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    Um focinho pede carinho

    por O Caxiense | 25/12/2009 às 13:57

    Vítimas da desumanidade de alguns, cães e gatos maltratados e abandonados são salvos pela  compaixão de outros, enquanto guardam pelo amor de novos donos
    Você chega em casa e tem seu animalzinho de estimação lhe esperando. Ele o recebe com a alegria de quem sente a maior saudade do mundo. Não tem como não sorrir e agradecer pela existência de companheiro tão fiel.
    As ruas da cidade estão repletas de cães e gatos com a mesma capacidade de amar, proteger e dar carinho, como o que você tem em casa, mas ninguém os aceita. Por conta disso, eles estão sujeitos a doenças e a maus tratos. Quem gosta de animais entende a dedicação deles ao dono e também sofre um pouquinho cada vez que vê um bicho sofrendo.
    A Sociedade Amigos dos Animais (Soama) é uma organização não governamental administrada por uma de suas fundadoras, Dinamar Maria Oselame Valenti, que acolhe animais abandonados em Caxias do Sul. A entidade, com oito funcionários, recebe apoio financeiro da prefeitura, mas a principal forma de entrada de recursos é a venda de produtos relacionados à marca.
    Há 11 anos Dinamar trabalha na entidade e convive com animais que sofreram desde abandono até agressão física. Para ela, em todo esses anos, nada mudou em relação ao comportamento humano. “As pessoas continuam sem consciência de que o animal também merece uma vida digna”, protesta Dinamar. Um pouco da fé na humanidade se foi.
    Dinamar é responsável pela supervisão das adoções e explica que as pessoas preferem levar os filhotes para casa. Mas a Soama abriga muitos animais que chegaram recém-nascidos e não foram adotados. Há uma preferência também por aqueles de pequeno porte, que chega a aproximadamente 90%. Filhotes grandes ou animais já com certa idade tendem a passar o resto de suas vidas por lá.
    A chácara, em São Virgílio da 6ª Légua, tem uma faixa na entrada informando a contagem de seus moradores: 1.800 animais. “Mas está bem desatualizada”, adverte Dinamar. Com três hectares, o chão de terra batida do local acomoda o que parece uma favela de bichos, com casinhas a perder de vista espalhadas pelo terreno. Ou, como diz a administradora, “é um cãodomínio”.
    Na entrada, um portão enorme de ferro se abre e permite avançar pela estrada ladeada de casinhas. Logo à esquerda, uma cachorra late agressivamente e chega a assustar uma das tratadoras, que lhe dava água. É uma exceção. Por mais que praticamente todos os cachorros tenham sido vítimas de maus tratos, normalmente eles ficam extasiados com a presença de quem possa lhes dar atenção.
    Os animais são distribuídos em casinhas ou em canis. Alguns são pequenos e parecem mais com galinheiros. Nesses menores ficam alguns dos animais adoentados. Nos canis maiores os cachorros ficam melhor alojados, pois contam com a vantagem de não estarem presos pelas correntes de mais ou menos um metro que seguram os outros. Mais ao fundo, encontra-se o hospital. Lá fica a maior parte dos bichos doentes, que estão recebendo tratamento, aguardando uma visita do veterinário ou em recuperação. Todas as cirurgias são feitas fora da Soama, por veterinários parceiros.
    A entrada de cachorros e gatos na entidade é muito maior do que a saída. Para levar um bichinho para casa, é só ir até a chácara nas segundas-feiras, quintas-feiras e sábados, das 15h às 17h, e escolher um felizardo. Outra maneira é ir na feirinha realizada mensalmente no estacionamento da prefeitura, sempre em um domingo de bom tempo.
    Para adotar um cachorro ou gato da instituição, deve-se preencher e respeitar um termo de responsabilidade, onde precisam constar informações como quantas pessoas coabitarão com o bicho de estimação e qual o local escolhido para manter o animal. Se esse termo de alguma forma for desrespeitado e isso for descoberto pela fiscalização da Soama, a entidade pode entrar com ação no Ministério Público contra o dono. Deve-se, também, pagar R$ 25, referentes à vacinação e ao vermífugo aplicados. “A taxa é cobrada principalmente para valorização do animal, para ninguém achar que só porque é de graça ele é descartável”, explica Dinamar.
