescos. Para garantir a festa, eles estão empenhando parte da própria renda mensal, o que não acontecia nos tempos de apoio financeiro da prefeitura. Por irregularidades nas prestações de contas de algumas escolas, que incluía gastos com bebidas, cigarros e churrascos, o município cortou toda verba de R$ 460 mil que era destinada à folia na Sinimbu.
O presidente da Liga Carnavalesca de Caxias do Sul, Cassiano Fontana, conhecido como Amarelinho, chama a atitude do Poder Executivo de irresponsável e aponta como culpado um convênio firmado para os anos de 2007 a 2009, repleto de dificuldades e furos legais. “Comprei R$ 10 mil em tecido para uma fantasia, peguei a nota fiscal e, na hora de prestar contas, a prefeitura não a aceita porque a loja que me vendeu tem alguma irregularidade com o CNPJ ou deve algum imposto. Como eu saberia disso? Esse detalhe não foi especificado no contrato do convênio”, reclama Amarelinho.
Um dos pontos desse contrato era o de deveres dos envolvidos, a Liga Carnavalesca e a prefeitura. Para ele, a administração não cumpriu com a sua parte, já que, após o repasse, deveria monitorar e qualificar a prestação de contas. Outra queixa do dirigente é que, antes, recibos autenticados em cartório eram válidos como prova de gasto, o que não acontece mais, mas isso não teria sido comunicado às escolas de samba. Para Amarelinho, “algumas pessoas do governo municipal atual querem liquidar o Carnaval em Caxias, e de forma rasteira”.
De acordo com o procurador-geral do município, Lauri Romário Silva, considerando-se a prestação de contas dos carnavais de 2008 e 2009, um repasse público é impossível. “As comprovações foram rejeitadas, principalmente por não mostrarem objetos que constam no convênio. As notas dos prestadores de serviço que não estão em dia com os impostos poderão ser aceitas, desde que as empresas quitem seus débitos com o poder público”, afirma Lauri. Para ele, o problema maior foi a constatação de elementos não condizentes com o acordado. Mas a ideia não é pôr fim ao Carnaval. “A prefeitura continua oferecendo infraestrutura básica e não há nada contra a folia, que é evento importante do calendário cultural caxiense”, explica o procurador.
Das atuais 17 escolas da cidade, apenas 10 estão confirmadas no desfile fora de época, que será realizado nos dias 12, 13 e 14 de março, sendo que as escolas do grupo principal desfilam nos dois primeiros dias e o último fica com os blocos carnavalescos e os grupos de acesso. Amarelinho conta que ainda procura-se patrocínio, “um pedido de socorro” de aproximadamente R$ 100 mil, para ajudar com as fantasias, mas garante que “acima de qualquer repasse ou recurso, o Carnaval vai acontecer.” E ameaça as agremiações: “quem não participar do desfile de 2010 será devidamente punido”.
A decisão da prefeitura foi anunciada em novembro, a poucos meses do desfile, ameaçando a própria existência do Carnaval de rua em Caxias. Uma das maneiras de salvá-lo – ou mantê-lo – é a criação de uma liga independente de carnavalescos, responsável por conseguir outros meios de financiamento além da verba municipal. “O pessoal de algumas escolas está mal acostumado, sempre esperando o repasse público. Espero que eles comecem a envolver a comunidade novamente na construção da escola e do desfile”, diz Amarelinho. Porém, para conseguir valores mais polpudos, possibilidades como a inscrição de projetos na Lei de Incentivo à Cultura (LIC) estão sendo estudados, assim como pedidos de apoio a políticos daqui com atuação na esfera federal.
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“Algumas pessoas do governo querem liquidar o Carnaval em Caxias, e de forma rasteira”, acusa Amarelinho
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O desfile de 2010 será o primeiro realizado sem um centavo de dinheiro público. Anualmente, o repasse da prefeitura era de R$ 460 mil, distribuído entre as escolas filiadas à Liga Carnavalesca. Durante os 40 anos de desfiles, somente em três vezes deixaram de ocorrer. A partir de 1998, os participantes do Carnaval passaram a receber uma fatia mais gorda do orçamento municipal. Até o ano passado, cada escola ganhava em torno de R$ 28 mil. Por isso é tão difícil partir do zero desta vez.
