Novo aeroporto à procura de um pouso
por O Caxiense | 30/01/2010 às 16:55
As lideranças caxienses dão Vila Oliva como local definido, as de cidades vizinhas reclamam e o governo diz que a decisão não está tomada
Em uma estrada bucólica entre Fazenda Souza e a sede de Vila Oliva, distritos de Caxias do Sul, há uma encruzilhada. O lugar é conhecido por Tabela, pois abrigava antigamente uma balança para pesar o gado das grandes criações que havia por aqueles campos. Placas castigadas pelo tempo sinalizam as localidades próximas, mas falham em apontar, à esquerda, o provável local do futuro Aeroporto Internacional de Caxias do Sul. Hoje, à direita, o campo é coberto por modestas plantações de tomate, pimentão, cenoura, brócolis e beterraba. Um pomar com incontáveis macieiras carregadas de seus frutos vermelhos fica do outro lado da estrada.
Lá, em duas simples casas de madeira com ar de improviso, moram duas famílias que trabalham na roça. Um dos terrenos, de propriedade de um caxiense, é arrendado para o agricultor Ronaldo Mazzochi, que emprega nas lavouras de hortifrutigranjeiros as famílias, uma delas capitaneada por Nilva Pereira. Estendendo a roupa, ela explica que logo mais terá que deixar suas duas filhas cuidando da casa para ajudar na plantação, onde o marido e o filho mais velho já trabalham desde cedo. Os Pereira estão lá há aproximadamente um mês, e não faziam ideia de que sua morada poderá ser convertida em aeroporto. “Quando as obras começarem, não teremos para onde ir. Espero que tenhamos tempo de conseguir um cantinho até lá”, conforma-se Nilva.
A mesma conformidade é mostrada por Ronaldo Mazzochi, que não possui terras próprias. Para ele, em sua tranquilidade do interior, o que se pode fazer é simplesmente partir para outra. “Estou há dez anos aqui, já investi em açude, luz trifásica, mas fazer o quê? Se é para melhorar…”, resigna-se Mazzochi. Indagado se considera uma melhoria o desembarque de um empreendimento de tal porte nas terras que hoje ocupa, o agricultor ergue os ombros e sorri: “é o que dizem”. A dúvida consiste em qual será o impacto da instalação do novo aeroporto. “Agora é um sossego, mas com o aeroporto vem tudo”, diz, afirmando que logo mais a cidade chegará ao campo. “Cada vez que vou para Caxias, uma vez por semana ou a cada 15 dias, dá para reparar como ela cresce sempre mais”, espanta-se.
Enquanto isso, as medidas são precavidas. Mazzochi concentra-se nas suas plantações, em pagar o aluguel das terras um ano adiantado, e não pensa em fazer qualquer grande investimento no local. “Vamos levando devagarinho”, diz ele. Devagar, também, encaminha-se para Vila Oliva a definição do lugar do novo aeroporto, desequilibrando a disputa com uma área em Monte Bérico, em Farroupilha (colada a Mato Person, Flores da Cunha).
Quem ainda tem esperança de investimento na área farroupilhense é a Associação das Entidades Representativas da Classe Empresarial Gaúcha (CICS-Serra), presidida pelo bento-gonçalvense Ademar Petry. Formada por entidades empresariais de Antônio Prado, Bento Gonçalves, Carlos Barbosa, Farroupilha, Garibaldi, Guaporé, Nova Prata, Serafina Corrêa e Veranópolis, a CICS-Serra defende o local como ideal por conta da proximidade com diversas cidades da Serra e da Região das Hortênsias. Mas Petry reconhece que há uma ligeira vantagem pendendo para Vila Oliva.
O presidente afirma que, desde 2004, três relatórios foram realizados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para avaliar áreas viáveis à instalação do aeroporto, medindo suas condições. A função da Anac é auxiliar o governo do Estado na tomada da decisão. Até um terreno de Desvio Blauth, em Farroupilha, foi considerado uma opção, logo descartada em prol de Vila Oliva e Monte Bérico. Um novo relatório foi apresentado ao governo estadual e à governadora Yeda Crusius no ano passado, contendo um ofício da Anac onde constava uma análise comparativa entre as duas áreas.
De acordo com essa comparação, ambos os locais estariam aptos a receberem o aeroporto, cada qual com suas vantagens e potencial. Monte Bérico apresenta melhor logística e acessibilidade viária, enquanto Vila Oliva mostra ausência de obstáculos geográficos, com menor necessidade de remoção de terra e adaptação. Os dois sítios seriam adequados, tanto em extensão de pista quanto na instalação de heliporto e todas as necessidades de um aeroporto internacional.