    Outro local que abriga animais abandonados é a chácara de Flávio Dias. Sua esposa, Maria Beatriz dos Reis Dias, estima que entre cães e gatos há uns 300. Flávio não faz a menor ideia, perdeu a conta. Há sete anos o casal se mudou para a chácara, no bairro Parque Oásis, próximo ao Cemitério Parque.
    Conforme Beatriz, quando foram olhar o terreno para avaliar a compra, Flávio pensava em instalar por lá uma empresa. Ao ver aquele espaço verde, mudou de ideia. “Vou realizar meu sonho de infância, vou encher isso aqui de cachorro”, disse Flávio para a esposa. Ela topou.
    À beira da estrada, quem entra é recepcionado, com originalidade, por um pinheiro de Natal – uma árvore do terreno decorada com estrelas cadentes e luas recortadas de embalagens de ração – e um presépio – formado por estátuas de animais rodeando São Francisco de Assis e montado dentro de uma casinha de cachorro. À noite, as lâmpadas em volta da árvore são acesas. “É Natal pra eles também”, sorri Beatriz, referindo-se aos animais. Logo adiante, centenas de casinhas estão espalhadas por um terreno acidentado e repleto de árvores. Um pavilhão à direita serve de depósito e de abrigo aos bichinhos mais afetados. Lá fica uma caminhonete que não funciona mais, mas seu capô é aproveitado como cama por Dóris, uma gata cinza.
    Ali também se encontra uma prova de crueldade – e de resistência. Depois de sofrer uma tentativa de degola com um arame, um filhote que parece mistura de pastor alemão e rotweiller se recupera em uma gaiola. Mesmo com o corte ainda bem à vista, o filhotão se anima e pede carinho. A situação do bicho entristece por demonstrar a maldade que um ser humano é capaz de fazer, mas alegra por comprovar a inocência e a falta de rancor de um animal. Beatriz tem certeza que o cachorro logo se recuperará. “Fiquei com tanta raiva que tive vontade de publicar por aí ‘fio de náilon, arame… por que não uma coleira?’ Foi uma cena horrível de se ver”, revolta-se ela.
    Ao contrário da Soama, na chácara de Flávio e Beatriz as adoções são mais comuns. Num mesmo dia levaram cinco cachorros. “Mas eu digo que eles têm que ser bem cuidados, já sofreram demais. Se não é pra cuidar com dignidade, que os deixem aqui”, exalta-se Flávio. Segundo ele, só neste ano foram doados cerca de 400 animais. Nada é cobrado, mas também nenhum tratamento de saúde é feito. “A única cobrança é para que eles sejam tratados direito.”
    Carinhoso, o dono da chácara é saudado efusivamente pelos bichos enquanto passa apontando um por vez, dizendo seus nomes e contando suas invariavelmente lastimáveis histórias. “Falo com eles sempre, assim se sentem bem e ficam alegres. Já tiveram tanta tristeza na vida, né?”, conta Flávio. O casal se refere aos seus hóspedes como “filhos”, preenchendo com amor o que não conseguem dar materialmente. “Eles são os melhores amigos que eu já arrumei”, assinala Flávio. O trabalho é 24 horas por dia, sem férias, sem domingos de folga, sem feriados. Mas eles não reclamam. “Não tem felicidade maior do que isso. Com eles se sabe que o carinho é real, que são puros”, diz Flávio.  “Com eles se tem paz”, completa Beatriz.
    Os animais consomem 125 quilos de ração por dia, que é dada junto com arroz e miúdos de galinha. A infraestrutura não é das melhores. Por conta disso, voluntárias organizam eventos para arrecadar donativos à chácara. Aceita-se desde ração para cães e gatos até cobertores, tapetes e lençóis. Tudo que traga mais conforto.
    *
    “Não tem nada a ver com lucro, porque ele não existe. É por amor mesmo”, enfatiza Corina, da SOS Animal
    *
    Mesmo com iniciativas como essas, muito animais são abandonados e, consequentemente, maltrados pelas ruas de Caxias. Uma das soluções para essa superpopulação de rua é a castração. De acordo com a coordenadora de Vigilância e Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Arlete Viezzer Bianchi, uma das funções do órgão é o trabalho preventivo, de conscientização. Um projeto pedagógico, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, deve estar nas escolas em 2010. Alunos da rede municipal aprenderão como tratar seu bicho de estimação, recebendo dicas sobre  cuidados necessários e posse responsável. “O trabalho é de conscientização da população, com ações em conjunto para diminuir a quantidade de animais de rua e das entidades que os recolhem. Não pensar nisso é agressão aos próprios animais”, afirma Arlete. “Esperamos que a população se torne parceira e faça sua parte”, complementa a coordenadora.