Quem parece não levar em consideração tamanha dificuldade é a aposentada Rosaura Moreira Pinto, presidente da escola Nação Verde e Branco. Com um sorriso no rosto, ela responde cheia de convicção que sim, o Carnaval de Caxias existirá em 2010. “Não quero deixar o Carnaval morrer”, diz a aposentada. Na sua pequena casa de dois cômodos, ainda enfeitada com motivos natalinos, ela mantém os CDs com os sambas-enredo gravados em agosto e setembro e que agora, depois da definição da prefeitura, terá as despesas de estúdio (cerca de R$ 1,8 mil) pagas do próprio bolso. Uma parte do dinheiro é adquirida por conta do aluguel dos    outdoors na frente do barracão da escola. O resto é retirado da aposentadoria de Rosaura e do salário do marido, funcionário público. O 13º de ambos também foi empregado na quitação de dívidas carnavalescas. “Tudo para minha escola não ficar suja”, justifica Rosaura.
Contudo, nada assusta a presidente. Ela concorda que a prestação de contas, apresentada em abril, é algo necessário, mas aponta que houve injustiças. “Algumas escolas estão aí pelo dinheiro mesmo, mas as que estão nessa pelo amor ao Carnaval foram colocadas no mesmo balaio”, diz a aposentada. Ela pensa que deveria ser levado em consideração quem está quitando suas dívidas.
Os valores do que não foi reconhecido na última prestação de contas estão sendo pagos por ela aos cofres públicos, cifra por cifra, em 60 parcelas de R$ 361. “Duas empresas das quais contratamos serviço deviam impostos e, por isso, as notas fiscais não foram aceitas. Nenhum recibo foi aceito também, embora todos estivessem reconhecidos em cartório, conforme nos ensinaram”, conta.
O jeito, então, é ela se virar como pode. Com a reforma de fantasias utilizadas no ano passado e uma parceria com a escola Realeza, de Porto Alegre, dona Rosaura vai construindo mais um desfile. Os corações de 2009 darão lugar a ilustrações de comida, pois o novo tema da escola é Sou gordo mas sou feliz, uma sátira proposta pelo compositor e puxador Roberto Costa. As penas das mangas de um destaque vão para as pernas de outra fantasia. E assim por diante.
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“A prefeitura continua oferecendo infraestrutura básica e não há nada contra a folia”, diz procurador
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O barracão da Nação Verde e Branco está repleto de instrumentos musicais e fantasias em confecção. No lado de fora, o chão de cascalho onde são realizados os ensaios é ladeado por uma estrutura coberta, onde mesas são colocadas à disposição de foliões que, logo mais, trabalharão na construção do desfile. Por esses dias, quem fica lá é Rosaura, organizando o que será ou não reaproveitado, além de sua filha e neta, também envolvidas, cada uma à sua forma, nas comemorações carnavalescas. A filha é porta-bandeira da escola, “sempre nota 10”, ressalta Rosaura. E a pequena já mostra que fará parte da descendência do samba. “Quando tem ensaio a gente coloca fantasia de baianinha nela e tem que ver como rebola!”, espanta-se a avó coruja.
A parceira da capital colaborará este ano com fantasias e harmonia. Dona Rosaura se encarregará do transporte: quatro ônibus, que trarão quatro alas prontas, destaques e os músicos. Estes últimos, “quando souberam da situação, logo se ofereceram para participar de graça. Isso foi mais um incentivo”, diz ela. E assim a alegria do Carnaval continua a iluminar o rosto da senhora.
Rosaura lembra que o custo da festa não é baixo. Vestir, calçar, enfeitar com adereços, cabelo, maquiagem, ônibus da torcida, costureira, toda a estrutura, enfim, é por conta da escola de samba. “Todo mundo quer sair na escola mas ninguém coloca R$ 0,10”, reclama Rosaura. Porém, nada a desanima: “Eu amo o Carnaval. Não desfilo mais porque a saúde não ajuda muito, mas trabalho feito louca fazendo fantasias”, diz a aposentada. “Chego no início da tarde e saio às 22h, 23h, às vezes até meia-noite.” Mais perto da data dos desfiles, cerca de 15 mulheres se reúnem no barracão para as finalizações das fantasias e não têm hora para sair.
Além dos foliões vindos de outras cidades, como Porto Alegre e Viamão, cerca de 220 caxienses participam do desfile da escola Nação Verde e Branco, e não somente do bairro Cinquentenário II, coração da escola. “Comecei com as pessoas daqui e perdi metade pra igreja, mas cada um sabe de si”, conta dona Rosaura. Para ela, as escolas corajosas não se importam com a vinda ou não do repasse da prefeitura. “O bom carnavalesco não precisa de dinheiro, é só ser criativo e trabalhador.”