“A governadora virá palestrar em uma reunião-almoço da CIC e fará o anúncio da escolha do aeroporto”, afirma Corlatti
Somente uma condição não foi analisada, e, para Petry, é uma questão de fundamental importância. “A questão socioeconômica não foi avaliada, e há a necessidade desse estudo. Tentamos marcar audiência com a governadora para apresentar o assunto, de todos os meios possíveis, mas até agora não obtivemos sucesso”, conta o presidente da CICS-RS. Ele torce para que a entidade que representa seja ouvida, “para que a decisão tomada não seja política”.
Petry continua: “não descartamos Vila Oliva, mas queremos que sejam levadas em consideração questões técnicas e também culturais, econômicas e sociais”. Uma das ações em favor das ações em favor de Monte Bérico é o cuidado com a proteção do entorno da área contra invasões, ou seja, para que com o decorrer do tempo a cidade não avance em direção ao aeroporto. Isso entraria no Plano Diretor de Farroupilha. “E se em Vila Oliva não forem tomadas, da mesma forma, ações de proteção da área, em cinco, 10 anos, ficará igual ao aeroporto já existente em Caxias”, afirma Petry.
Sobre a crescente expectativa caxiense de que a governadora confirme a área de Vila Oliva, Petry reage com certa decepção. “Não sabemos de nada, de nenhuma decisão tomada. Acreditamos que a governadora tem respeito pela região e seria deselegante da parte dela uma decisão desse porte ser tomada, sabendo de toda demanda da população empresarial daqui”, diz o presidente.
É o que pode acontecer, a CICS-Serra sabendo ou não. Pelo menos é o que diz o presidente da Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul (CIC) Milton Corlatti. “A governadora Yeda Crusius virá palestrar em uma reunião-almoço da CIC e fará o anúncio da escolha do aeroporto”, afirma Corlatti. A data não está oficializada, mas tudo aponta para o dia 1° de março. Para Corlatti, o melhor local para o novo aeroporto é, sem dúvida, Vila Oliva. Segundo ele, os estudos realizados pela Anac apontam o favoritismo do distrito caxiense, com um terreno reservado de mais de 400 hectares para a obra. “Somos a favor da área com maior capacidade técnica, que a Serra precisa”, justifica.
O projeto não é algo imediato, mas sim a longo prazo. Corlatti comenta que a ideia é evitar um grande aglomerado urbano, comparado ao Aeroporto Internacional de Congonhas, em São Paulo, palco de tragédias aéreas traumatizantes. “Temos que pensar adiante, para daqui a 20, 30 anos”, diz. Para o presidente da CIC de Caxias, não há imposição política, só um desejo de que os estudos apontem a melhor área.
Melhor explicação sobre os tais estudos da Anac é oferecida por Fernando Coronel, autoridade do governo estadual que coordena o Departamento Aeroportuário (DAP), órgão ligado à Secretaria de Infraestrutura e Logística. De acordo com ele, a Anac não decide nem recomenda nenhum dos sítios, só entrega um relatório com diversos itens e a pontuação que cada local conquistou.
Coronel afirma que desde dezembro está sendo realizado um estudo georeferencial dos terrenos de Monte Bérico e Vila Oliva, de alta precisão, que consiste em fotografias tiradas por satélite e posterior interpretação dos dados e imagens obtidos. Esse processo dura em torno de 90 dias, e a decisão, segundo ele, será tomada depois disso. A resposta virá “até o final de fevereiro ou início de março”, garante o coordenador.
Coronel insiste em afirmar que o estudo não está concluído e que a expectativa de anúncio em 1° de março é fantasiosa. “Estamos trabalhando para que o mais rápido possível o estudo esteja terminado, mas ainda não há data definida”, diz ele.
O coordenador explica que depois da entrega do relatório há uma análise da DAP e então os responsáveis pelos sítios e as comunidades envolvidas são chamados para uma conversa. Um consenso deve ser atingido e, se não ocorrer desta forma, a governadora é quem decide, embasada nos estudos técnicos porque, “de uma vez por todas, a decisão deve ser tomada do ponto de vista técnico, e não político”, assegura Coronel. “Há muito trabalho a ser feito”, completa.
Depois de determinado o local, parte-se então para a prática. O começo de tudo é com um projeto adequado, que será realizado por uma empresa escolhida por meio de processo licitatório. Isso em mãos, o próximo passo é angariar recursos, que provavelmente virão da União, do governo do Estado e da prefeitura envolvida. No meio disso tudo, deve ser realizado um levantamento sobre impacto ambiental na região.