    Um dos planos da secretaria, a criação de um polêmico Centro de Zoonoses, onde seriam realizados tratamentos veterinários, castrações e a impopular eutanásia, não sairá do papel. Depois da aprovação de uma lei estadual que proíbe o extermínio de animais pelos órgãos de controle de zoonoses, a implantação do estabelecimento caxiense foi cancelada pelo prefeito José Ivo Sartori em julho deste ano.
    A castração é uma alternativa. Ela evita a reprodução em larga escala e, por consequência, o abandono e a necessidade de adoção. Mas essa medida não depende só do bom senso das pessoas. Ela custa dinheiro. Quem não tem condições de levar seu bichinho a uma clínica veterinária comum encontra a solução na SOS Animal, ONG capitaneada por Corina Pivotto Meletti.
    Lá, as castrações custam praticamente a metade do preço normal. Cobra-se R$ 50 para gatos e R$ 60 para cachorros até 15 quilos. Os mais gordinhos pagam mais, por conta da quantidade de anestésico a ser utilizado. Desse valor, R$ 30 vão para o médico veterinário que realizar a cirurgia. São três os que atuam na ONG. Para quem não pode pagar nem essa quantia, ainda há outra maneira. Por meio de um cadastro na prefeitura, pessoas de baixa renda têm o direito de ter seu animal castrado sem custo algum, nem o de transporte.
    Duas moças da SOS Animal vão até a casa do cidadão pela manhã e recolhem o bichinho – não necessariamente um só. Na sua planilha de controle das castrações, Corina aponta casos como o de residências com 14 gatos levados de uma vez para a clínica. A quantidade não importa. Eles não vão embora até terminar todo o serviço, mesmo que supere a média diária de 20 animais.
    Corina, uma senhora de curtos cabelos brancos, é uma das fundadoras da Soama. Há três anos deu início à SOS Animal, um trabalho que, de acordo com ela, não rende dinheiro, só satisfação. “Aqui não tem nada a ver com lucro, porque ele não existe. O dinheiro vai para os veterinários, os remédios, os funcionários. É por amor mesmo”, explica Corina.
    A clínica fica na Rua Antônio Prado, entre a Visconde de Pelotas e a Garibaldi, no Centro. É no térreo de uma casa comum, alugada. Logo na entrada dá-se de cara com o que parecem engradados de cachorros e gatos. São caixas onde os animais são transportados. Mais adiante, no corredor, em grande gaiolas, bichos que ainda não foram para a mesa de cirurgia aguardam sua vez. Atrás das últimas grades, a marca da maldade humana. Dois animais, que recebem carinho especial dos funcionários, repousam. Uma delas é uma cachorrinha da raça pinscher, com os olhos totalmente brancos pela cegueira, além da boca torta e da língua que pende para fora. “Abandonaram sabe-se lá depois de dar quantas crias bem valorosas”, entristece-se Corina. A outra é uma gata sem os dois olhos. Chegou lá com os globos oculares pendurados depois de ser atacada propositalmente por cachorros atiçados pelos donos.
    No seu escritório com paredes forradas de imagens de cachorros e gatos, ladeado por uma pequena cozinha e três salas de cirurgia, Corina conta que ela e o marido ganharam do filho uma viagem à Itália. Então, ela sugeriu ao esposo que, ao invés do passeio, realizassem uma vontade dela. Com o a concordância dele é que nasceu a clínica, à qual Corina se refere como “SUS animal”. “Isso é o que me deixa feliz, mais que a Itália. E aqui somos uma família.”
    Na mesa repleta de papéis, onde se perde um telefone bege antigo, daqueles de disco, há um calendário com mensagens diárias de como viver melhor. Entre elas, deveria constar que o respeito com outros seres vivos, humanos ou não, é essencial. Longe dali, Flávio Dias completa o recado: “Se cada pessoa praticasse um pouco de bondade, o mundo seria um lugar bem melhor”.
    Da versão impressa.
    Foto: Filhotes são os preferidos na hora da adoção. Cães mais velhos e de maior porte são deixados de lado | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense

    Vítimas da desumanidade de alguns, cães e gatos maltratados e abandonados são salvos pela  compaixão de outros, enquanto guardam pelo amor de novos donos

    Você chega em casa e tem seu animalzinho de estimação lhe esperando. Ele o recebe com a alegria de quem sente a maior saudade do mundo. Não tem como não sorrir e agradecer pela existência de companheiro tão fiel.

    As ruas da cidade estão repletas de cães e gatos com a mesma capacidade de amar, proteger e dar carinho, como o que você tem em casa, mas ninguém os aceita. Por conta disso, eles estão sujeitos a doenças e a maus tratos. Quem gosta de animais entende a dedicação deles ao dono e também sofre um pouquinho cada vez que vê um bicho sofrendo.

    A Sociedade Amigos dos Animais (Soama) é uma organização não governamental administrada por uma de suas fundadoras, Dinamar Maria Oselame Valenti, que acolhe animais abandonados em Caxias do Sul. A entidade, com oito funcionários, recebe apoio financeiro da prefeitura, mas a principal forma de entrada de recursos é a venda de produtos relacionados à marca.

    Há 11 anos Dinamar trabalha na entidade e convive com animais que sofreram desde abandono até agressão física. Para ela, em todo esses anos, nada mudou em relação ao comportamento humano. “As pessoas continuam sem consciência de que o animal também merece uma vida digna”, protesta Dinamar. Um pouco da fé na humanidade se foi.

    Dinamar é responsável pela supervisão das adoções e explica que as pessoas preferem levar os filhotes para casa. Mas a Soama abriga muitos animais que chegaram recém-nascidos e não foram adotados. Há uma preferência também por aqueles de pequeno porte, que chega a aproximadamente 90%. Filhotes grandes ou animais já com certa idade tendem a passar o resto de suas vidas por lá.

    A chácara, em São Virgílio da 6ª Légua, tem uma faixa na entrada informando a contagem de seus moradores: 1.800 animais. “Mas está bem desatualizada”, adverte Dinamar. Com três hectares, o chão de terra batida do local acomoda o que parece uma favela de bichos, com casinhas a perder de vista espalhadas pelo terreno. Ou, como diz a administradora, “é um cãodomínio”.

    Na entrada, um portão enorme de ferro se abre e permite avançar pela estrada ladeada de casinhas. Logo à esquerda, uma cachorra late agressivamente e chega a assustar uma das tratadoras, que lhe dava água. É uma exceção. Por mais que praticamente todos os cachorros tenham sido vítimas de maus tratos, normalmente eles ficam extasiados com a presença de quem possa lhes dar atenção.