Um não-folião provavelmente tenha dificuldade para compreender tamanha dedicação a uma festa que dura poucos dias uma vez por ano. Mas o Carnaval envolve muito mais do que um samba-enredo e a tradicional ala das baianas.
“O que você tem no desfile de uma escola de samba é um momento de inversão social no plano simbólico. Naquele momento, as pessoas, que normalmente são de origem simples, são as mais importantes, elas são os atores principais. Adquire uma importância simbólica pra elas estar participando desse espetáculo”, explica o antropólogo Rafael José dos Santos.
Para Rafael, há um investimento emocional nas escolas de samba que vai além do desejo dos carnavalesco de fazer o melhor desfile.
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“O bom carnavalesco não precisa de dinheiro, é só ser criativo e trabalhador”, define Rosaura
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Investindo emocionalmente, mas sem deixar a competitividade de lado, a presidente da Reino do Sol e da Lua, Luzia Ester Santos Oss, tem certeza de um bom Carnaval em 2010. A escola já está com os preparativos a pleno vapor, reformando fantasias e procurando patrocínio de empresas e amigos. Todos os detalhes, desde os apoiadores financeiros até o samba-enredo e o tema do desfile, são o mais absoluto segredo.
“Estamos fazendo o possível, por amor à camiseta, para sair um trabalho bonito”, diz Luzia. A falta do repasse tornou a situação da escola difícil, admite. Mesmo assim, se mantém confiante: “Vamos agradar a população.”
Na rua de cima de onde mora Rosaura, a vendedora Mara Cleunice Machado, presidente da escola Unidos do Centenário, não está tão otimista. Sua escola não vai para a avenida este ano. “E se não tiver repasse novamente, nem em 2011. Sem verba não tem desfile”, diz ela. Também endividada com a prefeitura e pagando (“pouco a pouco, mas estou”, completa) o valor de R$ 5 mil, referente à despesa da contratação de ônibus para a torcida que não foi aceita na prestação de contas, ela diz que não tem condições de realizar um desfile.
A escola de Mara tem quase 30 anos de existência e nunca teve quadra para os ensaios, que frequentemente eram realizados no limitado espaço do pátio da casa dela, que também abriga diversos troféus. Vivendo em meio a tantas lembranças e referências carnavalescas, a presidente se entristece com a desistência da festa em 2010. “É um lazer e um prazer participar do Carnaval”, diz Mara, indignada com a situação que levou ao corte indistinto das verbas públicas, tanto para as escolas que nem prestaram contas quanto para as que mesmo se sentindo injustiçadas estão quitando suas dívidas.  “A gente já tira dinheiro do bolso por causa do pingo que é repassado e ainda nos chamam de ladrão”, desabafa.
Mesmo com todas as dificuldades financeiras, e mesmo fora de época, o Carnaval de Caxias do Sul será realizado. Segundo Amarelinho, os dois últimos eventos, também em datas diferentes daquelas do calendário tradicional, contaram com maior participação popular, tanto desfilando quanto assistindo à folia. Para entrar no ritmo, as escolas já se aprontam para a escolha da Rainha do Carnaval, que será no dia 30 de janeiro, no ginásio do Serviço Social do Comércio (Sesc). As inscrições serão recebidas até o dia 23, e podem participar não só candidatas das escolas de samba, mas também representantes de clubes, times de futebol e associações de bairro.
Caxias do Sul – uma cidade de imigração italiana – tem, sim, uma festa que é tipicamente brasileira e que é diferente em cada canto do país.  Diferente, mas com algo em comum: “Em todos os lugares o Carnaval é marcado por uma situação liminar. É um momento de quebra de cotidiano, em que as pessoas podem vestir suas fantasias, literais e simbólicas”, explica Rafael José dos Santos. “No Carnaval, uma gari pode se transformar numa princesa.”
(da versão impressa)
Foto: Rosaura, presidente da Nação Verde e Branco: “Todo mundo quer sair na escola, mas ninguém coloca R$ 0,10” | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense

