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    Celebração do interior

    por O Caxiense | 18/12/2009 às 9:57

    Nos distritos, o Natal bate de casa em casa, é cantado, rezado e encenado. É mais do que uma festa. É uma comunhão

    A cultura pode ser diferente, os rituais de cada comunidade também. Mas, no final, o objetivo acaba sendo um só: preparar o espírito para o Natal. É assim que as comunidades do interior de Caxias se organizam para comemorar a data. Tem Papai Noel, claro. Afinal, não dá para tirar essa alegria das crianças. Mas em lugares como Galópolis, Santa Lúcia do Piaí e Criúva, a grande estrela da festa é o Menino Jesus.
    Em Santa Lúcia, ele é tão importante que 120 pessoas se preparam durante o mês de dezembro só para anunciar o nascimento. Não é exagero. A encenação do presépio, que este ano acontece na noite do dia 24, às 22h, pouco antes da tradicional Missa do Galo, envolve os moradores de todas as comunidades que fazem parte do distrito. Significa que é muito difícil encontrar por lá uma família que não tenha um integrante ou parente participando da representação.
    Ninguém escapa. Os mais antigos são convocados para os papéis de reis magos e pastores. As crianças assumem os papéis de anjinhos e o bebê ganha espaço privilegiado no colo de Maria – que, aliás, comanda o espetáculo. Ela é Rosana Maria Fiorini Mantovani, 35 anos, responsável por coordenar todo o grupo, a maioria agricultores. “Não somos profissionais, mas fazemos tudo com amor. E isso faz a apresentação ficar bonita e emocionar o público”, conta Rosana, que diz ter visto diversas pessoas chorarem assistindo à encenação do Natal Esperança de Santa Lúcia.
    A dedicação é tanta que eles fazem as cenas parecerem mesmo reais. O marido de Rosana, Tiago Mantovani, 28 anos, começa a deixar a barba crescer dois meses antes do Natal para interpretar José. Tem anjinho com o cabelo tão encaracolado quanto as figuras barrocas que enfeitam algumas igrejas e até o bebê que representa o Menino Jesus se acalma quando ganha o colo da Nossa Senhora. O segredo? O coração, garante o rei mago Paulo José Silvestro, 44 anos. “Não temos vocação nenhuma para ser atores. E as crianças agitam os ensaios o tempo inteiro. Mas, como a gente tem vontade de fazer bonito, no dia dá tudo certo.”
    O mesmo entusiasmo move os músicos do Terno de Reis, realizado em Criúva há quase 40 anos. Eles percorrem o distrito cantando para anunciar o nascimento de Jesus. Na verdade, o rito é bem mais antigo do que isso, tem origem açoriana e foi trazido para a região pelos portugueses. Mas quatro décadas é o tempo que marca a retomada do hábito que havia sido abandonado.
    O Terno de Reis não é a única celebração do Divino Natal de Criúva, que tem encenação do presépio, missas e apresentações de coral. Mas é a que melhor representa a cultura e a fé da comunidade. Ganhou até uma igrejinha, a Capela Santos Reis, situada na comunidade conhecida como Boqueirão. E todo período de 25 de dezembro a 6 de janeiro um grupo de músicos, cantores e instrumentistas espera a noite cair para começar a visitar as famílias, em um ritual bem parecido com a Festa do Divino.
    A cantoria começa do lado de fora. Lá, versos improvisados pedem que o dono da casa abra a porta e receba os anunciadores. Normalmente, o grupo é formado por violeiros, violonistas e acordeonistas, além de duas duplas de cantores – a  primeira cria os versos e a segunda os repete. Eles cantam sem parar até a porta ser aberta. E nem sempre isso é rápido. “Quando a família gosta da melodia, a gente fica até mais de uma hora cantando do lado de fora antes de abrirem a porta. E só fazem isso quando a gente ameaça ir embora”, relata o Mestre do Terno de Reis, Jorge de Oliveira Rodrigues, 66 anos, mais conhecido na vizinhança por Boca de Sino.
    E a festa não para por aí. Ela continua do lado de dentro, onde os músicos cantam em frente ao presépio, e só termina quando eles se despedem, também em forma de música. O ritual é repetido de casa em casa até amanhecer. “A bandeira dos Santos Reis não pode ficar exposta à luz do dia. Então, na última casa antes de amanhecer, lá pelas 5h, nós deixamos a bandeira e encerramos a cantoria. Como o povo já está acostumado, na casa que fica por último o dono prepara um cafezão da manhã antes da gente ir embora. No dia seguinte, voltamos a essa casa à noite para pegar a bandeira e seguir a anunciação.”
    Como Criúva cresceu e o número de músicos dispostos a celebrar o terno de Reis diminuiu, nem todas as famílias conseguem ser visitadas – apenas aquelas que solicitam. Por causa disso, este ano, quem for à igreja matriz da localidade no dia 23 de dezembro, às 20h, poderá asssistir a essa celebração antecipadamente. “Pela tradição, a gente só poderia fazer isso depois do dia 25. Mas esse foi o jeito que encontraram de contentar todo mundo. Assim quem não é de Criúva ou não ia receber o Terno de Reis vai poder celebrar o nascimento de Jesus como manda a tradição açoriana e como se faz desde antigamente por aqui.”
    E Criúva não é a única localidade que preserva as tradições. Em Fazenda Souza, elas também são levadas a sério e com a simplicidade que a comemoração exige. José e Maria chegam na igreja a cavalo, junto com um grupo de cavaleiros que percorre as principais ruas do distrito para anunciar o nascimento de Jesus. A celebração, que este ano foi no dia 18 de dezembro, se encerra com a encenação do presépio vivo, em frente à igreja, e é uma das principais atividades de preparação ao Natal.
    A exemplo do que acontece em Ana Rech, a comunidade de Fazenda Souza também se mobiliza na montagem de presépios, ainda que em menor número: são 15 principais e outros menores construídos pelos moradores nos jardins de suas casas. As pessoas que forem ao distrito no dia 24 para a Missa do Galo, marcada para as 20h30, poderão fazer um passeio em um dindinho, que não passa de um trator com uma carroceiria, mas faz a alegria de quem visita o lugar, principalmente das crianças.
    Quem não puder participar de nenhuma dessas celebrações pode fazer como a comunidade de Galópolis, que até o dia 23 de dezembro realiza novenas quase todos os dias na igreja matriz para se preparar para o Natal. É um ritual levado tão a sério pelos moradores que até a presidente da associação do bairro, Maria Patricio Pinto, 46 anos, que é evangélica, se envolve. “Deus é um só”, ensina.
    Renato João Dall’Agnol, 48 anos, que sempre foi católico e aprendeu com a mãe a cultivar a fé, acredita no poder que o espírito natalino tem de unir as pessoas e caracteriza as novenas como um meio de fazer com que as pessoas se preparem para o principal acontecimento do Natal, que, para os cristãos, é o nascimento de Jesus. “O espírito da novena é desarmar as pessoas da raiva e do rancor, para deixarem o que têm de ruim para trás e se purificarem. E eu garanto que é bem melhor celebrar o Natal assim.”