    Os animais são distribuídos em casinhas ou em canis. Alguns são pequenos e parecem mais com galinheiros. Nesses menores ficam alguns dos animais adoentados. Nos canis maiores os cachorros ficam melhor alojados, pois contam com a vantagem de não estarem presos pelas correntes de mais ou menos um metro que seguram os outros. Mais ao fundo, encontra-se o hospital. Lá fica a maior parte dos bichos doentes, que estão recebendo tratamento, aguardando uma visita do veterinário ou em recuperação. Todas as cirurgias são feitas fora da Soama, por veterinários parceiros.

    A entrada de cachorros e gatos na entidade é muito maior do que a saída. Para levar um bichinho para casa, é só ir até a chácara nas segundas-feiras, quintas-feiras e sábados, das 15h às 17h, e escolher um felizardo. Outra maneira é ir na feirinha realizada mensalmente no estacionamento da prefeitura, sempre em um domingo de bom tempo.

    Para adotar um cachorro ou gato da instituição, deve-se preencher e respeitar um termo de responsabilidade, onde precisam constar informações como quantas pessoas coabitarão com o bicho de estimação e qual o local escolhido para manter o animal. Se esse termo de alguma forma for desrespeitado e isso for descoberto pela fiscalização da Soama, a entidade pode entrar com ação no Ministério Público contra o dono. Deve-se, também, pagar R$ 25, referentes à vacinação e ao vermífugo aplicados. “A taxa é cobrada principalmente para valorização do animal, para ninguém achar que só porque é de graça ele é descartável”, explica Dinamar.

    Outro local que abriga animais abandonados é a chácara de Flávio Dias. Sua esposa, Maria Beatriz dos Reis Dias, estima que entre cães e gatos há uns 300. Flávio não faz a menor ideia, perdeu a conta. Há sete anos o casal se mudou para a chácara, no bairro Parque Oásis, próximo ao Cemitério Parque.

    Conforme Beatriz, quando foram olhar o terreno para avaliar a compra, Flávio pensava em instalar por lá uma empresa. Ao ver aquele espaço verde, mudou de ideia. “Vou realizar meu sonho de infância, vou encher isso aqui de cachorro”, disse Flávio para a esposa. Ela topou.

    À beira da estrada, quem entra é recepcionado, com originalidade, por um pinheiro de Natal – uma árvore do terreno decorada com estrelas cadentes e luas recortadas de embalagens de ração – e um presépio – formado por estátuas de animais rodeando São Francisco de Assis e montado dentro de uma casinha de cachorro. À noite, as lâmpadas em volta da árvore são acesas. “É Natal pra eles também”, sorri Beatriz, referindo-se aos animais. Logo adiante, centenas de casinhas estão espalhadas por um terreno acidentado e repleto de árvores. Um pavilhão à direita serve de depósito e de abrigo aos bichinhos mais afetados. Lá fica uma caminhonete que não funciona mais, mas seu capô é aproveitado como cama por Dóris, uma gata cinza.

    Ali também se encontra uma prova de crueldade – e de resistência. Depois de sofrer uma tentativa de degola com um arame, um filhote que parece mistura de pastor alemão e rotweiller se recupera em uma gaiola. Mesmo com o corte ainda bem à vista, o filhotão se anima e pede carinho. A situação do bicho entristece por demonstrar a maldade que um ser humano é capaz de fazer, mas alegra por comprovar a inocência e a falta de rancor de um animal. Beatriz tem certeza que o cachorro logo se recuperará. “Fiquei com tanta raiva que tive vontade de publicar por aí ‘fio de náilon, arame… por que não uma coleira?’ Foi uma cena horrível de se ver”, revolta-se ela.

    Ao contrário da Soama, na chácara de Flávio e Beatriz as adoções são mais comuns. Num mesmo dia levaram cinco cachorros. “Mas eu digo que eles têm que ser bem cuidados, já sofreram demais. Se não é pra cuidar com dignidade, que os deixem aqui”, exalta-se Flávio. Segundo ele, só neste ano foram doados cerca de 400 animais. Nada é cobrado, mas também nenhum tratamento de saúde é feito. “A única cobrança é para que eles sejam tratados direito.”