Companheiro de outros carnavais, o dinheiro público, desta vez, não desfilará na Sinimbu |

Como numa compra de um artigo de necessidade – ou de desejo – parcelada em dezenas de vezes, o Carnaval de rua de Caxias do Sul será realizado com pagamento a prazo por alguns carnavalescos. Para garantir a festa, eles estão empenhando parte da própria renda mensal, o que não acontecia nos tempos de apoio financeiro da prefeitura. Por irregularidades nas prestações de contas de algumas escolas, que incluía gastos com bebidas, cigarros e churrascos, o município cortou toda verba de R$ 460 mil que era destinada à folia na Sinimbu.

O presidente da Liga Carnavalesca de Caxias do Sul, Cassiano Fontana, conhecido como Amarelinho, chama a atitude do Poder Executivo de irresponsável e aponta como culpado um convênio firmado para os anos de 2007 a 2009, repleto de dificuldades e furos legais. “Comprei R$ 10 mil em tecido para uma fantasia, peguei a nota fiscal e, na hora de prestar contas, a prefeitura não a aceita porque a loja que me vendeu tem alguma irregularidade com o CNPJ ou deve algum imposto. Como eu saberia disso? Esse detalhe não foi especificado no contrato do convênio”, reclama Amarelinho.

Um dos pontos desse contrato era o de deveres dos envolvidos, a Liga Carnavalesca e a prefeitura. Para ele, a administração não cumpriu com a sua parte, já que, após o repasse, deveria monitorar e qualificar a prestação de contas. Outra queixa do dirigente é que, antes, recibos autenticados em cartório eram válidos como prova de gasto, o que não acontece mais, mas isso não teria sido comunicado às escolas de samba. Para Amarelinho, “algumas pessoas do governo municipal atual querem liquidar o Carnaval em Caxias, e de forma rasteira”.

De acordo com o procurador-geral do município, Lauri Romário Silva, considerando-se a prestação de contas dos carnavais de 2008 e 2009, um repasse público é impossível. “As comprovações foram rejeitadas, principalmente por não mostrarem objetos que constam no convênio. As notas dos prestadores de serviço que não estão em dia com os impostos poderão ser aceitas, desde que as empresas quitem seus débitos com o poder público”, afirma Lauri. Para ele, o problema maior foi a constatação de elementos não condizentes com o acordado. Mas a ideia não é pôr fim ao Carnaval. “A prefeitura continua oferecendo infraestrutura básica e não há nada contra a folia, que é evento importante do calendário cultural caxiense”, explica o procurador.

Das atuais 17 escolas da cidade, apenas 10 estão confirmadas no desfile fora de época, que será realizado nos dias 12, 13 e 14 de março, sendo que as escolas do grupo principal desfilam nos dois primeiros dias e o último fica com os blocos carnavalescos e os grupos de acesso. Amarelinho conta que ainda procura-se patrocínio, “um pedido de socorro” de aproximadamente R$ 100 mil, para ajudar com as fantasias, mas garante que “acima de qualquer repasse ou recurso, o Carnaval vai acontecer.” E ameaça as agremiações: “quem não participar do desfile de 2010 será devidamente punido”.

A decisão da prefeitura foi anunciada em novembro, a poucos meses do desfile, ameaçando a própria existência do Carnaval de rua em Caxias. Uma das maneiras de salvá-lo – ou mantê-lo – é a criação de uma liga independente de carnavalescos, responsável por conseguir outros meios de financiamento além da verba municipal. “O pessoal de algumas escolas está mal acostumado, sempre esperando o repasse público. Espero que eles comecem a envolver a comunidade novamente na construção da escola e do desfile”, diz Amarelinho. Porém, para conseguir valores mais polpudos, possibilidades como a inscrição de projetos na Lei de Incentivo à Cultura (LIC) estão sendo estudados, assim como pedidos de apoio a políticos daqui com atuação na esfera federal.

“Algumas pessoas do governo querem liquidar o Carnaval em Caxias, e de forma rasteira”, acusa Amarelinho

O desfile de 2010 será o primeiro realizado sem um centavo de dinheiro público. Anualmente, o repasse da prefeitura era de R$ 460 mil, distribuído entre as escolas filiadas à Liga Carnavalesca. Durante os 40 anos de desfiles, somente em três vezes deixaram de ocorrer. A partir de 1998, os participantes do Carnaval passaram a receber uma fatia mais gorda do orçamento municipal. Até o ano passado, cada escola ganhava em torno de R$ 28 mil. Por isso é tão difícil partir do zero desta vez.

