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    A difícil missão de recomeçar

    por O Caxiense | 25/12/2009 às 15:59

    Milton Scola, presidente do Ju em 2010, gosta de ficar com a família, de vinhos e de arquitetura. E já gostou mais de futebol

    Prelúdio. Esse é o nome do vinho produzido por Milton Scola dentro do projeto Vinha Solo, desenvolvido em parceria com o caxiense Marco Danielle. Um tinto elaborado com uvas Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc que, segundo degustadores de sites especializados, está acima do padrão. Até bem pouco tempo atrás, as videiras que forram uma área de terras no distrito de Fazenda Souza eram as maiores preocupações do novo presidente do Juventude.

    Na noite de 17 de dezembro, quando foi eleito com o apoio dos ex-presidentes que integram o Conselho Consultivo alviverde, Scola discursou prometendo empenho e equilíbrio entre receita e despesa. Também disse que vai apostar nos jogadores das categorias de base para montar o time que deve iniciar a disputa do Gauchão a partir da segunda quinzena de janeiro. Naquele momento, Scola sabia que não dedicaria mais o tempo desejado para a família e os vinhos, suas paixões. A partir de 1º de janeiro, quando assume oficialmente o cargo de Sérgio Florian, o caxiense formado em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1981 terá um novo desafio: conduzir o Juventude no pior ano desde a fundação, em 1913.

    Casado e pai de duas filhas, Scola deixou de exercer a profissão de arquiteto e apostou na produção de vinhos há sete anos. Em 2009, participou da Expovinis Brasil (Salão Internacional do Vinho), em São Paulo. “Eu sou meio assim: gosto de vinhos, de arquitetura e de futebol”, resume-se. Mas Scola, que começou a atuar no clube em 1992, a convite do ex-presidente e líder da construção do Estádio Alfredo Jaconi (entre 1972 e 1974) Willy Sanvitto, garante que já gostou mais de futebol. “Não sei se terei prazer aqui dentro. Eu era um apaixonado pelo futebol. Como dirigente, sempre terei de agir com responsabilidade, sei disso”, contextualiza.
    Sentado em uma das salas do Departamento de Futebol do Jaconi e com a fisionomia preocupada, Scola olha vagamente para a mesa antes de responder perguntas pessoais. Sorriso, apenas um, bem no final da entrevista, ao comentar que foi parado em um supermercado durante a semana e questionado: “O que você faz, trabalha com educação?”, pediu um torcedor, referindo-se ao sobrenome de origem italiana. Antes disso, o barulho do ventilador de teto preencheu uma breve pausa antes de Scola contar o que gosta de fazer nas horas de folga: “Navego na internet e leio, mas gosto mesmo é de ficar em casa com minha família ou conversando com amigos e saboreando um bom vinho”.
    Quando o assunto é futebol, Scola muda, tem as respostas diretas, objetivas. O presidente, que foi ao estádio pela primeira vez depois da eleição somente na tarde de terça-feira, dia 22, parece focado. Ele levanta a cabeça, olha para a persiana que impede a visão da sala ao lado – onde estavam dirigentes, entre eles o vice de futebol, Juarez Ártico, e o gerente de futebol, Túlio Cunha Lima, que negociavam a contratação do novo técnico – e explica, com a experiência de ter sido presidente do clube em dois mandatos (1999 e 2000), que o Ju não pode ter um time caro e que não produza resultados em 2010.

    “Aprendi a observar muito para entender as decisões que eram tomadas. Hoje sou um dirigente, e não um torcedor”, lembra Scola