    Carinhoso, o dono da chácara é saudado efusivamente pelos bichos enquanto passa apontando um por vez, dizendo seus nomes e contando suas invariavelmente lastimáveis histórias. “Falo com eles sempre, assim se sentem bem e ficam alegres. Já tiveram tanta tristeza na vida, né?”, conta Flávio. O casal se refere aos seus hóspedes como “filhos”, preenchendo com amor o que não conseguem dar materialmente. “Eles são os melhores amigos que eu já arrumei”, assinala Flávio. O trabalho é 24 horas por dia, sem férias, sem domingos de folga, sem feriados. Mas eles não reclamam. “Não tem felicidade maior do que isso. Com eles se sabe que o carinho é real, que são puros”, diz Flávio.  “Com eles se tem paz”, completa Beatriz.

    Os animais consomem 125 quilos de ração por dia, que é dada junto com arroz e miúdos de galinha. A infraestrutura não é das melhores. Por conta disso, voluntárias organizam eventos para arrecadar donativos à chácara. Aceita-se desde ração para cães e gatos até cobertores, tapetes e lençóis. Tudo que traga mais conforto.

    “Não tem nada a ver com lucro, porque ele não existe. É por amor mesmo”, enfatiza Corina, da SOS Animal

    Mesmo com iniciativas como essas, muito animais são abandonados e, consequentemente, maltrados pelas ruas de Caxias. Uma das soluções para essa superpopulação de rua é a castração. De acordo com a coordenadora de Vigilância e Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Arlete Viezzer Bianchi, uma das funções do órgão é o trabalho preventivo, de conscientização. Um projeto pedagógico, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, deve estar nas escolas em 2010. Alunos da rede municipal aprenderão como tratar seu bicho de estimação, recebendo dicas sobre  cuidados necessários e posse responsável. “O trabalho é de conscientização da população, com ações em conjunto para diminuir a quantidade de animais de rua e das entidades que os recolhem. Não pensar nisso é agressão aos próprios animais”, afirma Arlete. “Esperamos que a população se torne parceira e faça sua parte”, complementa a coordenadora.

    Um dos planos da secretaria, a criação de um polêmico Centro de Zoonoses, onde seriam realizados tratamentos veterinários, castrações e a impopular eutanásia, não sairá do papel. Depois da aprovação de uma lei estadual que proíbe o extermínio de animais pelos órgãos de controle de zoonoses, a implantação do estabelecimento caxiense foi cancelada pelo prefeito José Ivo Sartori em julho deste ano.

    A castração é uma alternativa. Ela evita a reprodução em larga escala e, por consequência, o abandono e a necessidade de adoção. Mas essa medida não depende só do bom senso das pessoas. Ela custa dinheiro. Quem não tem condições de levar seu bichinho a uma clínica veterinária comum encontra a solução na SOS Animal, ONG capitaneada por Corina Pivotto Meletti.

    Lá, as castrações custam praticamente a metade do preço normal. Cobra-se R$ 50 para gatos e R$ 60 para cachorros até 15 quilos. Os mais gordinhos pagam mais, por conta da quantidade de anestésico a ser utilizado. Desse valor, R$ 30 vão para o médico veterinário que realizar a cirurgia. São três os que atuam na ONG. Para quem não pode pagar nem essa quantia, ainda há outra maneira. Por meio de um cadastro na prefeitura, pessoas de baixa renda têm o direito de ter seu animal castrado sem custo algum, nem o de transporte.

    Duas moças da SOS Animal vão até a casa do cidadão pela manhã e recolhem o bichinho – não necessariamente um só. Na sua planilha de controle das castrações, Corina aponta casos como o de residências com 14 gatos levados de uma vez para a clínica. A quantidade não importa. Eles não vão embora até terminar todo o serviço, mesmo que supere a média diária de 20 animais.