A sugestão de uma ampliação do aeroporto já existente em Caxias provoca risos no coordenador. Para ele, isso é impossibilitado pela pequena possibilidade de extensão da pista, por causa das habitações ao redor. “Aquele sítio é conurbado, ou seja, tem muitas casas e comunidade em volta, antenas que prejudicam a visibilidade dos pilotos, obstáculos como prédios”, lista Coronel.
Para suprir algumas carências, o Aeroporto Regional Hugo Cantergiani está em reforma. Localizado no bairro Salgado Filho, em frente ao CTG Negrinho do Pastoreio, ele sofrerá modificações significativas para maior comodidade dos usuários. Em sua sala, logo à direita de um corredor estreito, o diretor José Henrique Elustondo se encontra cercado de fotos de aviões decorando as paredes, que disputam espaço com um mapa da cidade, certificados e um mural com textos de apoio aos funcionários, com 10 regras de qualidade. Na mesa, enquanto termina de mandar um e-mail, ato com o qual ainda não está familiarizado, seu notebook disputa espaço com aparelhos telefônicos, papelada, óculos, celular e walkie-talkie.
“Enquanto o internacional não vem, arruma-se o regional: Aeroporto Hugo Cantergiani estáem obras de ampliação e reforma”
Logo ele se inflama para dizer que toda a demanda do aeroporto é atendida por 13 funcionários, que estão à disposição da população caxiense 365 dias por ano. “Trabalha essa gurizada!”, brinca Elustondo. Atualmente, a demanda é relativamente pequena e somente uma empresa aérea opera lá, a Gol, com três voos: dois para São Paulo e um para Curitiba. “Mas comporta mais voos”, afirma o diretor. Uma conversação com a operadora Azul, em franca expansão no mercado nacional, está sendo intermediada pela CIC.
Elustondo então se põe a explicar que a área reformada será de 1.819 m², sendo 400 metros da pista. As obras contemplarão uma cobertura na entrada do terminal, ampliação da área de desembarque e climatização. O setor de embarque será transferido para um novo prédio, a ser construido à direita do aeroporto, onde ficarão as empresas aéreas e a sala de espera. Totalizando R$ 2,319 milhões, o investimento vem do governo do Estado, por meio do DAP, pois o aeroporto é uma concessão estadual. A prefeitura de Caxias do Sul colabora, por meio de acordo, com serviços como administração de pessoal, segurança patrimonial e limpeza.
O diretor afirma que a discussão sobre a capacidade ou não do aeroporto regional tornar-se “internacional sob demanda” começou com a possibilidade de Caxias abrigar a comitiva de algum time de futebol durante a pré-temporada da Copa do Mundo de 2014. “Imagine a felicidade de hospedar a seleção da Argentina ou do Uruguai na nossa cidade”, sorri Elustondo. De acordo com ele, o que caracteriza um aeroporto como internacional sob demanda é a presença de três órgãos governamentais no momento de embarque e desembarque: Polícia Federal, Vigilância Sanitária e Receita Federal. “É só disponibilizar três salas, uma para cada funcionário. Quando o voo vai, eles também vão embora. Pronto!”, simplifica Elustondo. O tamanho, em si, não teria maior importância: “um aeroporto regional tem que ser pequeno, o nacional um pouco maior e o internacional maior ainda? Não faz sentido”, diz o diretor.
O que ele salienta repetidamente é o que considera de maior importância em qualquer aeroporto, principalmente no que comanda: a segurança. “Mexemos com vidas”, diz. Alguns dias antes, uma equipe de 11 militares da Aeronáutica foi ao aeroporto regional realizar uma de suas inspeções periódicas e observou os equipamentos referentes a auxílio de navegação, balizamento da pista (luzes que servem de orientação), a biruta, entre outros. Segundo o diretor, tanto a estrutura quanto a questão da segurança de voo foram elogiadas.
Elustondo afirma que os usuários costumam aliar segurança com tamanho do aeroporto. Prova disso é o canal de inspeção, novo aparelho de raio-x de bagagem, instalado em julho de 2009. Em Caxias, ele é alvo de críticas. O aparelho mostra em sua tela o conteúdo de bolsas e malas de qualquer passageiro, que é obrigado a disponibilizar sua bagagem para poder embarcar no avião. Com sensores que detectam materiais orgânicos e metais, a tela se mostra colorida de tons vermelhos, azuis e verdes. Ao lado, há uma caixa com objetos barrados, na maioria estiletes e canivetes.
Elustondo conta que no ano passado 126.119 pessoas utilizaram os serviços do aeroporto regional. Se formos ampliar a conta e pensar que cada pessoa que embarcou levou um acompanhante para a despedida ou foi recepcionada por uma pessoa, sem contar os usuários informais, vizinhos que utilizam os banheiros ou param para um lanche, o número chega a aproximadamente 380 mil pessoas circulando pelo aeroporto. Isso levando em consideração que o expediente lá, quando não há necessidade de uma prorrogação de horário, é das 7h às 20h.