    A cultura pode ser diferente, os rituais de cada comunidade também. Mas, no final, o objetivo acaba sendo um só: preparar o espírito para o Natal. É assim que as comunidades do interior de Caxias se organizam para comemorar a data. Tem Papai Noel, claro. Afinal, não dá para tirar essa alegria das crianças. Mas em lugares como Galópolis, Santa Lúcia do Piaí e Criúva, a grande estrela da festa é o Menino Jesus.

    Em Santa Lúcia, ele é tão importante que 120 pessoas se preparam durante o mês de dezembro só para anunciar o nascimento. Não é exagero. A encenação do presépio, que este ano acontece na noite do dia 24, às 22h, pouco antes da tradicional Missa do Galo, envolve os moradores de todas as comunidades que fazem parte do distrito. Significa que é muito difícil encontrar por lá uma família que não tenha um integrante ou parente participando da representação.

    Ninguém escapa. Os mais antigos são convocados para os papéis de reis magos e pastores. As crianças assumem os papéis de anjinhos e o bebê ganha espaço privilegiado no colo de Maria – que, aliás, comanda o espetáculo. Ela é Rosana Maria Fiorini Mantovani, 35 anos, responsável por coordenar todo o grupo, a maioria agricultores. “Não somos profissionais, mas fazemos tudo com amor. E isso faz a apresentação ficar bonita e emocionar o público”, conta Rosana, que diz ter visto diversas pessoas chorarem assistindo à encenação do Natal Esperança de Santa Lúcia.

    A dedicação é tanta que eles fazem as cenas parecerem mesmo reais. O marido de Rosana, Tiago Mantovani, 28 anos, começa a deixar a barba crescer dois meses antes do Natal para interpretar José. Tem anjinho com o cabelo tão encaracolado quanto as figuras barrocas que enfeitam algumas igrejas e até o bebê que representa o Menino Jesus se acalma quando ganha o colo da Nossa Senhora. O segredo? O coração, garante o rei mago Paulo José Silvestro, 44 anos. “Não temos vocação nenhuma para ser atores. E as crianças agitam os ensaios o tempo inteiro. Mas, como a gente tem vontade de fazer bonito, no dia dá tudo certo.”