    Scola se associou no Esporte Clube Juventude quando completou 18 anos. Integrante de uma família formada exclusivamente – garante ele – de papos, 21 anos depois tornou-se dirigente e integrou uma comissão de obras, responsável por construir um ginásio na antiga sede campestre. Em 1993, acompanhou a assinatura do contrato de co-gestão com a multinacional Parmalat. “Muito dinheiro entrou nos cofres do clube. Foram mais de US$ 3,2 milhões na época, ninguém sabia quanto era isso.” Nos dois anos seguintes, foi vice-presidente de patrimônio. “Neste último ano, reformamos praticamente todo o estádio. Em 1994, conquistamos a Série B do Campeonato Brasileiro. Ou seja, estávamos na 1ª Divisão. Precisávamos modernizar o Jaconi. Ampliamos as cabines de imprensa, os vestiários e a pista frontal das arquibancadas, entre outros encaminhamentos. Para quem não lembra, o piso era de brita nesse local”, descreve.
    Em 1998, como vice de futebol do então presidente Gastão Brito, Scola participou da conquista invicta do Gauchão com o técnico Lori Sandri, título que quebrou uma hegemonia de mais de meio século dos clubes da capital. Em 1999, veio a principal glória alviverde: a Copa do Brasil. Scola era presidente (mesmo cargo que ocupou no ano seguinte), e Valmir Louruz, o treinador. Depois disso, se afastou, “por opção”, do mundo da bola. “Quando era jovem, cheguei a pensar em ser dirigente. Quando me tornei um, vi outra realidade. Aprendi a observar muito para entender as decisões que eram tomadas. Hoje, com o pouco que aprendi, digo que a razão deve predominar sobre a paixão. Hoje sou um dirigente, e não um torcedor. Mas, acima de tudo, um juventudista”, exclama. Passados 10 anos, Scola foi procurado pelo Conselho Consultivo, coordenado por Alfredo Sehbe. “Eu não tinha a intenção de voltar. Nem pensava em me lançar candidato. Nesse ponto, o apoio dos ex-presidentes foi fundamental. A carta aberta encaminhada por eles me deixou à vontade. O trabalho será e está sendo árduo, mas sei que contamos com apoio da maioria”, desabafa o presidente eleito com diferença de oito votos sobre o candidato da situação, José Antônio Boff, o Bofinho.
    Vestindo calça jeans, camisa e tênis All Star, Scola defende que o Juventude precisa colocar os pés no chão. O clube, que teve aporte milionário da Parmalat até 2000, quando a empresa encerrou a participação no futebol, continuou “a voar na mesma altitude, pois estava estabelecido. Agora, tem de baixar o avião e ter certeza de que, quando preciso, poderá pousar”, complementa.
    Na noite da eleição, Milton Scola ficou rodeado por conselheiros no Salão Nobre Walter Dal Zotto, no Jaconi. Após trâmites burocráticos, discursou para os cerca de 160 presentes: “Essa eleição histórica, a primeira a acontecer no clube desde sua fundação, vai nos ajudar ali na frente. Unidos, e independentemente do vencedor, teremos de tratar dos assuntos do Juventude racionalmente. Será preciso ser dar um passo atrás para nos fortalecermos”.

    “O enxugamento do quadro será inevitável. Temos uma estrutura de Série A, mas estamos na C”, avalia Scola

    Scola garante ter se rodeado de amigos para conduzir o trabalho – vice-presidente, Geandro Elias Turcatti; vice de patrimônio, Roberto Tonietto; vice administrativo e financeiro, Luiz Carlos Ghiotti; vice de marketing, Mauro Trojan; vice das categorias de base, Antônio Comerlato; vice de futebol, Juarez Ártico; e assessores da presidência, ex-presidentes Iguatemy Ferreira Filho, Walter Dal Zotto Júnior e Marcos Cunha Lima. Scola anuncia que seu projeto preza pela credibilidade. “Aqui ninguém vai fazer nada sozinho. Não podemos agir com paixão, mas com profissionalismo e foco no torcedor.” Conforme diz, o torcedor não deve pensar como um dirigente, caso contrário, perde o encanto. “Como aconteceu comigo depois de algumas situações. O maior patrimônio do Ju é a sua torcida. Ela já demonstrou diversas vezes do que é capaz. Eu já vi esse retorno. Confio na torcida.” Para estimular a participação da papada, a equipe de Scola estuda a criação de um plano de associados – o projeto está em fase de elaboração.
    Após a contratação de Osmar Loss como treinador, na quarta-feira, o primeiro passo é a diminuição mensal do déficit do clube (estimado em mais de R$ 6 milhões até o final de 2009). Para isso, equilibrar receita e despesa é fundamental, ressalta o dirigente. “Não podemos mais acumular dívidas. O enxugamento do quadro de funcionários será inevitável, em todas as áreas. Hoje o Juventude tem um total de 160 funcionários, incluindo atletas. Temos uma estrutura de Série A, mas estamos na Série C. Essa é nossa realidade. Chegou o momento no qual não podemos mais brincar”, alerta o enófilo Scola, morador do bairro Exposição.
    Como explica o dicionário Michaelis, prelúdio é “ato ou exercício preliminar; sinal ou indício de coisa que há de acontecer”. Agora, tudo depende das escolhas de Scola.

    Da versão impressa.

    Foto: Dirigente cultiva variedades viníferas no distrito de Fazenda Souza | Crédito: Maicon Damasceno/O Caxiense

    Categoria: Esportes, Impresso | Tags: Impresso,Juventude

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    Comentários

    • O Caxiense » Arquivo » Salários atrasados começam a ser acertados no Ju
      8 de January de 2010 às 11:41

      [...] a partir de hoje, acertar os salários atrasados dos funcionários do clube. De acordo com o presidente Milton Scola, os vencimentos de novembro e dezembro e o 13º salário ainda não tinham sido pagos. O montante [...]

    • O Caxiense » Arquivo » Encontro de presidentes pela paz no CA-JU
      29 de January de 2010 às 10:51

      [...] presidente do Juventude, Milton Scola, visita agora à tarde, às 14h30, o presidente do Caxias, Osvaldo Voges. O encontro será na sede [...]

    • O Caxiense » Arquivo » VÍDEO: Scola e Voges discutem futuro do Ju e do Caxias
      29 de January de 2010 às 15:33

      [...] da dupla CA-JU. Os presidentes reuniram-se na tarde de hoje para “tratar do futuro dos clubes”. Scola referiu-se dessa forma quando perguntado sobre o objetivo do [...]

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