Quem parece não levar em consideração tamanha dificuldade é a aposentada Rosaura Moreira Pinto, presidente da escola Nação Verde e Branco. Com um sorriso no rosto, ela responde cheia de convicção que sim, o Carnaval de Caxias existirá em 2010. “Não quero deixar o Carnaval morrer”, diz a aposentada. Na sua pequena casa de dois cômodos, ainda enfeitada com motivos natalinos, ela mantém os CDs com os sambas-enredo gravados em agosto e setembro e que agora, depois da definição da prefeitura, terá as despesas de estúdio (cerca de R$ 1,8 mil) pagas do próprio bolso. Uma parte do dinheiro é adquirida por conta do aluguel dos    outdoors na frente do barracão da escola. O resto é retirado da aposentadoria de Rosaura e do salário do marido, funcionário público. O 13º de ambos também foi empregado na quitação de dívidas carnavalescas. “Tudo para minha escola não ficar suja”, justifica Rosaura.

Contudo, nada assusta a presidente. Ela concorda que a prestação de contas, apresentada em abril, é algo necessário, mas aponta que houve injustiças. “Algumas escolas estão aí pelo dinheiro mesmo, mas as que estão nessa pelo amor ao Carnaval foram colocadas no mesmo balaio”, diz a aposentada. Ela pensa que deveria ser levado em consideração quem está quitando suas dívidas.

Os valores do que não foi reconhecido na última prestação de contas estão sendo pagos por ela aos cofres públicos, cifra por cifra, em 60 parcelas de R$ 361. “Duas empresas das quais contratamos serviço deviam impostos e, por isso, as notas fiscais não foram aceitas. Nenhum recibo foi aceito também, embora todos estivessem reconhecidos em cartório, conforme nos ensinaram”, conta.

O jeito, então, é ela se virar como pode. Com a reforma de fantasias utilizadas no ano passado e uma parceria com a escola Realeza, de Porto Alegre, dona Rosaura vai construindo mais um desfile. Os corações de 2009 darão lugar a ilustrações de comida, pois o novo tema da escola é Sou gordo mas sou feliz, uma sátira proposta pelo compositor e puxador Roberto Costa. As penas das mangas de um destaque vão para as pernas de outra fantasia. E assim por diante.

“A prefeitura continua oferecendo infraestrutura básica e não há nada contra a folia”, diz procurador

O barracão da Nação Verde e Branco está repleto de instrumentos musicais e fantasias em confecção. No lado de fora, o chão de cascalho onde são realizados os ensaios é ladeado por uma estrutura coberta, onde mesas são colocadas à disposição de foliões que, logo mais, trabalharão na construção do desfile. Por esses dias, quem fica lá é Rosaura, organizando o que será ou não reaproveitado, além de sua filha e neta, também envolvidas, cada uma à sua forma, nas comemorações carnavalescas. A filha é porta-bandeira da escola, “sempre nota 10”, ressalta Rosaura. E a pequena já mostra que fará parte da descendência do samba. “Quando tem ensaio a gente coloca fantasia de baianinha nela e tem que ver como rebola!”, espanta-se a avó coruja.

A parceira da capital colaborará este ano com fantasias e harmonia. Dona Rosaura se encarregará do transporte: quatro ônibus, que trarão quatro alas prontas, destaques e os músicos. Estes últimos, “quando souberam da situação, logo se ofereceram para participar de graça. Isso foi mais um incentivo”, diz ela. E assim a alegria do Carnaval continua a iluminar o rosto da senhora.

Rosaura lembra que o custo da festa não é baixo. Vestir, calçar, enfeitar com adereços, cabelo, maquiagem, ônibus da torcida, costureira, toda a estrutura, enfim, é por conta da escola de samba. “Todo mundo quer sair na escola mas ninguém coloca R$ 0,10”, reclama Rosaura. Porém, nada a desanima: “Eu amo o Carnaval. Não desfilo mais porque a saúde não ajuda muito, mas trabalho feito louca fazendo fantasias”, diz a aposentada. “Chego no início da tarde e saio às 22h, 23h, às vezes até meia-noite.” Mais perto da data dos desfiles, cerca de 15 mulheres se reúnem no barracão para as finalizações das fantasias e não têm hora para sair.

Além dos foliões vindos de outras cidades, como Porto Alegre e Viamão, cerca de 220 caxienses participam do desfile da escola Nação Verde e Branco, e não somente do bairro Cinquentenário II, coração da escola. “Comecei com as pessoas daqui e perdi metade pra igreja, mas cada um sabe de si”, conta dona Rosaura. Para ela, as escolas corajosas não se importam com a vinda ou não do repasse da prefeitura. “O bom carnavalesco não precisa de dinheiro, é só ser criativo e trabalhador.”