Um novo aeroporto não significa ameaça ao regional, pelo menos por enquanto. A curto e médio prazo, as reformas atendem as demandas necessárias. O aeroporto deve ser pensado a longo prazo. “Um novo local se faz necessário, sim, e acho a discussão ótima. Um investimento dessa envergadura e perenidade é de grande importância”, ressalta o diretor.
“Um novo local se faz necessário. Um investimento dessa envergadura e perenidade é de grande
importância”, diz Elustondo
De acordo com ele, Vila Oliva comportaria um espaço de 6 mil m², sendo 4 mil m² para a pista e mais 1 mil m² para cada cabeceira, além de uma área de escape em caso de tragédia. Monte Bérico ofereceria uma pista de 2.300 m², não superando muito a do aeroporto regional, que possui 2 mil m². Outros aspectos levados em consideração pela Anac são as zonas de proteção de ruído e ambiental, além de possíveis obstáculos. Em Monte Bérico existiria um, impossível de ser desapropriado – nada menos do que o Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio –, favorecendo mais uma vez Vila Oliva.
Quem esteve no distrito caxiense em 1996 para uma observação inicial foi o consultor técnico de Meio Ambiente da CIC, Victor Hugo De Lazzer, que aprova entusiasticamente Vila Oliva. “O lugar é maravilhoso. As condições climáticas são boas, a altitude também e, além disso, há uma antiga estrada dos tropeiros que liga Vila Oliva à Cascata do Caracol, em Canela, percorrendo a distância de uns 35 km”, enfatiza. Para ele, a área será ideal tanto para o turismo, pensando também nos municípios de Canela e Gramado, quanto para as atividades industriais tão características de Caxias. “Por isso, é ideal”, categoriza.
Quem também torce para contar com um empreendimento desse porte na vizinhança é o sub-prefeito de Vila Oliva, Nelson Marcarini. De acordo com ele, a comunidade é toda a favor do que considera grande avanço. “Vai ser muito bom pela geração de empregos, pelo favorecimento do turismo e maior movimento no comércio local”, afirma Marcarini.
Mas para isso acontecer, ainda faltam muitas horas de voo. Para o coordenador do DAP, Fernando Coronel, é difícil se posicionar agora quanto a valores e uma estimativa de tempo para a entrega de um novo aeroporto para a região. Ele concorda, porém, que a média estipulada de 10 anos para a construção não foge da realidade. Outras questões, como o deslocamento entre uma cidade e outra ou, no caso de Vila Oliva, do interior ao centro de Caxias, continuarão em aberto. Por ora, só o que pode ser resolvido é a escolha do local. E só a palavra da governadora poderá afastar de vez as nuvens que envolvem a disputa entre os distritos de Caxias do Sul e de Farroupilha.
Da versão impressa
Foto: O aeroporto atual está recebendo investimento de R$ 2,3 milhões| Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense
















Comentários
2 de February de 2010 às 14:02
[...] da Festa da Uva, que começa oficialmente no dia 18 de fevereiro, terá três voos a menos no aeroporto Regional Hugo Cantergiani, de Caxias do Sul. Por ser semana de carnaval, dois voos da Gol foram cancelados na segunda-feira, [...]
4 de February de 2010 às 10:02
A Serra Gaúcha necessita de um aeroporto a sua altura econômica e turística. A região de Vila Oliva é estratégica.
Esperamos que a governadora não apenas confirme este sítio, mas também apresente um cronograma de sua implantação.
Os investimentos no atual aeroporto são necessários, pois a estrutura atual não é adequada aos serviços comerciais que tem.
7 de April de 2010 às 13:11
[...] de aborrecimento, especialmente quando baixa a cerração. Desde domingo, com a mudança do clima, o Aeroporto Regional fechou várias vezes. Metade dos voos da Gol de e para São Paulo foi deslocada para o Salgado [...]
3 de May de 2010 às 16:56
[...] interferir junto à governadora Yeda Crusius diante dos rumores de que o anúncio do novo local do Aeroporto Regional de Caxias do Sul somente depois das eleições. O presidente da entidade empresarial disse que a comunidade caxiense [...]
6 de May de 2010 às 23:11
Por depressão,e geografia o lugar sera apropriado no alto do prado km 122 sentido leste partindo da rs 122, km 122,e visibilidade de decolagem e aterrizagem favorável,conforme pesquisas a pilotos,comerciais .
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