    O mesmo entusiasmo move os músicos do Terno de Reis, realizado em Criúva há quase 40 anos. Eles percorrem o distrito cantando para anunciar o nascimento de Jesus. Na verdade, o rito é bem mais antigo do que isso, tem origem açoriana e foi trazido para a região pelos portugueses. Mas quatro décadas é o tempo que marca a retomada do hábito que havia sido abandonado.

    O Terno de Reis não é a única celebração do Divino Natal de Criúva, que tem encenação do presépio, missas e apresentações de coral. Mas é a que melhor representa a cultura e a fé da comunidade. Ganhou até uma igrejinha, a Capela Santos Reis, situada na comunidade conhecida como Boqueirão. E todo período de 25 de dezembro a 6 de janeiro um grupo de músicos, cantores e instrumentistas espera a noite cair para começar a visitar as famílias, em um ritual bem parecido com a Festa do Divino.

    A cantoria começa do lado de fora. Lá, versos improvisados pedem que o dono da casa abra a porta e receba os anunciadores. Normalmente, o grupo é formado por violeiros, violonistas e acordeonistas, além de duas duplas de cantores – a  primeira cria os versos e a segunda os repete. Eles cantam sem parar até a porta ser aberta. E nem sempre isso é rápido. “Quando a família gosta da melodia, a gente fica até mais de uma hora cantando do lado de fora antes de abrirem a porta. E só fazem isso quando a gente ameaça ir embora”, relata o Mestre do Terno de Reis, Jorge de Oliveira Rodrigues, 66 anos, mais conhecido na vizinhança por Boca de Sino.

    E a festa não para por aí. Ela continua do lado de dentro, onde os músicos cantam em frente ao presépio, e só termina quando eles se despedem, também em forma de música. O ritual é repetido de casa em casa até amanhecer. “A bandeira dos Santos Reis não pode ficar exposta à luz do dia. Então, na última casa antes de amanhecer, lá pelas 5h, nós deixamos a bandeira e encerramos a cantoria. Como o povo já está acostumado, na casa que fica por último o dono prepara um cafezão da manhã antes da gente ir embora. No dia seguinte, voltamos a essa casa à noite para pegar a bandeira e seguir a anunciação.”

    Como Criúva cresceu e o número de músicos dispostos a celebrar o terno de Reis diminuiu, nem todas as famílias conseguem ser visitadas – apenas aquelas que solicitam. Por causa disso, este ano, quem for à igreja matriz da localidade no dia 23 de dezembro, às 20h, poderá asssistir a essa celebração antecipadamente. “Pela tradição, a gente só poderia fazer isso depois do dia 25. Mas esse foi o jeito que encontraram de contentar todo mundo. Assim quem não é de Criúva ou não ia receber o Terno de Reis vai poder celebrar o nascimento de Jesus como manda a tradição açoriana e como se faz desde antigamente por aqui.”


    E Criúva não é a única localidade que preserva as tradições. Em Fazenda Souza, elas também são levadas a sério e com a simplicidade que a comemoração exige. José e Maria chegam na igreja a cavalo, junto com um grupo de cavaleiros que percorre as principais ruas do distrito para anunciar o nascimento de Jesus. A celebração, que este ano foi no dia 18 de dezembro, se encerra com a encenação do presépio vivo, em frente à igreja, e é uma das principais atividades de preparação ao Natal.

    A exemplo do que acontece em Ana Rech, a comunidade de Fazenda Souza também se mobiliza na montagem de presépios, ainda que em menor número: são 15 principais e outros menores construídos pelos moradores nos jardins de suas casas. As pessoas que forem ao distrito no dia 24 para a Missa do Galo, marcada para as 20h30, poderão fazer um passeio em um dindinho, que não passa de um trator com uma carroceiria, mas faz a alegria de quem visita o lugar, principalmente das crianças.

    Quem não puder participar de nenhuma dessas celebrações pode fazer como a comunidade de Galópolis, que até o dia 23 de dezembro realiza novenas quase todos os dias na igreja matriz para se preparar para o Natal. É um ritual levado tão a sério pelos moradores que até a presidente da associação do bairro, Maria Patricio Pinto, 46 anos, que é evangélica, se envolve. “Deus é um só”, ensina.

    Renato João Dall’Agnol, 48 anos, que sempre foi católico e aprendeu com a mãe a cultivar a fé, acredita no poder que o espírito natalino tem de unir as pessoas e caracteriza as novenas como um meio de fazer com que as pessoas se preparem para o principal acontecimento do Natal, que, para os cristãos, é o nascimento de Jesus. “O espírito da novena é desarmar as pessoas da raiva e do rancor, para deixarem o que têm de ruim para trás e se purificarem. E eu garanto que é bem melhor celebrar o Natal assim.”

    Da versão impressa.

    Foto: Terno de Reis passa de casa em casa no distrito de Criúva | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense

    Categoria: Cultura, Impresso | Tags: caxias do sul,Cultura,Impresso

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