    Corina, uma senhora de curtos cabelos brancos, é uma das fundadoras da Soama. Há três anos deu início à SOS Animal, um trabalho que, de acordo com ela, não rende dinheiro, só satisfação. “Aqui não tem nada a ver com lucro, porque ele não existe. O dinheiro vai para os veterinários, os remédios, os funcionários. É por amor mesmo”, explica Corina.

    A clínica fica na Rua Antônio Prado, entre a Visconde de Pelotas e a Garibaldi, no Centro. É no térreo de uma casa comum, alugada. Logo na entrada dá-se de cara com o que parecem engradados de cachorros e gatos. São caixas onde os animais são transportados. Mais adiante, no corredor, em grande gaiolas, bichos que ainda não foram para a mesa de cirurgia aguardam sua vez. Atrás das últimas grades, a marca da maldade humana. Dois animais, que recebem carinho especial dos funcionários, repousam. Uma delas é uma cachorrinha da raça pinscher, com os olhos totalmente brancos pela cegueira, além da boca torta e da língua que pende para fora. “Abandonaram sabe-se lá depois de dar quantas crias bem valorosas”, entristece-se Corina. A outra é uma gata sem os dois olhos. Chegou lá com os globos oculares pendurados depois de ser atacada propositalmente por cachorros atiçados pelos donos.

    No seu escritório com paredes forradas de imagens de cachorros e gatos, ladeado por uma pequena cozinha e três salas de cirurgia, Corina conta que ela e o marido ganharam do filho uma viagem à Itália. Então, ela sugeriu ao esposo que, ao invés do passeio, realizassem uma vontade dela. Com o a concordância dele é que nasceu a clínica, à qual Corina se refere como “SUS animal”. “Isso é o que me deixa feliz, mais que a Itália. E aqui somos uma família.”

    Na mesa repleta de papéis, onde se perde um telefone bege antigo, daqueles de disco, há um calendário com mensagens diárias de como viver melhor. Entre elas, deveria constar que o respeito com outros seres vivos, humanos ou não, é essencial. Longe dali, Flávio Dias completa o recado: “Se cada pessoa praticasse um pouco de bondade, o mundo seria um lugar bem melhor”.

    Da versão impressa.

    Foto: Filhotes são os preferidos na hora da adoção. Cães mais velhos e de maior porte são deixados de lado | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense

    Categoria: Impresso | Tags: Impresso

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    Comentários

    • Tweets that mention O Caxiense » Arquivo » Um focinho pede carinho -- Topsy.com
      8 de January de 2010 às 12:22

      [...] This post was mentioned on Twitter by Paula Sperb, Paula Sperb. Paula Sperb said: @anahifros que coisa linda, Anahi! Eu voto Raggio e sou muito a favor da adoção de animais. Parabéns! http://migre.me/fTiy [...]

    • O Caxiense » Arquivo » VÍDEO: Soama tem estande nos Pavilhões para ajudar animais abandonados
      4 de March de 2010 às 11:49

      [...] >>> LEIA: Um focinho pede carinho [...]

    • O Caxiense » Arquivo » Site oferece serviço online de adoção de animais abandonados
      20 de April de 2010 às 10:02

      [...] >>> LEIA TAMBÉM: Um focinho pede carinho [...]

    • O Caxiense » Arquivo » Soama aparece como “favela de cães” para o mundo
      27 de May de 2010 às 11:47

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      2 de June de 2010 às 18:14

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      7 de June de 2010 às 12:17

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    • O Caxiense » Arquivo » Projeto pretende tornar chácara de Flávio Dias de utilidade pública
      26 de July de 2011 às 22:07

      [...] Leia também: Um focinho pede carinho [...]

    • O Caxiense
      7 de September de 2011 às 10:05

      [...] Leia também: Um focinho pede carinho [...]

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