Um não-folião provavelmente tenha dificuldade para compreender tamanha dedicação a uma festa que dura poucos dias uma vez por ano. Mas o Carnaval envolve muito mais do que um samba-enredo e a tradicional ala das baianas.

“O que você tem no desfile de uma escola de samba é um momento de inversão social no plano simbólico. Naquele momento, as pessoas, que normalmente são de origem simples, são as mais importantes, elas são os atores principais. Adquire uma importância simbólica pra elas estar participando desse espetáculo”, explica o antropólogo Rafael José dos Santos.

Para Rafael, há um investimento emocional nas escolas de samba que vai além do desejo dos carnavalesco de fazer o melhor desfile.

“O bom carnavalesco não precisa de dinheiro, é só ser criativo e trabalhador”, define Rosaura

Investindo emocionalmente, mas sem deixar a competitividade de lado, a presidente da Reino do Sol e da Lua, Luzia Ester Santos Oss, tem certeza de um bom Carnaval em 2010. A escola já está com os preparativos a pleno vapor, reformando fantasias e procurando patrocínio de empresas e amigos. Todos os detalhes, desde os apoiadores financeiros até o samba-enredo e o tema do desfile, são o mais absoluto segredo.

“Estamos fazendo o possível, por amor à camiseta, para sair um trabalho bonito”, diz Luzia. A falta do repasse tornou a situação da escola difícil, admite. Mesmo assim, se mantém confiante: “Vamos agradar a população.”

Na rua de cima de onde mora Rosaura, a vendedora Mara Cleunice Machado, presidente da escola Unidos do Centenário, não está tão otimista. Sua escola não vai para a avenida este ano. “E se não tiver repasse novamente, nem em 2011. Sem verba não tem desfile”, diz ela. Também endividada com a prefeitura e pagando (“pouco a pouco, mas estou”, completa) o valor de R$ 5 mil, referente à despesa da contratação de ônibus para a torcida que não foi aceita na prestação de contas, ela diz que não tem condições de realizar um desfile.

A escola de Mara tem quase 30 anos de existência e nunca teve quadra para os ensaios, que frequentemente eram realizados no limitado espaço do pátio da casa dela, que também abriga diversos troféus. Vivendo em meio a tantas lembranças e referências carnavalescas, a presidente se entristece com a desistência da festa em 2010. “É um lazer e um prazer participar do Carnaval”, diz Mara, indignada com a situação que levou ao corte indistinto das verbas públicas, tanto para as escolas que nem prestaram contas quanto para as que mesmo se sentindo injustiçadas estão quitando suas dívidas.  “A gente já tira dinheiro do bolso por causa do pingo que é repassado e ainda nos chamam de ladrão”, desabafa.

Mesmo com todas as dificuldades financeiras, e mesmo fora de época, o Carnaval de Caxias do Sul será realizado. Segundo Amarelinho, os dois últimos eventos, também em datas diferentes daquelas do calendário tradicional, contaram com maior participação popular, tanto desfilando quanto assistindo à folia. Para entrar no ritmo, as escolas já se aprontam para a escolha da Rainha do Carnaval, que será no dia 30 de janeiro, no ginásio do Serviço Social do Comércio (Sesc). As inscrições serão recebidas até o dia 23, e podem participar não só candidatas das escolas de samba, mas também representantes de clubes, times de futebol e associações de bairro.

Caxias do Sul – uma cidade de imigração italiana – tem, sim, uma festa que é tipicamente brasileira e que é diferente em cada canto do país.  Diferente, mas com algo em comum: “Em todos os lugares o Carnaval é marcado por uma situação liminar. É um momento de quebra de cotidiano, em que as pessoas podem vestir suas fantasias, literais e simbólicas”, explica Rafael José dos Santos. “No Carnaval, uma gari pode se transformar numa princesa.”

(da versão impressa)

Foto: Rosaura, presidente da Nação Verde e Branco: “Todo mundo quer sair na escola, mas ninguém coloca R$ 0,10” | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense

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    6 Comentários

  • VeraLux says:

    Existem leis bem claras quanto ao uso do dinheiro público, e esta bem especificado que para fazer compras com dinheiro público deve sim ter um cadastro dos fornecedores, e um dos itens observados é a idoneidade do fornecedor. O dinheiro era para ser usado para fazer a festa do carnaval, e não para fazer uma festa com o dinheiro público

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